terça-feira, 5 de março de 2019

Arata Isozaki vence o Prêmio Pritzker 2019

Arata Isozaki foi nomeado o vencedor de 2019 do Prêmio Pritzker de Arquitetura. Isozaki, que pratica arquitetura desde os anos 1960, tem sido considerado um visionário arquitetônico por sua abordagem transnacional e destemidamente futurista ao projeto. Com mais de 100 obras construídas, Isozaki também é incrivelmente prolífico e influente entre seus contemporâneos. Ele é o 49º arquiteto e oitavo arquiteto japonês a receber a honra.
De acordo com o júri, na citação do prêmio: “... em sua busca por uma arquitetura significativa, ele criou edifícios de grande qualidade que até hoje desafiam categorizações, refletem sua constante evolução e estão sempre atualizados em sua abordagem”.
"Eu sempre senti que o mais importante é encontrar uma maneira de escapar da estrutura ou consciência estética com a qual estou oprimido."
Nascido em 1931 em Oita, uma cidade na ilha de Kyushu, no Japão, o início de Isozaki na arquitetura foi profundamente afetado pelos eventos mundiais da época. Isozaki tinha apenas 12 anos quando Hiroshima e Nagasaki foram dizimadas na Segunda Guerra Mundial; sua cidade natal foi incendiada durante a guerra. “Quando eu tinha idade suficiente para começar a entender o mundo, minha cidade natal foi incendiada. Do outro lado da costa, a bomba atômica foi lançada em Hiroshima, então eu cresci no marco zero. Tudo estava em ruínas, e não havia arquitetura, nem edifícios e nem mesmo uma cidade ... Então, minha primeira experiência em arquitetura foi o vazio da arquitetura, e comecei a considerar como as pessoas poderiam reconstruir suas casas e cidades.”
Isozaki levou esta visão de mundo com ele para a Universidade de Tóquio, onde se formou na Faculdade de Arquitetura e Engenharia em 1954. Prosseguiu os estudos com um Ph.D. na mesma faculdade antes de iniciar sua carreira arquitetônica a sério no escritório de Kenzo Tange. Isozaki rapidamente se tornou o protegido de Tange, trabalhando em estreita colaboração com o Prêmio Pritzker de 1987, antes de estabelecer seu próprio escritório em 1963.
O Japão na época estava em um período de imensa mudança e reinvenção. O país havia sido libertado da Ocupação Aliada apenas uma década antes, e ainda estava se recuperando dos efeitos posteriores da guerra. "A fim de encontrar a maneira mais adequada para resolver esses problemas, não pude me apoiar em um único estilo", diz Isozaki. “A mudança se tornou constante. Paradoxalmente, isso veio a ser meu próprio estilo ”.
“A mudança se tornou constante. Paradoxalmente, isso veio a ser meu próprio estilo ”.
De fato, a obra inicial de Isozaki é notável por sua abordagem decididamente futurista, visível em City in the Air, seu aspirante a masterplan para Shinjuku. Nessa proposta, camadas elevadas de prédios, residências e transportes flutuariam acima da cidade antiga - uma resposta extrema ao ritmo voraz da urbanização e modernização no Japão (da época). Embora o plano nunca tenha sido realizado, ele deu o tom para muitos dos futuros projetos de Isozaki e liderou mais planos / visões urbanas para cidades em todo o mundo.
A linguagem formal que caracteriza grande parte das obras de Isozaki - uma combinação característica de Metabolismo e Brutalismo - foi desenvolvida em colaboração com o mentor Kenzo Tange, o arquiteto considerado fundador do metabolismo japonês.
Originalmente chamado de Burnt Ash School, por conta do local onde nasceu, o Metabolismo fundiu idéias de crescimento orgânico com a arquitetura das megaestruturas futuristas. Isozaki estava profundamente envolvido no desenvolvimento e na perpetuação do Metabolismo, como visto em projetos como a Biblioteca da Província de Oita, a Escola Secundária de Iwata Girls e vários projetos para o Fukuoka City Bank.
Mas foi em 1970 que o Isozaki ganhou fama internacional, já que seu projeto Festival Plaza na EXPO70 (a primeira feira mundial sediada no Japão) cativou os visitantes globais. Isozaki completou outras obras significativas, como a Torre de Arte Mitor, o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles e o Palau Sant Jordi em Barcelona. Mais recentemente, Isozaki completou o Museu Provincial de Hunan, o Harbin Concert Hall, o Krakow Concert Hall e a Allianz Tower em Milão.
“A obra de Isozaki foi descrita como heterogênea e abrange descrições de vernacular a alta tecnologia”, disse o júri do Pritzker na citação do prêmio. "O que é claro é que não vem seguindo tendências, mas forjando seu próprio caminho."
Isozaki recebeu inúmeros prêmios ao longo de sua carreira, mais notavelmente o Prêmio Anual do Architectural Institute of Japan em 1974, a Medalha de Ouro do RIBA em 1986 e o American Institute of Architects Honor Award em 1992.
A cerimônia do Prêmio Pritzker de 2019 será realizada no Chateau de Versailles, na França, em maio, e será acompanhada por uma palestra pública de Isozaki, em Paris.

Citação do Júri

Arata Isozaki, nascido em Ōita, na ilha de Kyushu, no Japão, é conhecido como um arquiteto versátil, influente e verdadeiramente internacional. Estabeleceu sua própria prática na década de 1960 e tornou-se o primeiro arquiteto japonês a forjar uma relação profunda e duradoura entre o Oriente e o Ocidente. Isozaki possui um profundo conhecimento da história e teoria da arquitetura e, abraçando a vanguarda, nunca meramente reproduziu o status quo, mas o desafiou. Em sua busca por uma arquitetura significativa, criou edifícios de grande qualidade que até hoje desafiam categorizações, refletem sua constante evolução e estão sempre atualizados em sua abordagem.
Ao longo dos mais de 50 anos de profissão, Arata Isozaki teve um impacto na arquitetura mundial, através de seus trabalhos, escritos, exposições, organização de importantes conferências e participação em júris de concursos. Ele apoiou muitos jovens arquitetos de todo o mundo a terem uma chance de realizar seu potencial. Em empreendimentos como o Fukuoka Nexus World Housing (1988-1991) ou o programa Machi-no-Kao (“face da cidade”) da Prefeitura de Toyama (1991-1999), Isozaki convidou jovens arquitetos internacionais para desenvolver projetos catalíticos no Japão. Sua obra foi descrita como heterogênea e que abrange descrições do vernacular à alta tecnologia. O que é evidente é que ele não segue as tendências, mas forjou seu próprio caminho. Uma exploração inicial de uma nova visão para a cidade é vista no projeto City in the Air, do início dos anos 1960, para uma cidade multifacetada que paira sobre a cidade tradicional.
Seus primeiros trabalhos no Japão, seu país natal, incluem uma obra-prima do brutalismo japonês, a Biblioteca Municipal de Ōita (1966). Projetos como a Biblioteca Central de Kitakyushu (1974) e o Museu de Arte Moderna da Prefeitura de Gunma, inaugurado em 1974, revelam uma exploração de uma arquitetura mais pessoal. No museu, a geometria clara do cubo reflete seu fascínio pelo vazio e pela grade, à medida que busca alcançar um equilíbrio na exibição de obras de arte em mudança.
O alcance e o repertório de Arata Isozaki se expandiram ao longo dos anos e passaram a incluir projetos de muitas escalas e tipologias e em vários países. Nos Estados Unidos, Isozaki é provavelmente mais conhecido por ter projetado o Museu de Arte Contemporânea em Los Angeles (1986) e o edifício Team Disney na Flórida (1991). O primeiro é um estudo da abóbada, ou o que ele chama de “retórica do cilindro”, e o segundo é evidenciado por um uso mais lúdico de formas com um toque pós-moderno.
Muitos conhecem o seu trabalho através de edifícios tão significativos como o Estádio Sant Jordi para as Olimpíadas de 1992 em Barcelona. Ele realizou trabalhos exemplares na China, como o Museu de Arte CAFA (Academia Central de Belas Artes da China) em Pequim, inaugurado em 2008, ou o Centro Cultural de Shenzhen (2007), em Shenzhen, Guangdong.
Isozaki mostrou extraordinário dinamismo nos últimos anos com obras como Qatar Convention Center (2011), o inflável viajante Ark Nova (2013) projetado com Anish Kapoor para regiões afetadas pelo tsunami de 2011 no Japão, e o poderoso e elegante Allianz Tower em Milão inaugurado em 2018. Mais uma vez, é um testemunho da sua capacidade de compreender o contexto em toda a sua complexidade e de criar um edifício notável, bem trabalhado, inspirador, e que é bem sucedido desde a escala da cidade até aos espaços interiores.
Claramente, é uma das figuras mais influentes na arquitetura do mundo contemporâneo que está em uma busca constante, sem medo de mudar e tentar novas idéias. Sua arquitetura repousa na compreensão profunda, não apenas da arquitetura, mas também da filosofia, história, teoria e cultura. Ele uniu o Oriente e o Ocidente, não por meio de mimetismo ou como academia, mas através da criação de novos caminhos. Isozaki deu um exemplo de generosidade ao apoiar outros arquitetos e incentivá-los em competições ou através de trabalhos colaborativos. Por todas essas razões, o Júri do Prêmio Pritzker selecionou Arata Isozaki como laureado em 2019.
Júri do Prêmio Pritzker 2019 
  • Stephen Breyer: Supremo Tribunal dos EUA. Washington DC.
  • André Aranha Corrêa do Lago: atual embaixador do Brasil no Japão.
  • Richard Rogers: Arquiteto e Prêmio Pritzker 2007. Londres, Inglaterra.
  • Kazuyo Sejima: Arquiteto e Prêmio Pritzker 2010. Japão.
  • Benedetta Tagliabue: Arquiteta e Educadora. Barcelona, Espanha.
  • Ratan N. Tata: Presidente Emérito da Tata Sons, a holding do Grupo Tata. Mumbai, índia.
  • Wang Shu: Arquiteto e Prêmio Pritzker 2012. República Popular da China.
  • Martha Thorne (Diretora Executiva): Dean, IE School of Architecture & Design. Madri, Espanha.





























Fonte das Imagens: do Site Archdaily

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Reconhecimento do MERCOSUL e requalificação urbana promovem São Miguel das Missões (RS)

A região das Missões é um grande representante da cultura e identidade do Rio Grande do Sul. Há mais de 80 anos, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vem atuando no local, em uma série de ações que se iniciam com o tombamento do Sítio Histórico de São Miguel Arcanjo, ainda em 1938, e seguem até os dias atuais. Assim, na próxima sexta-feira, dia 08 de fevereiro, a cidade de São Miguel das Missões celebrará duas novidades: o início da primeira etapa da obra de requalificação urbanística do entorno do Sítio de São Miguel Arcanjo e a entrega do certificado da Tava como Patrimônio Cultural do MERCOSUL.
As ações serão anunciadas em solenidade promovida pelo Iphan e o Ministério da Cidadania, às 10h. O evento contará com a presença do ministro da Cidadania, Osmar Terra; da presidente da instituição, Kátia Bogéa; dos diretores Robson de Almeida, Hermano Queiroz e Marcelo Brito, além de representantes do povo Guarani, autoridades locais e da coordenadora executiva da Comissão de Patrimônio Cultural do MERCOSUL, Gabriela Gallardo.
Requalificação urbana
São Miguel das Missões é uma das localidades que integram o PAC Cidades Históricas, programa do Governo Federal conduzido pelo Iphan, com foco no desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida das cidades históricas brasileiras por meio de seu Patrimônio Cultural. No dia 08 de fevereiro, será assinada a ordem de serviço para a obra que inicia a requalificação do entorno do Sítio de São Miguel Arcanjo. A proposta da intervenção é qualificar a infraestrutura urbana do local, melhorando condições de habitabilidade, drenagem, tráfego, acesso, entre outros, visando benefícios aos moradores e aos turistas.
Nessa primeira etapa serão trabalhados alguns trechos do Sítio, dando início à implantação de projeto que busca demarcar a região enquanto Parque Urbano, além de valorizar as atrações turísticas e fornecer um padrão de qualidade que poderá ser, gradualmente, expandido para o restante da cidade. Entre as ações previstas estão a implantação de trilhas, ciclovias e calçadas, condições de acessibilidade, novo paisagismo e a requalificação de três praças. O investimento é de R$3,05 milhões.
Tava – Patrimônio Cultural do MERCOSUL
Ainda na região do Sítio de São Miguel Arcanjo, está localizada a Tava, Lugar de Referência para a memória e a identidade do povo Guarani. Construída e habitada por seus ancestrais a pedido de sua divindade, Nhanderu, o lugar sagrado foi Registrado pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil e, no ano passado, também reconhecido como Patrimônio Cultural do MERCOSUL.
decisão foi tomada e anunciada no XVII Encontro da Comissão do Patrimônio Cultural do MERCOSUL, em outubro último, no Uruguai, e será agora oficializada com a entrega do certificado para os Guarani. A titulação significa o reconhecimento da presença ancestral deste povo no território Yvy Rupá, organizado em uma grande rede étnica, formada por aldeias, caminhos e locais sagrados que hoje integram o Brasil, a Argentina e o Paraguai. 
Além disso, a decisão vem ao encontro das solicitações das lideranças indígenas que, durante as ações de salvaguarda, compreenderam que era necessário ampliar essas relações com os países vizinhos, compartilhando os valores atribuídos à Tava. Assim, com a anuência das comunidades envolvidas, o Iphan apresentou os estudos realizados sobre o bem cultural, mostrando sua importância como lugar sagrado onde todos, indígenas e não indígenas, podem aprender sobre a trajetória do povo Guarani.
Missões Jesuíticas no Brasil
São Miguel das Missões foi o local de uma das missões jesuíticas que compreendiam os 30 povos indígenas entre Brasil, Argentina e Paraguai durante a colonização portuguesa e espanhola. Em 1937, o arquiteto Lucio Costa foi enviado ao Rio Grande do Sul para analisar os remanescentes dos Sete Povos das Missões e a visita resultou no tombamento, pelo Iphan, em 1938, dos remanescentes das Missões. Em 1983, o Sítio Histórico de São Miguel foi declarado Patrimônio Mundial Cultural pela Unesco e em 2009 foi criado o Parque Histórico Nacional das Missões, que reúne os sítios arqueológicos de São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São Nicolau e São João Batista. Em 2014, o Iphan também inscreveu a Tava, Lugar de Referência para o Povo Guarani, no Livro de Registro de Lugares.
Serviço:
Solenidade de início da 1ª etapa de obra de requalificação urbanística do entorno do Sítio de São Miguel Arcanjo e entrega do certificado da Tava como Patrimônio Cultural do MERCOSUL

Data: 08 de fevereiro, às 10h
Local: Sítio de São Miguel Arcanjo, São Miguel das Missões/RS
 
Mais informações para a imprensa
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Fonte das Imagens: do site Iphan

Patrimônio+Turismo e bens do Sul serão o foco do Iphan em 2019

Uma vasta lista de edificações, conjuntos urbanos, manifestações, bens arqueológicos e ferroviários reconhecidos como referências culturais. Apesar de ser a menor região brasileira em extensão territorial, o Sul oferece esse inventário plural de bens culturais que será divulgado, valorizado, promovido e debatido coletivamente entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e seus parceiros, em 2019. Nesse sentido, foi lançada nesta quinta-feira, dia 07 de fevereiro, na capital Porto Alegre (RS), a campanha Patrimônio Cultural do Sul: Turismo Cultural como ativo para o desenvolvimento das cidades históricas. A cerimônia aconteceu no gabinete do governador do Estado, Eduardo Leite e contou com a presença do Ministro da Cidadania, Osmar Terra, do Secretário Nacional de Desenvolvimento e Competitividade do Turismo, Aluizer Malab, da presidente do Iphan, Kátia Bógea, dos diretores nacionais e superintendentes do Instituto na região Sul.
Com o foco nesse patrimônio e dando prosseguimento à proposta do Iphan de levar o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade para todas as regiões do Brasil, este ano, a maior festa do Patrimônio Cultural Brasileiro será em Porto Alegre (RS). A região também vai abrigar o lançamento da Revista do Patrimônio, publicação editada pelo Iphan desde 1937 e uma das revistas institucionais mais antigas e respeitadas do país. 
Como pano de fundo dessas ações, o Patrimônio Cultural do Sul reflete a diversidade dos mais de 28 milhões de habitantes dos três estados: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Cada povo que ajudou a construir essa parte do território brasileiro trouxe consigo sons e ritmos, sabores e saberes, cantares e falares, que são retratados em cada um dos sítios arqueológicos cadastrados, das edificações tombadas, dos bens registrados e das 13 cidades históricas protegidas pelo Iphan nesta porção do país. 
O conjunto de bens e manifestações culturais protegidos em todo Brasil possui grande potencial turístico que, objetivamente trabalhado e qualificado, pode despertar, em cada cidadão, o desejo de explorá-lo e a responsabilidade de preservá-lo. É com esse olhar que o Iphan mais uma vez tem o futuro como meta e, em 2019, busca atuar também com uma forte parceria com o Ministério do Turismo, visando implementar ações que incentivam o turismo cultural. 













Fonte das Imagens: Site Iphan

sábado, 26 de janeiro de 2019

Pesquisador descobre dez novos sítios arqueológicos no interior da Amazônia

Situados ao longo das calhas dos rios Jutaí e Solimões, os locais possuem peças que podem ter mais de três mil anos.

Restos de cerâmica com pinturas e incisões, carvões e a presença de terra preta arqueológica ajudam a contar a história de como viviam e se comportavam os antigos habitantes da Amazônia. No início de janeiro, o Instituto Mamirauá mapeou dez novos sítios arqueológicos no interior do Amazonas. Os vestígios coletados estão associados a populações produtoras de cerâmicas que ocuparam a região cerca de três mil anos atrás.

O levantamento foi conduzido dentro e ao redor da Estação Ecológica (Esec) Jutaí-Solimões e da Reserva Extrativista (Resex) Rio Jutaí. Ambas são unidades de conservação ambiental que, juntas, somam mais de 500 mil hectares. O trabalho científico é parte de uma colaboração com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão destas áreas protegidas.

Segundo o arqueólogo do Instituto Mamirauá que identificou os novos sítios, as descobertas ajudam a ter um melhor entendimento sobre o passado.

“Os estudos arqueológicos são complementares aos levantamentos de fauna e flora nas unidades de conservação e contribuem com dados para conhecer o passado da região e pensar em formas de proteger o território”, contou.

Antepassados

Durante 12 dias, o pesquisador percorreu comunidades e trechos de floresta nas calhas dos rios Jutaí e Solimões à procura de traços da influência dos antepassados na paisagem. Os sinais estão por toda parte: das manchas do solo arqueológico escuro e cheio de nutrientes, conhecido popularmente como terra preta de índio, até a copa das palmeiras de açaí, pupunha e outros frutos que foram selecionados pelos ancestrais amazônicos para alimentação e são apreciados até hoje.

“Existe uma associação muito próxima entre terra preta, sítios arqueológicos e plantas úteis aos seres humanos, como a bacaba, o açaí a pupunha e o ingá. Por vezes, os arqueólogos não conseguem achar a terra preta, nem fragmentos cerâmicos, mas conseguem ver a vegetação diferente. A antropização da área indica que ali provavelmente existe um sítio arqueológico”, explicou Márcio.

A posição de alguns dos sítios arqueológicos encontrados coincide com o endereço de comunidades da região. “Os sítios compartilham o mesmo espaço de áreas antrópicas, com terra preta e fértil. A população atual também está morando em cima desses sítios, o mesmo espaço que já foi ocupado há três mil, quatro mil anos. É um padrão que se repete e é notado em pesquisas arqueológicas em toda a Amazônia”.

Na busca pelos sítios, as instruções dos atuais moradores da floresta também são essenciais. "A populão é nossa fonte primária, porque conhece essas áreas como ninguém, maneja e planta no solo e tem o conhecimento de onde estão os vestígios dessas aldeias antigas”, informou o pesquisador.

Tradições milenares

A coleta nos recém-descobertos sítios arqueológicos revelou fragmentos de dois conjuntos cerâmicos da história pré-colonial da Amazônia: a tradição Pocó e a tradição Polícroma da Amazônia.

O conjunto Pocó foi produzido por povos cujos registros mais antigos de ocupação no território amazônico datam do primeiro milênio antes da era Cristã e foram catalogados primeiramente nos rios Nhamundá e Trombetas, região do Baixo Amazonas. Entre as características mais marcantes das cerâmicas Pocó, está o uso diverso de cores, com destaque para o amarelo, laranja e vermelho sobre um fundo branco, e a recorrência de figuras geométricas incisas como retângulos, quadrados, círculos, faixas e linhas.

“Esse tipo de incisão geométrica é encontrado em sítios arqueológicos como o da Boa Esperança (na Reserva Amanã, centro do Amazonas), dentro do Rio Juruá e em Santarém, no Pará. Os registros chegam também às regiões do Rio Xingu e ao Rio Tocantins. O que nos dá a dimensão que alcançou a tradição cerâmica Pocó há três mil anos dentro dessa ampla região”, destaca o arqueólogo.

Os artefatos revelam a história e tradições das populações antepassadas da Amazônia.

“Através dessas peças, é possível observar a dinâmica dessas populações, que não estavam estáticas, não necessariamente na questão de mobilidade total, mas de pessoas que tinham funções específicas para fazer essas pontes entre áreas distintas. O alcance das cerâmicas Pocó parece estar associado a fatores que incluem agricultura, sedentarismo, aumento populacional e à comunicação entre regiões por meio das antigas e complexas redes de interações sociais de curta, média e longa distância", diz o pesquisador do Instituto Mamirauá.

O Instituto

O Instituto Mamirauá é uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e realiza há mais de uma década estudos arqueológicos na Amazônia Central, ajudando a expandir as fronteiras do que se conhece a respeito do passado da região.

“O trabalho desenvolvido pelo Instituto Mamirauá é importante para que possamos compreender essas dinâmicas antigas na Amazônia, que antes se pensava que eram muito simples e efêmeras, mas o que os resultados recentes mostram é que muitos aspectos culturais tiveram grande continuidade e dispersão dentro das terras baixas amazônicas”, afirma Márcio Amaral.

Fonte:https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2019/01/25/pesquisador-descobre-dez-novos-sitios-arqueologicos-no-interior-da-amazonia.ghtml
















Figura cerâmica com forma animal encontrada durante o levantamento arqueológico — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá


















Sítios arqueológicos foram descobertos ao longo das calhas dos rios Jutaí (foto) e Solimões, no Amazonas — Foto: Amanda Lelis/Instituto Mamirauá


















Fragmentos cerâmicos coletados da tradição Pocó, que podem datar 3 mil anos — Foto: Bernardo Oliveira/Instituto Mamirauá

sábado, 12 de janeiro de 2019

Na Bahia, São Félix e Itaparica têm bens restaurados

Retratos da ocupação do território e simbólicos representantes do valioso Patrimônio Cultural da Bahia, os municípios de Itaparica e São Félix estão entre os 11 conjuntos urbanos protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Estado. No próximo dia 28 de dezembro, as duas cidades irão receber dois bens culturais de caras novas, após passarem por obras de restauração, promovidas pelo próprio Instituto.
Em São Félix, no Recôncavo Baiano, o Paço Municipal recebeu ações emergenciais e de restauro. O edifício, construído no final do século XIX, abrigava a sede da Prefeitura até 2013, quando foi interditado por graves problemas estruturais. Assim, as intervenções realizadas pelo Iphan, com orçamento de mais de R$1,2 milhão proveniente do Fundo Nacional de Cultura (FNC), garantiram a preservação da integridade do bem, que é parte do conjunto tombado da cidade. Também foram executadas a recuperação dos elementos arquitetônicos e artísticos, a melhoria dos espaços internos e a modernização das instalações, a fim de que sejam retomadas as atividades da Administração Municipal, em plenas condições de atendimento aos servidores e cidadãos. As intervenções tiveram duração de 11 meses.
Já em Itaparica, duas obras de restauro estavam em execução: a Igreja de São Lourenço e a Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento. A primeira delas já foi finalizada e também será entregue à população em 28 de dezembro, depois de receber um investimento de mais de R$ 1,76 milhão, também por meio do Iphan, advindos do PAC Cidades Históricas. A igreja, cujos primeiros registros são do século XVII, é marcada pela simplicidade e robustez, que levaram ao seu tombamento individual como Patrimônio Cultural Brasileiro, em proteção que se estende a todo seu acervo. A intervenção realizou a recuperação da estrutura do templo, incluindo toda a parte arquitetônica, e dos bens artísticos e integrados, como imagens sacras e altares.
A entrega das duas obras terá a presença da presidente do Iphan, Kátia Bogéa; do diretor do Departamento de Projetos Especiais do Iphan, Robson de Almeida; do superintendente do Iphan na Bahia, Bruno Tavares; entre outras autoridades locais. Somando quase R$3 milhões, as intervenções são parte de uma série de investimentos que o Iphan tem feito no Patrimônio Cultural da Bahia nos últimos anos. Só pelo PAC Cidades Históricas já são quase R$105 milhões já investidos, com obras também nos municípios de Salvador, Maragogipe, Santo Amaro.
Serviço: 
Entrega da obra de restauração do Paço Municipal de São Félix

Data: 28 de dezembro, 10h
Local: Paço Municipal de São Félix
Entrega da obra de restauração da Igreja de São Lourenço, em Itaparica
Data: 28 de dezembro, 16h
Local: Praça Vila Damásio, Itaparica - Bahia
Mais informações para a imprensa
Assessoria de Comunicação Iphan

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Fonte das Imagens: Site Iphan

domingo, 9 de dezembro de 2018

Do tamanho da Grã-Bretanha: uma "megalópole" de 200 milhões de montes de cupim no nordeste brasileiro

"É o maior exemplo de bioengenharia do mundo produzido por uma única espécie de inseto", escreveram os cientistas

Stephen J. Martin notou a presença de grandes montes de cerca de 3 metros de altura e 9 de largura ao longo da estrada por onde dirigia em uma parte remota do Nordeste brasileiro

— Após 20 minutos, continuamos vendo esses montes e comecei a questionar o que seriam — conta Martin, entomologista da Universidade de Salford, na Inglaterra, que esteve no Brasil pesquisando o declínio mundial da população de abelhas polinizadoras.

Ele pensou que poderiam ser pilhas de entulho descartado de obras na rodovia, mas seus companheiros de viagem o corrigiram: 

— "São apenas montes de cupim." E eu insisti: "Vocês têm certeza?", e eles disseram que achavam que sim — relembra Martin.

Em uma viagem posterior, Martin encontrou, por acaso, Roy R. Funch, ecologista da Universidade Estadual de Feira de Santana que já estava organizando uma datação radiométrica para determinar a idade dos montes. 

— Eu disse a ele que parecia haver milhares deles, mas ele contestou, dizendo que havia milhões — relata Martin. 

Funch, entretanto, também subestimou os números. Em uma pesquisa publicada na semana passada na revista científica Current Biology, Martin, Funch e seus colegas registraram os achados de anos de investigação. Quantos montes? Aproximadamente 200 milhões, segundo estimativa dos cientistas. 

— Eles estão por toda parte — explica Funch.

O responsável pelos montes de formato cilíndrico é o Syntermes dirus, uma das maiores espécies de cupim, medindo aproximadamente 2,5 cm, que se espalha por uma área correspondente à da Grã-Bretanha, resguardando um espaço de quase 20 metros entre um monte e outro. 

— Como humanos, nunca construímos uma cidade tão grande assim em nenhum lugar — espanta-se Martin.

Os cientistas também se surpreenderam quando receberam os resultados da datação radiométrica de 11 dos montes: o mais novo tinha aproximadamente 690 anos e o mais velho, pelo menos, 3.820 anos, quase a mesma idade das Grandes Pirâmides de Gizé no Egito. 

— Aquilo simplesmente me deixou transtornado — confessa Funch. 

Martin disse que eles usaram a idade mínima sugerida pelos dados, mas o monte mais velho pode ter o dobro da idade. Além disso, os pesquisadores concluíram que, para construir 200 milhões de montes, os cupins precisariam ter escavado 3,84 quilômetros cúbicos de terra – volume que equivale a 4 mil Grandes Pirâmides de Gizé. 

"É o maior exemplo de bioengenharia do mundo produzido por uma única espécie de inseto", escreveram os cientistas.

Outra surpresa é que os montes são apenas montes. Outros cupins constroem montes com redes complexas de túneis que permitem ventilação para ninhos subterrâneos. No entanto, ao seccionar alguns deles, Funch e Martin encontraram apenas um tubo central que levava ao topo, e não depararam com nenhum ninho.

Esses montes não são estruturas de ventilação, apenas pilhas de terra. Ao escavarem redes de túneis subterrâneos, os cupins precisam descartar a terra em algum lugar, por isso a carregam pelo tubo central até o topo do monte, onde a descartam. O que também explica o espaçamento regular entre os montes. A princípio, Funch e Martin pensavam que a razão era a rivalidade de colônias, mas, quando colocaram um cupim de um monte perto de outro vizinho, não houve conflito, indicando serem da mesma família. Eles chegaram à conclusão de que o padrão é simplesmente uma maneira eficiente de separar as pilhas de resíduos.

Montes jovens e ativos podem atingir de 1,2 a 1,5 metro nos primeiros anos, atesta Funch. Já a maioria dos mais antigos está aparentemente inativa. Os cientistas não sabem se isso significa que os cupins abandonaram o local ou se simplesmente não precisam mais cavar após terem concluído a construção dos túneis necessários.

Apesar de os habitantes locais saberem da existência dos montes de cupim, poucos visitantes os notam. A extensão da construção é escondida pela caatinga. 

— É por isso que permaneceram desconhecidos por tanto tempo. É impossível vê-los encobertos pela vegetação nativa, e são poucos os cientistas que passam por aqui — justifica Funch.

Na maior parte do ano, com temperaturas alcançando 37°C, ou ainda mais quentes, as árvores ficam secas e pálidas. A paisagem retoma o verde após um curto período de chuva, mas então as folhas caem e o cenário torna-se desolador novamente.

Como parte da vegetação foi roçada, os montes tornaram-se visíveis e, há aproximadamente uma década, a resolução das imagens de satélite registradas pelo Google Earth ficou tão boa que Funch pôde identificar montes individuais. Ele visitou alguns dos locais para verificar que os montes estavam lá.

Por Kenneth Chang

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/ambiente/noticia/2018/11/do-tamanho-da-gra-bretanha-uma-megalopole-de-200-milhoes-de-montes-de-cupim-no-nordeste-brasileiro-cjp1g6ta80hac01pi0ekbo5mw.html


















Montes foram interligados por túneis, numa superfície equivalente à da Grã-Bretanha, criando uma paisagem lunar que agora se tornou visível através do desmatamento








Parte de um vasto campo, agora estimados por pesquisadores ecológicos, cupinzeiros somam cerca de 200 milhões

A distribuição de resíduos de cupins "Syntermes dirus" em todo o Nordeste do Brasil e a associação de redes de túneis
Reprodução / Current Biology

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Boi Bumbá do Amazonas agora é Patrimônio Cultural do Brasil

A grande festa do Amazonas terá ainda mais motivos para celebrar! O Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins é o mais novo Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão unânime ocorreu na tarde desta quinta-feira, 08 de novembro, durante a 91ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que acontece no  Museu Histórico do Pará, em Belém.
Enredo e drama na grande festa do Boi
O Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins é uma manifestação cultural de caráter festivo, que tem a figura do Boi como seu elemento principal e envolve uma série de danças, músicas, drama e enredo.
Os modos de brincar o Boi são diferentes dependendo da região do país. Em cada contexto há variações e denominações próprias, além de ocorrer em distintas épocas do ano. Seja qual for a vertente, o folguedo se estabeleceu de forma marcante na região amazônica e, a cada apresentação, faz o coração dos brincantes e de quem assiste pulsar mais forte. Nessa região, ele ocorre com mais frequência durante os festejos juninos dos santos católicos: Santo Antônio, São João e São Pedro.
Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural
O Conselho que avalia os processos de tombamento e registro é formado por especialistas de diversas áreas, como cultura, turismo, antropologia, arquitetura e urbanismo, sociologia, história e arqueologia. Ao todo, são 22 conselheiros, que representam o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), o Ministério da Educação, o Ministério do Turismo, o Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram), o Ministério do Meio Ambiente, Ministérios das Cidades, e mais 13 representantes da sociedade civil, com especial conhecimento nos campos de atuação do Iphan.
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