domingo, 16 de junho de 2019

Primo gaúcho do Museu Niemeyer, prédio em formato de olho ficou quase uma década no centro de Porto Alegre

Projetado pelo arquiteto Marcos Heckman em 1958, construção foi o pavilhão de Exposições do Governo do Estado do Rio Grande do Sul

Sentir-se observado ao caminhar pela rua foi uma constante para quem circulava pela Avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre, na década de 1960. Na esquina com a Rua General Andrade Neves, um prédio em formato de olho capturava a atenção dos pedestres, destacando-se em meio às construções convencionais do entorno. 

A edificação, uma espécie de prima gaúcha do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, foi o pavilhão de Exposições do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Projetado pelo arquiteto Marcos David Heckman em 1958, o prédio em madeira é anterior ao emblemático museu do Paraná, mas também foi inspirado no trabalho do arquiteto mais famoso do Brasil. Concebido por Niemeyer em 1954, o auditório do Liceu Belo Horizonte, em Minas Gerais, foi a principal referência de Heckman para a obra porto-alegrense. 

Apesar de remeter ao formato de um olho, foi apelidado de acordo com as referências da época: ficou conhecido como Mata-Borrão. A base da construção tinha formato de barco, semelhante ao instrumento utilizado para absorver o excesso de tinta do papel antes das canetas esferográficas. 

— Era para ser uma estrutura temporária para abrigar exposições do governo do Estado, mas ficou ali por um bom tempo. Era muito diferente de tudo o que se tinha visto até então — recorda a arquiteta Anna Paula Canez, autora do artigo Mata-Borrão: um grande olho de madeira no centro da Porto Alegre da década de 1960. 

O prédio, localizado onde hoje fica o Tudo Fácil, foi demolido no final dos anos 1960. Professora da UFRGS, a arquiteta só tomou conhecimento dele nos anos 2000 — mais tarde, lembrou de ter visitado o local quando criança. Lecionava na Uniritter quando, em um acervo fotográfico, deparou com uma foto noturna do grande olho iluminado. Impressionada com a beleza da imagem, foi atrás de Heckman, que, inicialmente, negou a autoria. 

— À noite, era lindo, parecia que flutuava. O Heckman tinha uma referência presente da obra do Niemeyer, mas se incomodava com a comparação. Mas é um prédio diferente, feito em outro material. Quando voltei a procurá-lo, ele admitiu — conta a professora. 

Diferente da solução proposta pelo arquiteto carioca, que projetou a construção pousada sobre o solo, o Mata-Borrão ficava levemente ancorado por pilares de madeira e pela rampa de entrada, deslocada do centro. À noite, as estruturas eram apagadas pela escuridão, ficando em evidência apenas o olho. Dotado de múltiplas janelas de vidro, o edifício com as luzes acesas tornava-se um ponto brilhante, destacado na Avenida Borges de Medeiros. 

A opção pela madeira, além de mostrar-se mais econômica e fácil de desmontar, fazia alusão às realizações do então governador Leonel Brizola na área educacional. Conhecidas como “brizoletas”, diversas escolas erguidas durante sua gestão foram construídas com esse material.

— Acho que o arquiteto acertou, foi ousado na forma e cumpriu com o propósito de abrigar as exposições. Ficou na memória de quem viveu, e quem não viveu e vê as imagens daquela época quer saber como aquela nave pousou no centro de Porto Alegre — diz Anna Canez. 

Construção quase deu lugar a prédio de Niemeyer

Depois de abrigar por quase uma década com uma construção que lembrava a obra de Niemeyer, o terreno da Avenida Borges de Medeiros chegou muito perto de ter uma edificação projetada pelo arquiteto carioca.

O projeto de um prédio em estilo modernista para a área estava pronto quando foi barrado pela prefeitura de Porto Alegre. À época, o poder público municipal julgou que a proposta de Niemeyer destoaria das demais construções da Borges de Medeiros. 

— Por coincidência, houve esse projeto para aquela área. Era de uma arquitetura elegante, mas a prefeitura achou que era moderno demais. No fim, foi construído um prédio quadrado — lamenta a professora da UFRGS. 

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/porto-alegre/noticia/2019/06/primo-gaucho-do-museu-niemeyer-predio-em-formato-de-olho-ficou-quase-uma-decada-no-centro-de-porto-alegre-cjwl5s14v03of01qtfxj1waie.html

















Prédio foi pavilhão de exposições do governo do Estado
ACERVO JOÃO ALBERTO / UNIRITTER


Prédio sediou "comitê de resistência democrática" durante a crise da legalidade, em 1961
Jornal Última Hora / Agencia RBS








Projeto do prédio construído em 1958
Hélio Ricardo Alves / Reprodução







O cenário do "mata-borrão" em meio aos demais prédios do centro de Porto Alegre

ACERVO JOÃO ALBERTO / UNIRITTER







Pavilhão também foi centro de imprensa durante a universíade de 1963
Reprodução / Reprodução









O Olho de Niemeyer em Curitiba - Museu Oscar Niemeyer.
Fotos Carlos Renato Fernandes

sábado, 1 de junho de 2019

Último edifício projetado por Le Corbusier é reaberto em Zurique

Centro Le Corbusier é considerado o último projeto construído por Le Corbusier. Entretanto, ele foi inaugurado somente em 1967, dois anos após a morte do seu renomado criador. Ao longo dos últimos anos o edifício esteve fechado, atravessando um longo projeto de reforma e restauração. Finalmente, o edifício construído em aço e vidro, volta a abrir as suas portas para o público na cidade de Zurique.

O Centro Le Corbusier ficará aberto entre maio e novembro ao longo dos próximos anos, com uma programação que inclui exposições temporárias e permanentes, eventos e workshops, tudo relacionado à vida e obra do arquiteto que dá nome a instituição. Após este longo projeto de restauração e dias antes da sua reinauguração oficial, o pavilhão foi extensivamente fotografado por Paul Clemence, fotografias que publicamos na íntegra para os assíduos leitores do Archdaily.

O Centre Le Corbusier foi efetivamente o último projeto sobre o qual Le Corbusier esteve trabalhando em 1965, ao longo de seus últimos meses de vida. O edifício é uma testemunha da versatilidade de Corbusier como arquiteto, pintor e escultor. Ele se debruçou sobre este projeto intencionalmente e com o objetivo principal de desenvolver um museu onde pudesse abrigar e expor a sua vasta coleção pessoal de projetos de arquitetura, maquetes, pinturas, esculturas e fotografias.

Curiosamente, este é um edifício atípico se comparado com a maioria de suas obras. Aqui não há concreto, pedra nem repetições infinitas. Aqui ele celebra o espaço; este é um projeto experimental de pré-fabricação e montagem, onde a liberdade espacial é encontrada através do uso inteligente da modularidade, uma planta livre e infinitamente adaptável.

A estrutura da cobertura se apoia em apenas quatro pontos, dois enormes guarda-sóis construídos em chapas de aço soldadas, um voltado para cima e o outro para baixo. O edifício foi inteiramente pré-fabricado: chapas de aço foram soldadas umas as outras na própria fábrica e trazidas para o local em forma de grandes elementos independentes, os quais foram finalmente içados e soldados para dar a forma final a arquitetura do edifício. Esta enorme cobertura metálica em balanço, além de definir as formas do pavilhão e acolher o programa do museu abaixo, foi concebida principalmente para oferecer proteção contra o sol e a chuva, seja aos espaços do museu, seja aos trabalhadores que montavam o edifício no canteiro de obras.

Além de aço e vidro, Le Corbusier utilizou uma série de painéis metálicos esmaltados em cores primárias para conformar a envoltória dos espaços expositivos do museu, criando uma noção dinâmica de ritmo que transforma a nossa percepção espacial do edifício.

Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/918082/ultimo-edificio-projetado-por-le-corbusier-e-reaberto-em-zurique




















Crédito da imagem: do site Archdaily

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Múmia egípcia que estava em museu de Cerro Largo tem origem confirmada por universidade gaúcha

Após um ano de pesquisas, a confirmação: crânio pertenceu a mulher que viveu no Egito entre 768-476 antes de Cristo.

Por mais de três décadas, um crânio humano coberto parcialmente com faixas de tecido envelhecido ficou preservado numa caixa de vidro, no museu do Centro Cultural 25 de Julho, na cidade de Cerro Largo, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Conhecida como a Múmia de Cerro Largo, a peça não tinha comprovação científica, permanecia no armário coberto por uma cortina e era apresentada a alguns visitantes. 

Neste mês, depois de um ano de pesquisas que envolveram até o exame para datação por radiocarbono (C14), realizado num laboratório nos Estados Unidos, veio a confirmação: o crânio pertenceu a uma mulher na faixa dos 40 anos, que viveu no Egito no período entre 768-476 antes de Cristo. A múmia autenticamente egípcia é uma das duas identificadas hoje no Brasil — a outra, chamada de Tothmea, está no Museu Egípcio e Rosa Cruz, em Curitiba (PR). 

A descoberta foi realizada pelo pós-doutor em História, pesquisador e caçador de relíquias Édison Hüttner, também coordenador do Grupo de Estudo Identidades Afro-Egípcias da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em junho de 2017, convidado pelo integrante do museu de Cerro Largo, o filósofo, historiador e psicólogo Guido Henz, ele conheceu o crânio e obteve autorização para uma investigação mais aprofundada. No ano passado, a peça foi levada para as dependências da PUCRS, em Porto Alegre. 

Para legitimar a origem, o caçador de relíquias convidou estudiosos de diferentes áreas, entre eles, Moacir Elias Santos, arqueólogo especializado em Egito Antigo, coordenador do projeto Tothmea, no Museu Egípcio e Rosa Cruz, em Curitiba, e integrante do Museu de Arqueologia Ciro Flamarion Cardos, em Ponta Grossa (PR), e o cirurgião bucomaxilofacial Éder Hüttner, responsável pelo laudo que identificou nove dentes intactos no crânio — um deles serviu como base para os estudos de carbono 14. No primeiro exame de tomografia, realizado no Instituto do Cérebro da PUCRS, foi identificada a existência de um olho artificial feito com rocha. Por conta desta descoberta, o crânio passou a ser chamado de Iret-Neferet — em egípcio antigo, significa olho bonito. 

— O olho é uma das partes muito bem trabalhadas nesta peça. Ainda há restos do linho utilizado para preencher o globo ocular e segurar o olho de pedra. Os egípcios acreditavam que o corpo precisava estar muito bem preservado para que a alma voltasse e o encontrasse novamente — relata Hüttner

Cálculo da idade feito a partir de análise do dente

Outro momento importante da pesquisa foi o envio aos Estados Unidos de um pequeno pedaço de um dos dentes para análise da presença de C14 — durante a vida, os seres vivos absorvem o C14 presente na atmosfera. De acordo com a pesquisadora Rosalia Barili da Cunha, do Instituto do Petróleo e dos Recursos Naturais da PUCRS, que também participou dos estudos, o cálculo é feito pelos cientistas com base no comportamento do componente ainda existente nos restos mortais, permitindo o enquadramento do artefato em um período mais específico do contexto histórico ou pré-histórico, já que é possível datar objetos de até 60 mil anos.

No início deste ano, Hüttner recebeu o laudo assinado pelo diretor do laboratório Beta Analytic, professor Ronald E. Hatfield. Conforme a data calibrada, 768-476 a.C., a múmia viveu no período Sátira-Persa (Período Tardio). 

— É uma descoberta fantástica para o Brasil. Principalmente, depois do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro — comenta Hüttner. 

O arqueólogo especializado em Egito Antigo concorda com o pesquisador gaúcho. Santos afirma que o crânio identificado no Rio Grande do Sul tem extrema relevância para o Brasil. A perda das seis múmias egípcias — cinco trazidas por Dom Pedro I, em 1826, e outra trazida por Dom Pedro II, em 1875 — e de todo o restante da coleção que estava no Museu Nacional deixou o país praticamente órfão desta parte da história dos povos antigos. Atualmente, há apenas um exemplar em exposição, a Tothmea, no museu do Paraná. Santos, que veio a Porto Alegre para analisar o crânio mumificado, confessa ter se impressionado com a qualidade do trabalho dos embalsamadores da época. Ele detectou uma perfuração de 12mm no osso etmoide da cabeça, por onde o cérebro foi removido com um gancho de metal, inserido pela narina esquerda — ato comum no processo de mumificação.

Secagem do corpo não foi suficiente

Santos ressalta que os indícios são de que o trabalho foi realizado numa época tardia, feito em larga escala. No auge das múmias no Egito, quando apenas reis eram preservados, a função poderia levar até 70 dias. No caso de Iret-Neferet, o processo foi mais rápido, pois não há conservação total dos tecidos moles nem resina de cedro, sicômoro ou acácia no lugar do cérebro. Há vestígios de cabelos e também da musculatura, confirmando que a secagem do corpo não foi suficiente. Pelo menos, 22 faixas de linho foram identificadas pelos cientistas no entorno do crânio. 

— Fiquei fascinado com a descoberta, pois é um material muito raro para ser estudado. É preciso ter cuidado e respeito, pois estamos trabalhando com pessoas. E elas viveram num período muito antigo da nossa História — afirma Santos, que já sabia da existência do crânio em Cerro Largo antes do início dos estudos avançados. 

Como a múmia foi parar em Cerro Largo

Mas como uma múmia foi parar na cidade de 14 mil habitantes, no interior gaúcho? Quem explica é Henz, voluntário cultural de Cerro Largo e integrante do Centro Cultural 25 de Julho. No início dos anos de 1950, um advogado natural da região e que vivia no Rio de Janeiro ganhou a peça de presente de um amigo egípcio, que estava com câncer e tinha os dias de vida contados. Ao retornar para o Rio Grande do Sul, o advogado carregou o crânio para diferentes cidades onde morou. A múmia ficava sempre numa sala reservada da casa da família. No final dos anos de 1970, o advogado, que também acabou sendo vítima de um câncer — na garganta —, decidiu doar a peça a Henz para ser incluída no catálogo de 2 mil artigos existentes no local. Henz conta que a família do advogado não queria mais o crânio por considerá-lo maldito. O doador morreu no início dos anos 1980. Desde então, Iret-Neferet ficou reservada no museu de Cerro Largo. 

— Este meu amigo tinha muito apreço pela história das civilizações e queria que guardássemos o material para as próximas gerações. Ele dizia que o crânio havia pertencido a uma rainha. Nosso maior desejo é que seja feito um exame de DNA para comprovar a qual linhagem egípcia ela pertenceu — comenta Henz. 

Para Hüttner, o trabalho de identificação da múmia de Cerro Largo ainda não terminou. Neste momento, está em desenvolvimento uma análise de fungos no Instituto do Petróleo e Recursos Naturais da PUCRS. Ele planeja também encaminhar uma amostra para estudos de sequência de DNA, a serem realizados na Alemanha. 

No próximo dia 11, Iret-Neferet será apresentada ao público na Biblioteca Central Irmão José Otão, no Campus Central da PUCRS. A exposição ficará até 28 de julho. 

— Imagino que só exista a cabeça porque transportar um corpo completo chamaria muito a atenção. Iret-Neferet surgiu nas esquinas da História e veio vindo, até chegar o momento de ser identificada. E foi agora — comemora o caçador de relíquias. 

Para visitar a Iret-Neferet

A cabeça de Iret-Neferet estará em exposição gratuita e aberta ao público na Biblioteca Central Irmão José Otão, no Campus Central da PUCRS, Avenida Ipiranga, 6.681.
A exposição ocorrerá de 11 de junho a 28 de julho. 
A abertura da exposição será no dia 11 de junho, às 19h.

Fonte da Imagem: do site

Museu do Eclipse reabre as portas em Sobral (CE), após obra de requalificação

No dia 29 de maio, Sobral (CE) celebra e relembra o mais famoso eclipse solar da história, ocorrido há exatamente cem anos. Naquela ocasião, uma expedição composta por cientistas brasileiros, britânicos e norte americanos se reuniu na cidade cearense, onde seria possível ver com totalidade o eclipse solar e, com isso, conseguiu a comprovação final da Teoria da Relatividade, elaborada por Albert Einstein. Para marcar as comemorações da data que simboliza um verdadeiro avanço na ciência mundial, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia do Ministério da Cidadania, e a Prefeitura de Sobral entregam a obra do Museu do Eclipse, que acaba de ser completamente requalificado.

O Iphan, por meio do PAC Cidades Históricas, investiu quase R$ 1 milhão no Museu, que é ícone da divulgação histórica e científica no país. Localizado na Praça do Patrocínio, no ponto exato em que foi observado o eclipse solar de 1919, o equipamento foi construído há 20 anos e possui um importante acervo, que inclui o telescópio mais avançado das regiões Norte e Nordeste brasileiras e equipamentos originais da referida expedição internacional. Agora, após nove meses de obras, o edifício está todo reestruturado, com novas instalações elétricas, sanitárias, climatização, sonorização, adequação às normas de acessibilidade e ampliação e modernização do projeto museográfico. Além disso, um importante trabalho de impermeabilização foi realizado, solucionando os problemas de infiltração, que levaram ao seu fechamento em 2016.

A obra, executada pela Prefeitura Municipal, foi entregue em cerimônia no dia 29 de maio, às 19h, com a presença da presidente do Iphan, Kátia Bogéa, do diretor do Departamento de Projetos Especiais do Iphan, Robson de Almeida, do superintendente do Iphan-CE, Otacílio Macedo, do prefeito Ivo Gomes, entre outras autoridades locais. O evento é parte de uma série de comemorações que que começaram há um ano em Sobral, com a instituição do Ano Municipal das Ciências, realizado em parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e o Governo do Estado do Ceará. Além da solenidade de reinauguração do Museu do Eclipse, a cerimônia também contou com a apresentação da Orquestra Internacional Jovem Eurochestries.


Museu do Eclipse 
Fundado em maio de 1999, em comemoração aos 80 anos da comprovação da Teoria da Relatividade em Sobral, o Museu do Eclipse é composto por um complexo, que inclui o Observatório Astronômico Henrique Morize. Seu acervo é composto por um simulador de eclipses, réplicas de planetas e satélites do Sistema Solar e diversos outros materiais científicos e astronômicos, utilizados nos estudos de ciências das escolas da região. Em parceria com a Universidade Estadual Vale do Acaraú, o museu também realiza atividades externas, em praças e instituições de ensino, com um planetário móvel e telescópios de pequeno porte.

Os investimentos na completa requalificação do museu são parte das ações do Iphan voltadas ao Patrimônio Cultural de Sobral. Pelo PAC Cidades Históricas, já foram concluídas as obras das praças Samuel Pontes e Senador Figueira com recursos de R$ 1,3 milhão. Além disso, ainda no dia 29, serão assinados os termos de compromisso para início dos trâmites licitatórios para as obras de restauração do Abrigo do Sagrado Coração, do Museu Dom José e da Igreja do Menino Deus, com previsão de outros R$ 6,2 milhões em recursos.

Assessoria de Comunicação 
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

comunicacao@iphan.gov.br
Fernanda Pereira – fernanda.pereira@iphan.gov.br
Déborah Gouthier – deborah.gouthier@iphan.gov.br
(61) 2024-5511 - 2024-5533
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Fonte: http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/5103/

















Fonte das Imagens: do site Iphan

sábado, 4 de maio de 2019

Pesquisadores descobrem maior painel de arte rupestre de São Paulo

Gravuras do painel serão transformadas em modelo 3D.

Na cidade de Ribeirão Bonito, região central do Estado de São Paulo, pesquisadores da USP, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) escavaram um painel de 80 metros de comprimento, dos quais 50 metros lineares apresentam figuras esculpidas. As gravuras seguem um padrão observado em outros sítios arqueológicos da região e lembram pegadas de pássaros, chamadas por arqueólogos de “tridígitos”. Segundo Astolfo Araujo, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e coordenador da escavação, o painel é o maior já encontrado em território paulista. Além das figuras, foram encontradas pedras lascadas, ossos de animais e carvão queimado no local.

Da USP, participaram professores do MAE, do Instituto de Biociências (IB) e da Escola Politécnica (Poli). A equipe explora a região desde 2014, em um projeto financiado pela Fapesp com o objetivo de estudar a ocupação Paleoíndia do Estado de São Paulo – povos que viveram no início do período geológico atual, o Holoceno. Em 2015, os pesquisadores localizaram o sítio arqueológico mais antigo do Estado, no município de Dourado, a menos de 20 km de Ribeirão Bonito. Batizado de Bastos, o lugar continha vestígios com mais de 12,5 mil anos de idade. Moradores locais indicaram, então, a localização do novo painel.

O Sudeste brasileiro é peça chave no entendimento dos movimentos populacionais no leste da América do Sul. E a diversidade de arte rupestre que tem sido encontrada pelos pesquisadores pode ajudar a revelar quem passou pelo região. “A impressão que a gente tem é que São Paulo era um ponto de encontro de populações vindas do norte, do leste, via Pantanal, e do sul, pelo Pampas”, diz o arqueólogo. De acordo com o pesquisador, acreditava-se que a região não possuía arte rupestre em abundância, e o painel de Ribeirão Bonito contribui para a contestação dessa crença.

Sítios para download

Os pesquisadores estão desenvolvendo modelos virtuais dos sítios encontrados em parceria com o Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas (CITI), ligado à Escola Politécnica (Poli) da USP. Marcelo Zuffo, professor do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Poli e coordenador do CITI, explica que no abrigo de Ribeirão Bonito foram usadas três técnicas de recolhimento de dados: o escaneamento a laser, o escaneamento via fotogrametria – dezenas de milhares de fotos feitas por drones – e a fotogrametria com câmeras de 360 graus.

Marcelo Zuffo diz que a criação de protótipos 3D tem uma série de vantagens. “As equipes interdisciplinares que trabalham com arqueologia podem analisar as informações sem as condições estressantes do trabalho em campo. E as restrições físicas e temporais também são eliminadas, já que os pesquisadores podem acessar, nos acervos da Universidade, sítios com até 500 km de distância da capital paulista”. Segundo Zuffo, o escaneamento intensivo pode eventualmente detectar padrões que o olho humano não consegue enxergar. Outra vantagem é que, se os sítios forem alvo de vandalismo ou interferências da natureza, há um modelo digital que preserva suas informações.

“O método usado pela equipe do professor Zuffo permite a reprodução 3D com precisão milimétrica, sendo possível preservar as gravuras para as gerações futuras, além de permitir a análise das mesmas por pesquisadores em qualquer parte do mundo. Basta, para isso, enviar os dados pela internet, e alguém poderá ‘fazer o download’ do sítio arqueológico e reproduzi-lo”, confirma Araujo.

O próximo passo da pesquisa, segundo Marcelo Zuffo, será a análise icônica das gravuras que têm sido encontradas no Estado de São Paulo, em parceria com a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Mais informações: e-mails astwolfo@usp.br e mkzuffo@usp.br

Fonte: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/pesquisadores-descobrem-maior-painel-de-arte-rupestre-de-sao-paulo/








Painel descoberto em Ribeirão Bonito tem 50 metros de gravuras rupestres  – Foto: Divulgação







Gravuras lembram pés de pássaros e são chamadas de “tridígitos” – Foto: Divulgação







Os pesquisadores descobriram o painel com ajuda de moradores locais – Foto: Divulgação







Modelo 3D do sítio Bastos, que tem a datação mais antiga do Estado de São Paulo – Foto: Divulgação

domingo, 21 de abril de 2019

Fotógrafa conta experiência de imersão na Catedral de Notre-Dame

Lisa Roos passou 15 dias registrando imagens do templo consumido pelo fogo na última segunda-feira. Fotos compuseram exposição apresentada em Porto Alegre em 2014.

Notre-Dame de Paris, 2013. Esse foi o título da minha exposição de fotos, ocorrida em 2014, após um convite do dramaturgo e diretor da Cia. de Teatro Novo, Ronald Radde (in memoriam), para participar do projeto O Corcunda de Notre-Dame, adaptação do texto de Victor Hugo, que ficou em cartaz no Teatro Novo DC no mesmo ano. Fui a Paris, junto a alguns integrantes da companhia, para fotografar e vivenciar a catedral, assim como outros locais da cidade relacionados, como a casa onde Hugo viveu.

Parecia um convite simples (além de espetacular, é claro). Mas a proposta era clicar Notre-Dame com os olhos do Quasímodo (o famoso Corcunda). Fiquei me perguntando como faria isso, colocar-me no lugar de um personagem que viveu dentro da catedral, escondido. O projeto consistia em produzir imagens para uma exposição a ser apresentada no foyer do teatro a partir da estreia da peça.

Passei 15 dias de novembro de 2013 vivenciando Notre-Dame. Era o ano em que a catedral comemorou 850 anos. Eu nunca havia ido a Europa, tampouco a Paris, e tinha apenas algumas imagens na cabeça sobre como era a catedral. Confesso que não quis fazer pesquisas prévias no Google, para ser surpreendida e não cair no olhar comum que os turistas costumam lançar sobre o local.

Quando cheguei, senti um misto de encanto com reflexão. É um lugar “forte”, com muita energia e muitas pessoas rezando, acendendo velas, fazendo pedidos. Só na fachada fiquei horas e horas admirando cada detalhe. Apenas as portas da entrada principal mereciam dias de observação. Já o interior é surpreendente. Escuro, amarelado. O teto é todo trabalhado, unindo-se a várias colunas, repletas de detalhes. Ao vislumbrar o teto, não há como não admirar os lustres, repletos de candelabros e velas, que acentuam a tonalidade amarelada. Ao descer a visão, deparo com os vitrais góticos e as rosáceas, emblemáticos de Notre-Dame. E lá se vão mais horas para observar, clicar e admirar.

Em meio aos cliques, pude ouvir o famoso órgão da catedral, um som surpreendente. Mexe na alma, dá medo mas me faz relembrar do Corcunda. Só ouvi uma vez – e lembro bem até hoje.

Percebi que não poderia clicar o altar tão próximo o quanto eu gostaria. Mesmo assim, acredito que ele me deu as imagens mais especiais do interior da catedral, pois pude perceber alguns detalhes da escultura da Pietà que, para muitos, passam desapercebidos.

Pude visitar alguns locais de Notre-Dame que menos pessoas visitam, que são os locais pagos. Nos acervos, por exemplo, presenciei peças incríveis! Vestimentas e instrumentos da Igreja Católica e de alguns papas, joias e tesouros inestimáveis da História, assim como a possibilidade de chegar pertinho de outros vitrais.

Mas a maior experiência à la Quasímodo foi quando subi nas torres. Pelas escadarias espirais de degraus apertados, pude conferir a paisagem de Paris através de pequenas janelas. A cidade é tão grande, mas ficava pequena vista dali. No alto das torres, os gárgulas me encaravam de cara feia. Mas eu sabia que eles estavam lá para proteger Notre-Dame, e, no fim, acabavam me protegendo também, pois o inusitado ocorreu: quando eu estava no alto das torres, com mochila, câmeras e lentes, um temporal chegou de repente, surpreendendo a cidade toda. Os turistas saíram correndo, e eu fiquei. Até conseguir juntar os materiais e guardá-los, não me restou melhor opção a não ser abrigar-me em um pequeno telhadinho de frente para um gárgula até que o resgate aparecesse. Aquele gárgula que me protegeu gerou um belo quadro para a exposição.
A fachada: imponência - Lisa Roos / Acervo Pessoal




O altar - Lisa Roos / Acervo Pessoal







A iluminação peculiar, escura, amarelada - Lisa Roos / Acervo Pessoal








Os gárgulas - Lisa Roos / Acervo Pessoal

Na tragédia da Notre-Dame, o Gótico venceu o fogo

As estruturas dos templos góticos para dar forma e sustentação à grande altura dos edifícios mostraram a sua tremenda consistência, avalia especialista em patrimônio histórico e artístico

Por José Francisco Alves
Doutor em História da Arte, especialista em patrimônio cultural

Catedrais do patrimônio cultural sob o fogo têm chocado a quase todos. Está virando frequente. Ainda em nossa memória consta viva a destruição do Museu Nacional, ocorrida há sete meses. E ainda presente para alguns porto-alegrenses estão as chamas que consumiram, em 6 de julho de 2013, parte considerável do Mercado Público – o mais importante patrimônio tombado da capital gaúcha. Enquanto o Museu Nacional desapareceu completamente (prédio, acervo), o nosso amado Mercado com suas bases de meados do século 19 sobreviveu bem ao incêndio: a parte afetada foi restaurada com recursos do extinto Ministério da Cultura, e, finalmente, neste mês alcançou a liberação da área atingida.

Agora foi Notre-Dame. A icônica nave medieval de pedra ardeu em Paris. Claro, o que vimos queimar nas cenas chocantes foi o intrincado madeirame de seu telhado, quase uma floresta inteira de carvalho e castanheira de 850 anos de idade. O fogo consumiu principalmente a cobertura de folhas de chumbo e a estreita e pontiaguda torre, a flecha (ou agulha). Esse incêndio na sede da Arquidiocese parisiense ocupa os noticiários e as sensibilidades do mundo inteiro desde a última segunda-feira. A história e as características desse monumento da humanidade têm sido amplamente difundidas, portanto, mais dados aqui seriam redundantes.

Mas, para resumir, Notre-Dame foi erguida sobre a primeira igreja cristã de Paris, Saint-Etienne (esta, por sua vez, construída sobre templos pagãos). A Catedral foi dedicada à Virgem Maria e a sua construção se iniciou no ano de 1163, tida como concluída em 1345, ou seja, 155 anos antes da chegada de Cabral ao Brasil. No século 19, o templo foi restaurado (recomposto em estruturas danificadas pelo tempo) e teve o projeto original transformado com acréscimos significativos, a exemplo da mencionada flecha, estátuas em bronze de santos e apóstolos, bem como novos gárgulas de pedra, intervenções estas sob projeto do arquiteto Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc (1814–1879), com participação de Jean Baptiste Lassus.

Considera-se que essa Catedral é o ponto turístico mais visitado da França. É uma comparação injusta, mas, enquanto Notre-Dame recebe de 13 milhões a 15 milhões de turistas anualmente (as estimativas oficiais e informais variam muito), o Brasil todo sonha em alcançar 7 milhões por ano. Bens simbólicos encerram em si uma potência tremenda, que vai além das paredes de pedra. Mas soma-se ao caso o imenso orgulho que os franceses têm de seu patrimônio cultural material e imaterial, ou seja, com a sua Cultura. Quem conhece um pouco a França e os franceses sabe que esse orgulho difere substancialmente de certos patriotismos dominantes.

E foi a Cultura que parou o fogo de Notre-Dame; mais especificamente, o Gótico.

O Gótico foi uma época da cultura ocidental na Idade Média. A partir dos templos católicos franceses, na arquitetura e na arte o Gótico produziu o seu estilo inconfundível. Suas catedrais foram projetadas com o objetivo de alcançar a Deus, mas de forma a mostrar que Ele está bastante acima dos fiéis. Como intermédio entre ambos, a Igreja Católica. As invenções estruturais dos templos góticos para dar forma e sustentação à grande altura dos edifícios mostraram nesse incêndio a sua tremenda consistência. A maioria das abóbadas, feitas de blocos de pedra (suportadas pelos icônicos contrafortes e arcobotantes), conseguiu aguentar o seu próprio peso, o imenso poder do calor, as toneladas de chumbo derretido e as toras incandescentes. Salvou-se, assim, um significativo acervo artístico e religioso do interior da Catedral. Algo que, vendo as imagens do incêndio, parecia impossível de acontecer.

E quem irá recuperar Notre-Dame será o orgulho francês, com muito dinheiro privado e público. É quase um masoquismo nosso, mas, ao vermos a reação da sociedade francesa, em especial a disputa de bilionários por quem dará mais dinheiro para o restauro (segundo o Le Monde, até uma bilionária brasileira já teria oferecido milhões de euros), bateu a lembrança de como foi a comoção de nossa elite endinheirada quando da tragédia cultural do Museu Nacional. Ou seja, nenhuma. Nada. Dinheiro algum dessa gente.

Como algo de nosso inconsciente, àquela altura nem sequer esperamos algo a respeito, pois “de onde menos se espera, é que não virá nada mesmo”. As cobranças, só ao governo. Ao incêndio cultural permanente do Brasil, portanto, nos falta um Gótico.
Incêndio consumiu um ícone da cultura ocidental na última segunda-feira