terça-feira, 6 de setembro de 2022

Os mistérios da maior cidade subterrânea já descoberta no mundo

A antiga cidade de Elengubu, hoje conhecida como Derinkuyu, foi habitada de forma quase constante por milhares de anos, trocando de mãos, dos frígios para os persas e depois para os cristãos, na Era Bizantina. Até que foi finalmente abandonada nos anos 1920 pelos gregos capadócios, que fugiram em massa para a Grécia após a derrota na Guerra Greco-Turca de 1919-1922.
Uma enorme cidade subterrânea, que permaneceu ativa por milhares de anos quase sem interrupções, repousa a mais de 85 metros de profundidade, abaixo das famosas "chaminés de fadas" da Capadócia, na Turquia.

Rajadas de vento violentas erguem o solo no ar enquanto passeio pelo Vale do Amor da Capadócia. Colinas com tons de amarelo e rosa tingem o panorama marcado por profundos cânions vermelhos e formações rochosas que parecem grandes chaminés e surgem à distância.

O local é seco, quente e o vento é forte. Mas a beleza é avassaladora.

Milênios atrás, este volátil ambiente vulcânico esculpiu naturalmente os pináculos à minha volta, até que eles atingissem seus formatos cônicos parecidos com cogumelos, que agora atraem milhões de visitantes para caminhar ou andar de balão nesta região central da Anatólia.

Mas, abaixo da frágil superfície da Capadócia, encontra-se outra maravilha, também de proporções gigantescas, que passou séculos escondida: uma cidade subterrânea que podia abrigar por meses até 20 mil habitantes de cada vez.

A antiga cidade de Elengubu, hoje conhecida como Derinkuyu, fica a mais de 85 metros abaixo da superfície e inclui 18 níveis de túneis. É a maior cidade subterrânea escavada do mundo.

Ela foi habitada de forma quase constante por milhares de anos, trocando de mãos, dos frígios para os persas e depois para os cristãos, na Era Bizantina. Até que foi finalmente abandonada nos anos 1920 pelos gregos capadócios, que fugiram em massa para a Grécia após a derrota na Guerra Greco-Turca de 1919-1922.

Os salões da cidade espalham-se por centenas de quilômetros embaixo da terra, mas acredita-se que mais de 200 pequenas cidades subterrâneas separadas, que também foram descobertas na região, possam estar conectadas a esses túneis, criando uma enorme rede subterrânea.

Aves arqueólogas

Segundo Suleman, meu guia, Derinkuyu foi "redescoberta" apenas em 1963 por um morador local anônimo que estava perdendo suas galinhas. Enquanto ele reformava sua casa, as aves desapareciam em uma pequena fenda criada durante a reforma e nunca mais eram vistas.

O cidadão turco decidiu investigar o que estava acontecendo e, depois de cavar um pouco, ele desenterrou uma passagem escura. Foi a primeira de mais de 600 entradas para a cidade subterrânea de Derinkuyu que foram encontradas em casas particulares.

As escavações então começaram imediatamente. Elas revelaram uma emaranhada rede de moradias subterrâneas, espaços de armazenagem de alimentos secos, estábulos, escolas, vinícolas e até uma capela. Uma civilização inteira se escondia com segurança embaixo da terra.

A cidade das cavernas logo atraiu milhares de turistas turcos menos claustrofóbicos, até que, em 1985, a região foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco

Os responsáveis pela construção

A data exata da construção da cidade segue indefinida. Mas a referência mais antiga a Derinkuyu parece estar no livro Anábase, do historiador grego Xenofonte de Atenas, escrito em cerca de 370 a.C.

Nele, Xenofonte menciona o povo anatólio, que morava em casas escavadas no subterrâneo da Capadócia ou perto dela, e não nas cavernas mais populares ao longo dos rochedos, bem conhecidas na região.

Segundo Andrea De Giorgi, professor de estudos clássicos da Universidade do Estado da Flórida, nos Estados Unidos, a Capadócia é excepcionalmente adequada para este tipo de construção subterrânea, devido à falta de água no solo e às suas rochas maleáveis, que podem ser facilmente moldadas.

"A geomorfologia da região convida para escavar espaços subterrâneos", afirma ele. O professor explica que o tufo - a rocha do local - teria sido escavado com relativa facilidade, usando ferramentas simples, como pás e picaretas.

O mesmo material piroclástico foi moldado naturalmente nas chaminés de fadas e nos pináculos que brotam da terra acima do solo.

Mas definir quem construiu Derinkuyu permanece um mistério, ao menos parcialmente.

As bases da extensa rede de cavernas subterrâneas costumam ser atribuídas aos hititas, "que podem ter escavado os primeiros níveis na rocha quando foram atacados pelos frígios, perto do ano 1200 a.C.", segundo A. Bertini, especialista em moradias em cavernas no Mediterrâneo, no seu estudo sobre a arquitetura regional em cavernas.

Fortalecendo esta hipótese, foram encontrados artefatos hititas no interior de Derinkuyu.

Mas a maior parte da cidade provavelmente foi construída pelos frígios, que eram arquitetos muito habilidosos na Idade do Ferro e tinham os meios para construir instalações subterrâneas.

"Os frígios formaram um dos impérios mais importantes da antiga Anatólia", ensina De Giorgi. "Eles se desenvolveram ao longo da Anatólia ocidental por volta do final do primeiro milênio a.C. e costumavam transformar formações rochosas em monumentos e criar notáveis fachadas cortadas na rocha. Seu misterioso reino incluía a maior parte da Anatólia ocidental e central, incluindo a região de Derinkuyu."

No início, Derinkuyu provavelmente era usada para armazenar mercadorias, mas seu propósito principal era servir de abrigo temporário contra invasores estrangeiros. A Capadócia sofreu um fluxo constante de impérios dominadores ao longo dos séculos.

"A sucessão de impérios e seu impacto sobre o panorama da Anatólia explicam o motivo de recorrer a abrigos subterrâneos como Derinkuyu", segundo De Giorgi. "Mas foi na época dos ataques islâmicos [ao Império Bizantino, predominantemente cristão, no século 7°] que essas moradias foram mais utilizadas."

Mais informações e link da reportagem no site: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/09/06/os-misterios-da-maior-cidade-subterranea-ja-descoberta-no-mundo.ghtml


















Fonte das imagens: do Site G1

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Tronco fossilizado com mais de 200 milhões de anos é encontrado no interior do RS durante obra em rodovia

Material tem cerca quatro metros de comprimento, um metro de diâmetro e com peso estimado em sete toneladas


Uma obra de asfaltamento em uma rodovia resultou na descoberta de um tronco fossilizado com idade que ultrapassa os 200 milhões de anos. O fato ocorreu no distrito de Vale Vêneto, em São João do Polêsine, na região central do Rio Grande do Sul.

No mês passado, trabalhadores faziam atividades de asfaltamento da VRS-823. Como de praxe, uma equipe ambiental foi acionada para indicar pontos ambientalmente sensíveis antes do início das obras.

Durante a avaliação, os profissionais notaram que fósseis de troncos afloravam no eixo da rodovia. Assim, teve início o trabalho para retirar a peça do local.

– Quando iniciei a escavação do material, percebi que ele era muito maior do que imaginei. Então, com o apoio logístico da empresa que está fazendo a obra, começamos a escavação – explica José Darival Ferreira, biólogo, supervisor ambiental e paleontólogo da SD Engenharia e Consultoria, uma empresa que presta serviços ao Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer).

Os trabalhadores encontraram um tronco de uma árvore fossilizada que tem cerca quatro metros de comprimento, um metro de diâmetro e com peso estimado em sete toneladas.

– Comparando com outros estratos semelhantes, a idade estimada é de uns 240 milhões de anos – afirma o paleontólogo.

Os trabalhadores utilizaram uma retroescavadeira e um braço mecânico para colocar as peças no caminhão e transportá-las. Por fim, o tronco foi depositado de maneira definitiva no Centro de Apoio a Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), para fins de pesquisa e visitação turística.

Com arquitetura medieval europeia, castelo em Pedras Altas abrirá portas para visitantes e historiadores


Construção pertenceu à família de Assis Brasil, político que nomeia avenidas em cidades gaúchas, e foi cenário da Revolução de 1923

Um pacato município gaúcho, isolado por estradas de chão batido, abriga um centenário castelo de estilo europeu que mudou a história do Rio Grande do Sul. Os seis andares de amplos aposentos foram lar de Joaquim Francisco de Assis Brasil, político gaúcho de influência nacional cujo sobrenome batizou avenidas. Após viver dias de abandono, o castelo inaugurado em 1913, foi comprado em março deste ano por uma família de advogados empenhada em reabrir as portas a turistas e historiadores ávidos por um acervo raríssimo.

Os 44 cômodos, 12 quartos e cinco banheiros concentram antigos móveis, livros, fotografias, diários e cartas retratam a vida de poderosos da Primeira República, época do início do século 20. A hipnotizante biblioteca particular, considerada uma das mais raras do Brasil, reúne mais de 15 mil livros, incluindo títulos de colecionadores, como um exemplar de 1782 da Enciclopédia, dos franceses Diderot e d'Alembert.

A joia rara está encravada em uma granja de 300 hectares na pequena Pedras Altas, cidade de menos de 2 mil habitantes da Região Sul. O castelo, inspirado em palácios medievais europeus, foi construído para abrigar com conforto a esposa de Assis Brasil, Lydia Pereira Felício de São Mamede, descendente da nobreza de Portugal. Estudado, viajado e poliglota, Assis Brasil foi um rico estancieiro e político que articulou a Revolução de 1923, movimento que culminou em 1 mil gaúchos mortos (leia mais abaixo). O conflito foi finalizado com um acordo de paz assinado na sala de estar do castelo.

Até março deste ano, a granja estava sob posse dos 20 descendentes de Assis Brasil, que discordavam sob o destino a ser dado ao castelo - revitalizar, sob custo milionário, ou vender o patrimônio. Do dissenso, surgiu o abandono: o mofo cresceu nas paredes, a pintura do teto caiu sobre móveis, cortinas ficaram puídas, fotografias desbotaram, objetos foram saqueados e as pesadas portas de ferro fecharam-se ao público nos últimos anos.

O cenário mudou quando um dos herdeiros comunicou ao advogado de Santa Maria Luiz Carlos Segat, 56 anos, que a granja estava à venda. Segat e os três filhos buscavam uma propriedade para plantar soja e viram na oferta uma oportunidade. O terreno foi adquirido no nome dos filhos de Luiz Carlos, os advogados Rafael, 36, Gabriela, 33, e Kamilla, 30.

O advogado não quis tornar público o valor da transação, mas as obras de revitalização interna foram estimadas em R$ 10 milhões. O valor será obtido com verbas públicas da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e com patrocínio de empresas por meio da Lei Rouanet, algo comum para construções históricas. Um convênio foi fechado com um supermercado de Santa Maria, e a família deseja abrir pousada e restaurante para sediar eventos e casamentos.

Antes da compra, Luiz Carlos Segat sequer sabia quem era Assis Brasil e a importância da granja. Ao pesquisar sobre o assunto, encantou-se com o valor simbólico do local e criou a Associação Cultural do Castelo de Pedras Altas, da qual é presidente. Tornou-se um aficionado e, hoje, reconta a história da granja com riqueza de detalhes enquanto leva a reportagem de GZH a um passeio na propriedade. Se a família possui um castelo milionário com arquitetura medieval, Luiz Carlos descreve uma infância pobre, filho de uma faxineira e de um pedreiro. Formou-se como técnico em agropecuária e diplomou-se em Direito apenas aos 38 anos.

— Olha como é a vida. Eu gostava muito de estudar e sonhava em comprar uma enciclopédia, daquelas que vendiam na porta de casa. Hoje, chego aqui e tenho a primeira enciclopédia escrita no mundo — diz Luiz Carlos, enquanto embarga a voz e segura as lágrimas nos olhos.

— Veja como é a lei do retorno. Nunca imaginei que teríamos isso na família — completa.

Neta de Assis Brasil, a pecuarista Lydia Costa Pereira de Assis Brasil, 68, viveu 20 anos no castelo, entre 1998 e 2018. Ao longo dos anos, recebeu turistas interessados em conhecer os aposentos da família, mas explica que a multiplicidade de herdeiros impedia um consenso quanto ao destino do castelo. Parte dos descendentes desejava a venda da propriedade e outro grupo pretendia buscar verbas para revitalizar a construção. O interesse dos Segat em atender a ambos os desejos resolveu o impasse familiar.

— A casa é um mergulho no passado. Isso encanta as pessoas. O castelo é uma preciosidade. Todo mundo saiu feliz porque foi vendido para alguém que quer restaurar. Os Segat agora são responsáveis por preservar o patrimônio — pontua.

História transborda

Apesar do aspecto de abandono, o castelo transborda itens históricos. Há um carro presenteado a Assis Brasil por Henry Ford, poltronas e mesa onde foi assinado o acordo de paz que terminou com a Revolução de 1923, um biombo de madeira com assinaturas de figuras como Machado de Assis e Barão de Rio Branco, além de objetos de época. A restauração da estrutura interna deve levar um ano, mas o acervo pode exigir mais tempo. A ideia é abrir para visitação externa em setembro e para entrada interna até dezembro de 2023.

A secretária estadual da Cultura do Rio Grande do Sul, Beatriz Araújo, admira o castelo há anos e afirma que a revitalização é acompanhada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) para assegurar a preservação do acervo. Araújo diz que o governo está empolgado com a reabertura do local e que o Piratini dispõe de R$ 70 milhões por ano para financiar projetos de cultura, o que inclui restauração de patrimônio. O castelo, portanto, pode receber aporte de verbas se a família Segat inscrever um projeto em edital.

— A Secretaria acompanha o processo e dá suporte técnico à família, além de oferecer o sistema de fomento à cultura. O castelo é um ativo muito importante para a região, mas chegou a um estado de deterioração muito grave. Quando reabrir, trará um resultado para a região. Pedras Altas é a cidade do castelo, mas é evidente que outros municípios poderão agregar valor. Só que o turismo não se faz só com um ativo, é preciso trabalhar o entorno — diz Araújo.

Em Pedras Altas, a expectativa para um aumento de turistas após a reabertura do castelo é alta. Durante a visita de GZH à cidade nesta semana, as ruas estavam vazias, sem pessoas ou carros. O único barulho ouvido era o das folhas das árvores sob o vento gelado. Natural de Porto Alegre, a artesã Silmara Abreu, 46 anos, dona de uma loja de artesanato próxima ao castelo, diz que o município é tranquilo e que a população se beneficiaria de uma nova atração.

— Se o castelo abrir para turismo, seria muito bom para nós, moradores e comerciantes. A gente vive em uma cidade pequena. Eu trabalho com artesanato. A pessoa que for no castelo depois pode passar aqui na loja — diz a artesã.

O prefeito de Pedras Altas, Volnei da Silva Oliveira (PT), projeta um futuro repleto de visitantes, o que traria maior arrecadação de impostos. Questionado, ele não informou nenhuma medida da prefeitura para auxiliar na reforma do castelo ou melhorar a infraestrutura turística do município. A prefeitura também não inscreveu nenhum projeto no programa Avançar, do Piratini, que destinará R$ 131 milhões para o turismo.

— Vai ser um momento importante para Pedras Altas. Estamos mal de pousada e de hotel, e a ideia do (Luiz Carlos) Segat é abrir uma pousada. Vai ser uma grande ajuda para o município, vai chamar muitas pessoas na cidade, é importante até para arrecadar recurso. Hoje, nossa dificuldade é não termos acesso asfáltico - diz o prefeito.

UFPel atuará no restauro

A importância do acervo é tão grande que a família Segat firmará um convênio com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) para pesquisadores restaurarem parte dos itens do castelo. A professora de Museologia Noris Leal comandará uma equipe de 15 servidores e alunos dos cursos de Museologia e de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis na empreitada. Desde março, o grupo cataloga o inventário - em breve, iniciará o restauro de obras de arte, móveis, fotografias e documentos.

— O acervo é um dos mais ricos do Brasil, não só pela biblioteca, mas por tudo o que existe no castelo. É um acervo inexplorado que conta muito da história política do Brasil República. Quando estiver aberto à pesquisa, promoverá fontes até então não utilizadas. É importante não só para a história do Rio Grande do Sul, mas também do Brasil. O Assis Brasil foi um dos líderes da revolução de 1923, então há correspondências falando sobre a situação política, relatórios e diários — explica a museóloga.

A disponibilização do acervo para pesquisadores não deve desvelar novidades impactantes que alterem livros didáticos, mas poderá trazer novos detalhes acerca da Revolução de 1923 e da vida de Assis Brasil, diz Fábio Kuhn, professor de História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do livro Breve História do Rio Grande do Sul (Editora Leitura Xxi).

— Alguma grande novidade talvez não traga, mas a correspondência de Assis Brasil com diversas autoridades permite revelar detalhes desconhecidos. A historiografia se vale muito da correspondência privada para entender as atitudes dos homens públicos. Se esse castelo estivesse na Europa ou nos Estados Unidos, já teria uma fundação que o teria reformado, seria um museu com cobrança de ingressos e o arquivo estaria disponível a pesquisadores — diz Kuhn.

Para os herdeiros de Assis Brasil, se o castelo mudou de dono, ficarão para sempre as memórias da avó Lydia e o legado do avô que mudou a história do Rio Grande do Sul:

— Vovó Lydia era maravilhosa, culta e bondosa. Saiu da Europa, veio a Pedras Altas e fez projetos sociais, ajudou a criar o hospital da cidade. O Assis Brasil não perdia um segundo da vida, para ele tudo tinha um fundamento e uma razão de ser. Ele queria demonstrar que, com tecnologia e investimento, uma pequena propriedade poderia produzir o que se produzia em uma légua. Deixou o legado de uma vida bem vivida, de que a gente deve ter um ideal e seguir esse ideal — conta a neta Lydia.

Quem foi Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938)

Advogado, político e pecuarista, Assis Brasil nasceu em São Gabriel e articulou a Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul. Foi deputado na legislatura que criou a nova Constituição brasileira e ajudou a redigir a Constituição gaúcha. Diplomata em Buenos Aires, Lisboa e Washington D.C, Assis Brasil ajudou o Barão de Rio Branco a negociar a compra do Acre pelo governo brasileiro. É considerado o pai do Direito Eleitoral e da Expointer. Casou duas vezes e teve 12 filhos. Morreu no castelo de Pedras Altas.

O que foi a Revolução de 1923

Retratado no livro O Arquipélago, de Erico Verissimo, o movimento armado buscava depor o governador do Rio Grande do Sul Borges de Medeiros, que tinha 25 anos de cargo e reduzira incentivos ao setor agropecuário. O conflito durou menos de um ano e opôs partidários de Borges (chimangos) a apoiadores de Assis Brasil (maragatos), que tentara se eleger como governador, mas perdera em eleições fraudadas. Mais de 1 mil pessoas morreram em batalhas em cidades como Passo Fundo e Palmeira das Missões. O fim se deu com o Tratado de Paz de Pedras Altas, assinado em uma das salas-de-estar do castelo de Assis Brasil. Borges se comprometeu a sair do poder após o fim do mandato.

— A revolução de 1923 foi uma das grandes revoltas do período da Primeira República. Borges tinha uma política econômica de desenvolvimento global, de não privilegiar nenhum setor, então não protegia mais o setor pecuarista, gravemente afetado pela crise econômica do pós-primeira guerra. Borges precisava de dinheiro para colocar em prática o projeto de dragagem do porto de Rio Grande e cobrou dívidas do setor pecuarista. Já Assis Brasil era ligado a uma elite da pecuária que perdeu benefícios. Há um discurso que enaltece virtudes meio heroicas do Assis Brasil, mas ele era um homem do seu tempo, inserido em uma classe social, com interesses econômicos e políticos afetados — analisa Fábio Kuhn, professor de História na UFRGS.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Remodelação da “Neue Nationalgalerie” em Berlim - David Chipperfield Architects

A Neue Nationalgalerie em Berlim é um ícone da arquitetura do século XX. Projetado e construído entre 1963 e 1968, a estrutura de aço e vidro é o único edifício projetado por Ludwig Mies van der Rohe na Europa após sua emigração para os Estados Unidos. 

Após quase cinquenta anos de uso intensivo, o edifício tombado exigia uma reforma abrangente. O tecido existente foi renovado e atualizado de acordo com os padrões técnicos atuais com um comprometimento visual mínimo com a aparência original do edifício. As melhorias funcionais e técnicas incluem ar condicionado, iluminação artificial, segurança e instalações para visitantes, como bengaleiro, refeitório e loja do museu, bem como acesso melhorado para deficientes e manuseio de arte.

A necessidade de uma extensa reparação da envolvente em betão armado e a renovação completa dos serviços técnicos do edifício exigiram uma intervenção profunda. Para expor a construção da concha, cerca de 35.000 componentes originais do edifício foram desmontados, incluindo o revestimento de pedra e todos os acessórios internos. Após a restauração e modificação quando necessário, eles foram reinstalados em suas posições originais precisas.

A chave para o complexo processo de planejamento deste projeto foi encontrar o equilíbrio certo entre preservar o monumento e usar o edifício como um museu moderno. As inevitáveis ​​intervenções no tecido original nesse processo tiveram que ser conciliadas com a preservação do máximo possível da substância original. Embora as adições essenciais permaneçam subordinadas ao projeto existente do edifício, elas são discretamente legíveis como elementos contemporâneos. O projeto de reabilitação não implica uma nova interpretação, mas sim uma reparação respeitosa deste emblemático edifício de Estilo Internacional.

Fonte da Matéria em Espanhol: https://arqa.com/arquitectura/remodelacion-de-la-neue-nationalgalerie-de-berlin.html









Crédito das Imagens: do Site ARQA.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Abre as portas o novo Museu Boulieu na patrimonial Ouro Preto, MG

O equipamento cultural é inaugurado nesta quarta-feira, 13 de abril, para abrigar a coleção do casal que dá nome à instituição - a contribuição reafirma Ouro Preto como o epicentro da arte barroca brasileira

Localizado no principal acesso ao centro da cidade mineira, ocupando as instalações do antigo Asilo São Vicente de Paulo, o novo Museu Boulieu acolhe a coleção do casal que dá nome à instituição. Com patrocínio integral do Instituto Cultural Vale, e projeto de restauração e expografia assinados pelo arquiteto José Luiz Favaro, junto do Instituto Pedra – o mesmo que toma a frente da recuperação das fachadas do Edifício Copan, e restauração, com criação de centro cultural, na Vila Itororó, em São Paulo -, o novo espaço contribui para reafirmar Ouro Preto como o epicentro da arte barroca brasileira, sugerindo novas perspectivas e novos contextos ao movimento artístico.

A edificação conta com uma área de quase 400 metros quadrados para exposição no pavimento superior (seis salas) e, no térreo, com saguão de entrada, bilheteria, café/loja, sala multiuso, sala do Educativo, espaços administrativos e reserva técnica. Assim sendo, o museu assume a função pública de preservar, investigar e expor a coleção doada pelo casal Jacques e Maria Helena Boulieu, que reúne principalmente obras de origem asiática e latino-americana, principalmente do período barroco.

"O Museu Boulieu se pauta pelos encontros, desde o do casal, até aqueles acarretados pelas grandes navegações europeias. Daí a propagação da fé e dos impérios. O sincretismo religioso e as diversas culturas nos apontam outros caminhos e olhares”, destaca Luiz Fernando de Almeida, Diretor Presidente do Instituto Pedra."

No total, o programa se estende pelo antigo Asilo e incorpora a edificação anexa, onde funcionou a “casa do capelão” – a origem do conjunto de edifícios remonta ao final do século XVIII, mas o imóvel foi construído em 1932 pelos vicentinos, para ser usado como asilo, função que cumpriu até a transferência do complexo hospitalar para o bairro da Bauxita, no final dos anos 2000.

Sabe-se que para efetivar a criação do museu, em 2008 o Instituto Cultural Brasileiro do Divino Espírito Santo (ICBDES), atual Instituto Boulieu, foi criado como personalidade jurídica responsável pelo Museu Boulieu. Em 2012, foi então estabelecido um comodato em que o edifício teve o uso cedido pela Prefeitura Municipal de Ouro Preto para a criação do museu, cuja justificativa é a de “promover a cultura e o turismo no Município de Ouro Preto/MG, gerando renda para a população ouropretana”.

O Museu Boulieu foi oficialmente criado através da Lei Municipal n°820 de 21 de dezembro de 2012, e sua viabilização só foi possível com o patrocínio integral do Instituto Cultural Vale através de projeto cultural na Lei de Incentivo à Cultura (também conhecida como Lei Rouanet).

Com curadoria de Angelo Oswaldo, atual Prefeito de Ouro Preto, estarão em exibição 1.050 peças das 2.500 da Coleção Boulieu, entre esculturas, pinturas, objetos e mobiliário – tendo vivido boa parte de suas vidas entre o Brasil e a França, o casal decidiu doar sua coleção para a criação do museu em Ouro Preto, devido ao apreço pela cidade, bem como a intenção de deixar o legado como parte do patrimônio local, que com este acervo ganhará uma visão internacional do Barroco.

A expografia também acolhe duas obras cedidas temporariamente pela Coleção Ivani e Jorge Yunes, inaugurando o Programa “Acervos em Diálogo”. Ao percorrer as salas, é possível conhecer alguns dos desdobramentos do Barroco pelo trajeto histórico-poético proposto pelo curador:

A fé e o império conquistam o mar; O mundo encantado das Índias; Americanos de Norte a Sul sob o sinal da cruz; O brilho dos metais e a luz da religião; A América hispânica e o esplendor do culto; Os engenhos da arte no Brasil açucareiro; A palma barroca na mão do povo; O eldorado no coração da grande floresta; Esfera da opulência e teatro da religião.

No saguão, o visitante poderá conhecer um pouco da história do casal Boulieu e a origem da coleção. No piso superior, na entrada do percurso expositivo, o visitante será recebido pela voz de Maria Bethânia, embalando poemas de Fernando Pessoa e Camões, e imagens que introduzem o novo caminho para as Índias, onde com novos materiais e nova iconografia, o mundo ocidental se encontra e dialoga culturalmente com as tradições milenares locais.

Completa a programação de abertura do novo espaço, a mostra temporária Aleijadinho – fotografias de Horacio Coppola, realizada em parceria com o Instituto Moreira Salles. O conjunto de fotografias retrata as obras do celebrado escultor brasileiro, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, a partir da viagem feita por Coppola a Minas Gerais em 1945.


Museu Boulieu
Endereço Rua Padre Rolim, 412, Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil
Abertura ao público 14 de abril, às 10h
Horário de funcionamento Segunda-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo, 10h às 18h (entrada R$10 / meia R$5); quarta-feira, 13h às 22h (entrada gratuita); terça-feira, fechado
Agendamento de visitas monitoradas educativo@museuboulieu.org.br






















Fonte das Imagens: Site Revista Projeto

domingo, 13 de março de 2022

Conheça o farol centenário que recebeu o nome do primeiro tropeiro a desbravar o Sul do Brasil

Cristóvão Pereira fica em Mostardas, às margens da Lagoa dos Patos

ALINE CUSTÓDIO Mostardas

Com nome em homenagem ao primeiro tropeiro a desbravar o Sul do Brasil, o farol Cristóvão Pereira resiste à distância, ao tempo e até ao vandalismo. E desafia os atuais visitantes que, assim como o antigo comerciante do século 18, precisam se aventurar pelas estradas de terra e de areia para chegar à torre erguida às margens da Lagoa dos Patos, em Mostardas, no Litoral Médio.

Se, antigamente, os tropeiros faziam o trajeto a cavalo pela região, agora são os veículos com tração 4x4 que costumam dominar a área. Basta sair do asfalto da RSC-101 e ingressar na estrada vicinal, distante 13 quilômetros do Centro de Mostardas, para entender o motivo. Pelo caminho, apesar de trechos mais enlameados, o cenário do Rincão de Cristóvão Pereira (nome da localidade) é de encher os olhos: campos verdejantes, lagoas e aves de diferentes espécies. Nada muito diferente das paisagens que fizeram o português se apaixonar pelo lugar.

E apesar de a região ter começado a ser habitada ainda no século 18, até hoje conta com casas distantes, na maioria fazendas e chácaras, permanecendo com uma paisagem bucólica só cortada pelo vaivém dos veículos. Quatro placas ao longo dos 31 quilômetros que separam a rodovia do farol indicam o caminho mais simples até a construção histórica. Depois da estrada de terra vermelha, os últimos cinco quilômetros são feitos pelas margens da Lagoa dos Patos.

Se o passeio for realizado no verão, vale parar para um banho nas águas límpidas e mornas antes ou depois de ir ao farol, já que na área dele a profundidade pode mudar conforme a época do ano, não sendo indicado o banho.

Na chegada ao Cristóvão Pereira, a obra impõe-se em meio à natureza. Durante o inverno, a península onde está o farol costuma ficar isolada pela água, formando uma ilhota. No verão, com a seca, é possível chegar de carro até os pés do prédio. Em fevereiro deste ano, GZH esteve no local. Por duas horas, o único contato com alguma pessoa foi por meio do radiotransmissor do repórter fotográfico Lauro Alves, ao conversar rapidamente com uma embarcação que passeava ao longo da lagoa.

Quando a equipe se preparava para retornar até a rodovia, ouviu o som de um carro se aproximando. Por vezes devagar e, em outras, aumentando a velocidade sobre a areia, tentava cruzar a trilha. Era o Corsa da família do auxiliar de serviços gerais Diones Santos da Silva, 39 anos, de Mostardas. Ao lado do filho, Leonardo Jesus Silva Santos da Silva, 16, da esposa, Lucimara da Rosa, 49, e do avô de Leonardo, Cláudio Miguel Alves da Silva, 66, Diones não se importou com o carro sem tração para apresentar o farol histórico ao adolescente.

— É a terceira vez que venho visitá-lo, mas a primeira com o meu filho. Nos finais de semana, costumamos percorrer os faróis e pontos mais importantes do litoral. É uma forma de manter viva a história da nossa região — contou Diones, que garantiu estar acostumado com as estradas exigentes da área.

— Antigamente, passava de barco por aqui quando íamos pescar. É o farol mais açoriano de Mostardas. Tem uma arquitetura muito bonita. Por isso, merecia ser melhor cuidado — acrescentou Cláudio Miguel.

Ao se despedir da reportagem, a família revelou que seguiria ainda até o farol Capão da Marca, em Tavares, distante 30 quilômetros pela beira da lagoa.

Importante para a navegação

Inaugurado em alvenaria em 8 de janeiro de 1861, um século depois da morte de Cristóvão Pereira de Abreu, o prédio tem 28 metros de altura. Entre 1858 e 1861, funcionou numa estrutura construída em madeira. Por um período, chegou a ser considerado o mais antigo farol do Estado. Porém, a historiadora Marisa Guedes, moradora de Mostardas e pesquisadora da região há mais de 35 anos, explica que muitos estudiosos não contavam os faróis provisórios. Anos antes, em 1849, por meio de uma lei, o vizinho Capão da Marca, em Tavares, iniciou os trabalhos numa torre de madeira. Sendo assim, passou a ser considerado o primeiro a ser erguido no Rio Grande do Sul.

Apesar da mudança da data histórica, a obra de Mostardas segue com relevância, pois faz parte do balizamento entre a entrada do canal da barra de Rio Grande até o porto de Porto Alegre, considerada uma das principais rotas para a economia da Região Sul do Brasil.
 
— Mesmo com o avanço da tecnologia na área da navegação ao longo dos anos, os faróis em geral ainda são de suma importância para a segurança da navegação, tendo em vista que, diante da falha de algum equipamento eletrônico a bordo das embarcações, o farol servirá para orientar tais embarcações, servindo também para embarcações menores desprovidas de tais tecnologias — explica o capitão-tenente Edilson José do Carmo, encarregado da Divisão de Sinalização Náutica da Marinha do Brasil.

Ataque dos vândalos

Em plena atividade, o Cristóvão Pereira continua funcionando por meio de painéis fotovoltaicos. Sem registros oficiais, a Marinha do Brasil apenas informa que o farol já foi “guarnecido” por faroleiros e suas famílias, mas não há registro histórico de quando deixou de ser ocupado. Em fotos do acervo do site Popa, feitas em 1950, o prédio está diferente do atual. Ainda havia figueiras no entorno dele e a casa do faroleiro.

Segundo Geraldo Knippling (falecido em 2000), que costumava navegar pela lagoa e escreveu o livro O Guaíba e a Lagoa dos Patos, o farol passou por uma reforma em 1992, quando a porta e as janelas foram fechadas com tijolo e cimento. Em 2004, um muro de pedras foi erguido no entorno.

Sem acesso interno para visitas, o prédio não deveria ter qualquer entrada. Mas os vândalos conseguiram abrir um buraco numa das paredes, por onde ingressam no térreo do prédio. Pela fenda, é possível ver escritos da década de 1980 nas paredes, que podem ter sido feitos antes do fechamento total da construção. O acesso aos demais andares da estrutura também está cimentado.

O encarregado da Divisão de Sinalização Náutica da Marinha do Brasil salienta que, apesar de ser alvo constante de ações de vândalos, o farol recebe inspeções periódicas a cada três meses, quando a Marinha recebe informações ou denúncias de vandalismo e também sempre que um navio da Marinha do Brasil passa ao largo durante ida a Porto Alegre.

sábado, 5 de março de 2022

Conheça 10 lugares centenários de Porto Alegre que continuam funcionando


Capital mescla edifícios modernos a construções que já estavam ali quando a cidade não passava de um vilarejo

JÉSSICA REBECA WEBER


Como uma capital prestes a completar 250 anos, a fotografia de Porto Alegre mescla edifícios modernos a construções que já estavam ali quando a cidade não passava de um vilarejo. Conheça 10 lugares que já completaram mais de um século de vida e guardam parte da nossa história.

1- Colônia de Pescadores Z5

Sobre o desenho em relevo de duas sereias, a data inscrita na fachada anuncia o mais recente prédio centenário da Capital. A Colônia de Pescadores Z5, que completou cem anos em dezembro, é um símbolo da Ilha da Pintada, localidade de Porto Alegre que parece descolada do tempo e do mapa.
A pesca no Rio Jacuí segue sendo uma das principais atividades nesse pedaço de Porto Alegre. É a profissão de muitos moradores, mas também atrai amadores para a beira do rio, bem na frente da sede da Colônia. Aos domingos, é naquele ponto mesmo que desembarcam “turistas” vindos da Capital para uma tradição antiga e apetitosa: a tainha na taquara. Moradora do bairro Três Figueiras, a dona de casa Isabel Brum, 78 anos, não foi só para comer: ela aproveitou para tirar foto ao lado da churrasqueira.
— Meu filho me tirou de casa dizendo que a gente ia comer tainha do outro lado da rua e me trouxe aqui. Foi uma surpresa, é uma coisa bem diferente — conta.
Cerca de 60 peixes já estavam prensados em pedaços de taquara, enfileirados sobre carvão e lenha, quando a dona Isabel chegou. O segredo, revelam os assadores, é a finalização regando com o “molho da dona Cátia”, funcionária antiga do lugar. Junto do azeite e do vinagre, ela inclui especiarias como alho, cebola e pimentão.
Presidente da Z5, Gilmar da Silva Coelho, 50, conta que a colônia foi fundada pela Capitania dos Portos, mas não é mais vinculada a nenhum órgão público. Sua função é ajudar os cerca de mil associados que pescam naquela região do Jacuí, no Guaíba e na Região Metropolitana com questões burocráticas, como a confecção de documentos, o pagamento de INSS e o encaminhamento do seguro defeso.
A Z5 também sempre teve um papel importante para distribuir ranchos e conceder outros auxílios. Pescador que aprendeu a profissão com o pai, que aprendeu com o avô, Luiz Carlos Maciel, 67, lembra que teve os estudos no ginásio pagos pela Colônia e que até já se abrigou na sede em uma das assombrosas enchentes da Região das Ilhas.
Além da tainha servida na mesa, o almoço de domingo na Colônia Z5 inclui um bufê com pratos como bolinho de arroz, pirão, batata, salada e sobremesa. Custa R$ 40. Não é obrigatório, mas o recomendado é fazer reserva antecipadamente pelo fone (51) 3211-7593, para os funcionários estimarem o número de peixes a preparar. Há barcos de passeio que saem da orla do Guaíba e levam até a Colônia Z5 para a refeição.


















2- Memorial do Legislativo

À direita do Palácio Piratini, fica o prédio mais antigo de Porto Alegre. É chamado de várias formas: antiga Provedoria da Real Fazenda, Casa da Junta, Casa Rosada, antiga Assembleia Legislativa ou Memorial do Legislativo, que tem sido seu propósito desde 2010. O prédio foi construído em 1790, inicialmente com apenas um pavimento, planta retangular e arquitetura colonial. O segundo pavimento foi construído 70 anos depois, em estilo eclético, apagando características luso-brasileiras. Restaram traços como a volumetria, o “ritmo” entre as janelas e porta.
— Porto Alegre foi fundada em 1772 e, um ano depois, começou a construção desse prédio. Inicialmente, aqui se cuidava da fiscalização do dinheiro do Império. Era uma função que se assemelha à de uma Secretaria da Fazenda — conta Debora Dornsbach Soares, coordenadora do Memorial.
O local serviu ainda de cadeia e abrigou o Conselho-Geral da Província, que antecedeu às Assembleias Provinciais. E, em 1835, virou a Assembleia Legislativa da Província. No subsolo do prédio, em uma das estantes de documentos do arquivo, há a ata de instalação da Assembleia, em dia 23 de abril, um manuscrito grafado à pena com tinta ferrogálica. Débora comenta:
— Às vezes, me dá taquicardia pela responsabilidade de cuidar de todo esse patrimônio do Estado.
No andar superior, há um pequeno plenário, usado ainda em reuniões e sessões solenes do Legislativo. Pelas paredes, há fotos de como era a Assembleia, bem ali, em diferentes décadas do século passado, e uma imagem remete a ainda mais longe, ao começo da República no Brasil. O plenário leva o nome de Bento Gonçalves, líder farrapo que foi também deputado, na primeira Legislatura. Atrás da mesa diretora, um retrato ampliado dele chama atenção de quem entra na sala. O Memorial está fechado para visitação em razão da pandemia.


















3- Igreja das Dores

É difícil contar a história de Porto Alegre sem falar da Igreja Nossa Senhora das Dores. Ela está nas fotos mais antigas, nos guias de arquitetura, nas promessas de gerações de devotos e no imaginário popular, como cenário de uma das lendas mais antigas da cidade. Conta-se que Josino, um escravo que participava da construção da igreja, foi acusado injustamente de roubo e condenado à morte.
A sentença foi cumprida na Praça Brigadeiro Sampaio, onde eram penalizados os escravos condenados por seus senhores, de chibatadas à forca. Segundos antes de ter o alçapão aberto sob seus pés e despencar com a corda no pescoço, o homem teria disparado:
— Como prova da minha inocência, vocês nunca vão ver as torres da igreja construídas.
Acredite ou não em maldições, as obras se arrastaram por quase um século. Iniciadas em 1807, só foram terminadas em 1904. As torres remetem ao gótico, sobre um corpo em estilo colonial português. A fachada de elementos ecléticos apresenta nichos e estátuas que representam a Fé, a Esperança e a Caridade, esculpidas e fundidas por João Vicente Friedrichs.
Do lado de dentro, a capela-mor foi concluída em 1813. Tem no topo do altar de 14 metros de altura as imagens de Jesus Cristo crucificado, Nossa Senhora das Dores e João Evangelista. O brasão do calvário, que representa a última dor de Nossa Senhora, foi resgatado recentemente através de um trabalho de reconstituição da camada pictórica e destacado com as luzes. Arquiteto responsável pelas obras, Lucas Volpatto destaca ainda as pinturas do artista Germano Traub como um dos maiores tesouros do local:
— Embora as talhas dos altares se assemelhem muito com a Igreja da Conceição, que tem a mesma autoria do mestre João do Couto e Silva, é nas pinturas das paredes e do teto que ela se destaca como a igreja oitocentista (relativo ao século 19) mais bela de Porto Alegre.
Postulando o título de Basílica Menor, a igreja enviou ao Vaticano recentemente um documento de 52 páginas com fotografias e informações que destacam sua relevância histórica, arquitetônica, cultural e religiosa. Se tudo der certo, o título será concedido pelo papa Francisco, por meio da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.


















4- Santa Casa de Misericórdia

Passando entre duas estátuas de anjo, chamadas de Fé e Esperança, você acessa o pátio interno do Pavilhão Centenário da Santa Casa. É impossível estimar quantas pessoas já recorreram a esse espaço com árvores, vitrais religiosos e uma gruta para respirar fundo e procurar forças antes de retornar aos corredores do hospital. Mesmo no centro de Porto Alegre, a alguns metros da movimentada Avenida Independência, existe paz naquele pátio.
O silêncio ali era ainda muito maior quando a Santa Casa começou a ser construída. O hospital ficava fora da cidade, “bastante afastado”, como escreveu o viajante francês Auguste Saint-Hilaire em 1820. A Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre é o mais antigo hospital do Rio Grande do Sul: fará 219 anos em outubro.
Se hoje o complexo é conhecido pela modernidade de seus processos e equipamentos, os objetos no museu do Centro Histórico-Cultural Santa Casa evidenciam o contraste de gerações. Desde equipamentos cirúrgicos arcaicos até a réplica do que foi a Roda dos Expostos. Era um cilindro oco de madeira, com uma pequena abertura, que girava em um eixo central. Ali eram colocados, com anonimato, bebês que as mães não podiam cuidar.
— Passaram quase 3 mil crianças por essa roda em menos de cem anos — conta a coordenadora do Centro Histórico-Cultural Véra Barroso.
O museu é aberto ao público e não é cobrado ingresso para visitação. Funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e nos sábados, 9h às 16h.


















5- Solar Lopo Gonçalves

Vizinho de bares e casas noturnas em uma das ruas mais agitadas da cidade, o Solar Lopo Gonçalves foi construído para ser uma chácara de veraneio quando a região da Cidade Baixa ficava fora dos limites urbanos do município. Construído entre 1845 e 1855, é uma das raras casas coloniais que resistiram em Porto Alegre, e hoje abriga o Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo.
A chácara tinha, à frente, a Rua da Olaria (hoje General Lima e Silva), e, aos fundos, a chamada Rua da Margem (João Alfredo), e pertencia ao comerciante Lopo Gonçalves Bastos. Era um português que tinha um armazém de secos e molhados na Praça da Alfândega, uma loja de tecidos no piso inferior do sobrado onde de fato morava, na Rua da Praia, e algumas embarcações em sociedade com seu sogro.
As janelas frontais, hoje em cor verde, têm quadro superior ornado com meias rosáceas. As paredes externas foram construídas em alvenaria de tijolos e, as internas, em estuque (barro, madeira e folhas de palmeira). Acredita-se que o térreo servia como uma espécie de senzala.
— O imóvel é uma referência por idade e características arquitetônicas, por si só já reúne muita história. O Lopo Gonçalves teve escravos, isso foi no final do ciclo da escravatura, e os nomes deles foram pesquisados e estão fixados na sala de exposições — destaca Vicente Bogo, diretor do museu.
O museu inclui um acervo fotográfico de mais de 8 mil imagens e os achados arqueológicos da cidade: conta com mais de 200 mil itens relacionados a diferentes grupos que ocuparam Porto Alegre desde o período pré-colonial.
Suspensas desde o começo da pandemia, a expectativa é de que as visitas sejam retomadas até o aniversário de Porto Alegre, em 26 de março, com duas exposições novas, segundo previsão de Bogo. Hoje, somente pesquisadores têm acesso à parte interna do museu, mediante agendamento. Bogo também busca, via Lei Rouanet, verbas para o restauro do prédio de mais de 150 anos: a intenção é reformar a parte estrutural, telhado, realizar pintura, substituir a parte elétrica, fazer a climatização completa, melhorar a acessibilidade, a iluminação externa e implantar videomonitoramento.


















6- Theatro São Pedro

O lustre já não é de velas – a energia elétrica chegou em 1900, poupando os funcionários do trabalheira de acender toco a toco antes de cada espetáculo. Os costumes também mudaram. Os chapéus e roupas de pele desapareceram do dress code e não mais existe o proscênio, um camarote na lateral do palco onde as famílias mostravam os filhos disponíveis para casamento. Mas o Theatro São Pedro segue, desde 27 de junho de 1858, ecoando aplausos.
Com traços neoclássicos, o prédio foi inaugurado nessa data com o drama Recordações da Mocidade. Era um teatro majestoso em uma cidade 75 vezes menor do que hoje – a população na época era estimada em 20 mil pessoas.
— Eu me pergunto da coragem deles, mesmo com a população da época, construir um teatro assim. Ele foi e continua sendo o grande palco de Porto Alegre, nosso grande centro cultural — destaca o professor emérito da Universidade Federal do RS (UFRGS) Luiz Osvaldo Leite, ex-presidente da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa).
O professor Leite se sente um privilegiado de ter visto muitos dos espetáculos desde a década de 1940. Aos 10 anos de idade, o pai o levou para assistir à ópera Barbeiro de Sevilha. Ainda adolescente, montou um grupo de amigos do Colégio Anchieta que não só marcavam presença em todas as apresentações de ópera como também se amontoavam no hall de entrada ou na porta dos camarotes para conseguir um autógrafo na folha do programa.
Por falar na Ospa, foi no São Pedro que ocorreu a primeira apresentação da orquestra, em 1950, sob o comando do regente Pablo Komlós. Mas o São Pedro também foi marcante para a dança (em 1925, Porto Alegre aplaudia pela primeira vez um espetáculo de dança, com a bailarina belga Félyne Verbist) e até para o cinema. Mesmo sem uma sala adequada, em 1901, ocorreu ali a primeira exibição de uma película de cinema em um espaço fechado em Porto Alegre.
Passaram pelos palcos do São Pedro alguns dos maiores gênios da criação artística do Brasil e do mundo, como o pianista Arthur Rubinstein (duas vezes), o violonista Andrés Segovia, o compositor Heitor Villa-Lobos, o dramaturgo Eugène Ionesco, o diretor Bob Wilson e o compositor e pianista Philip Glass.


















7- Instituto de Educação

As imponentes colunas jônicas e a fachada de linguagem neoclássica não combinam com o estado de abandono e vandalismo que consumiu o Instituto de Educação Flores da Cunha. Fundada em 1869, a mais antiga escola de formação de professores do Brasil está fechada desde 2016 para obras.
A instituição surgiu com o nome de Escola Normal da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Funcionou inicialmente em um edifício na esquina das ruas Duque de Caxias e Marechal Floriano. Desde 1935, está no endereço da Avenida Osvaldo Aranha. O atual nome foi determinado por decreto em 1939, homenageando o governador do Rio Grande do Sul, o general José Antônio Flores da Cunha.
Quando o prédio fechou para reforma, os 1,5 mil alunos foram transferidos para outras escolas. A expectativa era de retornar em 2017. Mas o governo romperia o contrato com a empresa por causa do atraso, perderia os recursos do Banco Mundial por causa dessa demora, contrataria outra empresa, que pararia os trabalhos por falta de pagamento em 2019.
As obras foram retomadas em janeiro, com previsão de término em 15 meses, segundo a Secretaria Estadual da Educação (Seduc). Até o momento, foram executados 18,86% da obra. Na etapa inicial, os reparos estão concentrados na parte interior do prédio. O aporte em recursos do Estado é de R$ 23,4 milhões. O governador Eduardo Leite anunciou que o Instituto de Educação dará lugar a um centro de referência e formação de professores. Ele prometeu um ambiente moderno e interativo.


















8- Antigo Quartel-General

Na fachada de arquitetura eclética da esquina da Andradas com a General Canabarro, no Centro Histórico, está grafada a data de construção do prédio (1906-1908) e o nome de um general. Acima, há o brasão de armas do Brasil, esculturas como a de um soldado armado com fuzil e, no topo de uma pequena torre, uma cúpula azul estrelada lembra a bandeira do país. Trata-se do antigo Quartel-General de Porto Alegre.
Construído em substituição a um prédio colonial de 1775, foi celebrado como um avanço na época da inauguração. A edição do jornal A Federação destacou a iluminação por luz elétrica, a instalação luxuosa e lustres “muito elegantes”.
Hoje, segue sendo um endereço importante para a 3ª Região Militar, abrigando seções administrativas. No Salão Nobre, que tem um piso de madeira, janelas em arco com vitrais coloridos e obras de arte em todas as paredes, ocorrem solenidades. Relíquia do prédio, o elevador de grade sanfonada está parado para manutenção.
Há marcas de tiro na estrutura metálica. Em 3 de outubro de 1930, a unidade militar foi atacada, deflagrando o início da Revolução de 1930. O tenente-coronel Alexandre Lobo, do setor de comunicação da 3ª RM, relata que, após a revitalização da fachada externa e do conserto do elevador histórico, há a intenção de abrir a área à visitação da comunidade sob a coordenação do Museu Histórico do Comando Militar do Sul.


















9- Mercado Público

Passou pela enchente de 1941, por quatro incêndios e por duas pandemias. Considerado o coração de Porto Alegre, o Mercado Público segue pulsando forte e saudável no Centro Histórico há 152 anos. Significa que o Brasil ainda nem era uma república quando suas paredes, em estilo neoclássico, foram erguidas por mão de obra escrava.
Desde aquela época, tem importância inigualável ao povo negro – religiões de matriz africana creem que, na encruzilhada dos quatro corredores centrais, fica o Bará, o orixá que tem o poder de abrir caminhos. Ele foi parar ali após ser assentado, ou seja, fixado em algum objeto por meio de rituais, que estaria enterrado sob o prédio.
O projeto do engenheiro Frederico Heydtmann previa um pavimento apenas (o segundo piso começou a ser feito em 1910). Foi construído em forma de quadrilátero, com torreões nas esquinas e um pátio central. Foi ocupado por armazéns, tavernas, bares, açougues, fruteiras e restaurantes. Incluindo o mais antigo do RS. Conhecido por iguarias como o bolinho de bacalhau, o Gambrinus tem espalhadas por todos os cantos evidências dos seus 132 anos de história.
O pioneirismo não para por aí: bem ao centro do Mercado, a Banca do Holandês é considerada a primeira loja de especiarias da cidade, na banca 31. Fundada em 1919, vende bacalhau, queijos, fiambres nobres, azeites e as mais diversas especiarias. A secretária aposentada Hilda Machado Madeira, 68 anos, era uma das pessoas na fila dinâmica da banca. Como quase todo mundo por ali, tem uma história com o Mercado. Frequenta desde os 12 anos, quando começou a trabalhar em um laboratório de análises clínicas em um prédio ao lado, e fala do Mercado Público como se ele fosse gente:
— Quando eu soube que pegou fogo, fiquei muito triste. Ele faz parte da nossa história.
As obras do Mercado Público foram iniciadas no mesmo ano do incêndio, em 2013, e chegaram a ser completamente paralisadas em 2016 por falta de recursos. Após, houve uma indecisão sobre quem deveria seguir as obras. O governo de Nelson Marchezan pretendia conceder o Mercado à iniciativa privada, mas a gestão de Sebastião Melo abortou esse plano e buscou uma alternativa para reabrir o segundo piso. O andar superior está passando pela última etapa de obras e deve ser reaberto neste semestre, segundo a prefeitura.


















10- Bar Naval

Há duas cadeiras que ninguém usa no Naval. O restaurante exibe as peças de mobiliário na altura do teto, guardando há décadas o lugar do político Glênio Peres e do músico Lupicínio Rodrigues. Dizem que o autor de Se Acaso Você Chegasse, Nervos de Aço e Vingança chegava cedo no bar, se cercava de folhas de papel e tocos de lápis para compor e pedia o de sempre: “Me dá uma cachacinha, camaradinha”.
— Ele era da noite, e a boemia acontecia aqui — comenta o atual proprietário Jader Hack Gomes, 35 anos.
Elis Regina e Carlos Gardel também compuseram o time musical de frequentadores, enquanto Leonel Brizola, João Goulart e até Getúlio Vargas já integraram o de políticos, segundo informações do restaurante.
A história do Naval começou em 1907, criado por um italiano, na mesma sala do Mercado Público que está hoje. Passaria ainda por mãos alemãs até chegar à primeira família de portugueses, os irmãos João Fernandes e Manoel da Costa. É o que explica o cardápio cheio de pratos com bacalhau.
No carro-chefe hoje, que leva o nome da casa, o peixe se junta a polvo, camarões, champignon, batata, pimentão e azeite em uma pequena montanha de felicidade. Após uma reforma, o Naval perdeu os ares de boteco e ganhou sofisticação. O proprietário conta que nas obras foram destacados detalhes originais do lugar, como o teto de cimento e os primeiros azulejos, lá da época em que estava sob direção dos italianos. Mas, independentemente do dono, seja mais popular ou gourmet, o chope bem tirado do Naval continua animando o happy hour no velho Mercado.