domingo, 4 de junho de 2017

Nos Passos de Dom Pedro I

A PARTIR DA CARTA ESCRITA PELO IMPERADOR À SUA MULHER, DONA LEOPOLDINA, E NA COMPANHIA DE DOIS PESQUISADORES, ZH REFAZ O ITINERÁRIO DA COMITIVA IMPERIAL PELO LITORAL NORTE, EM DEZEMBRO DE 1826. FOI A ÚNICA VISITA DE PEDRO AO RIO GRANDE DO SUL – E ESTÁ REPLETA DE MITOS

 A crise conjugal entre Dom Pedro I e Dona Leopoldina fez bem à História. O imperador, durante sua passagem pelo sul do Brasil rumo à Guerra da Cisplatina, em 1826, escreveu uma carta a sua mulher com a nítida preocupação de lhe dar satisfações. Leopoldina estava doente no Rio, delirando após um aborto ainda hoje controverso – seria resultante de uma suposta agressão do marido?
Graças a esse documento aparentemente motivado por uma desavença matrimonial, hoje podemos saber detalhes de seu périplo por localidades como as atuais Torres, Arroio do Sal e Santo Antônio da Patrulha. Quase dois séculos depois, Zero Hora refaz os passos iniciais do monarca em sua única visita ao Rio Grande do Sul – Pedro I veio tendo como destino final a cidade de Rio Grande, mas não participou da guerra em razão do estado de saúde da imperatriz, que morreria justamente quando ele estava por estas plagas.
A comitiva imperial foi de Florianópolis a Rio Grande, de barco, a pé ou a cavalo, em uma jornada de 37 dias. Na correspondência íntima, Pedro I detalhou o caminho pelo litoral norte gaúcho. É esse o percurso que ZH reproduziu, ao lado do jornalista e acadêmico de História Nelson Adams Filho, autor do livro A Viagem Maluca de Dom Pedro I pelo Sul do Brasil, e do historiador Rodrigo Trespach, que escreveu sobre a imigração alemã, o Litoral Norte e a II Guerra Mundial. Os dois pesquisadores amparam-se na carta, em outros documentos e na história oral para dar respostas e deixar perguntas no ar. Por exemplo: é inexato o período total em que Pedro esteve no Litoral Norte. Trespach faz algumas considerações, tentando dimensionar melhor o tempo e alinhá-lo ao espaço:
– Na vinda, ele ficou do dia 5 de dezembro (em Torres) ao dia 6 (em Santo Antônio da Patrulha). Chegou a Viamão no dia 7. O imperador voava no cavalo! Na volta, Dom Pedro estava em Tramandaí no dia 24 e em Torres no dia 25. Quanto tempo permaneceu em Torres? Sabe-se que, no dia 31, ele estava em Florianópolis. Talvez tenha ficado em Torres mais dois ou três dias.
O tempo e o espaço não são as únicas curiosidades, dúvidas e contestações dos pesquisadores.
– Sabemos que Dom Pedro I tinha grande apetite sexual. Costumava chamar mulheres na rua para satisfazer seus desejos. Quem garante que ele não deixou descendentes no nosso litoral? – especula Trespach, comentando o contexto que aparece como o pano de fundo histórico de Novo Mundo, a atual novela das seis da TV Globo, em que o imperador é interpretado pelo ator Caio Castro.
Com faro de jornalista que passou por diversas redações, como as de O Globo e Folha de S. Paulo, Nelson Adams Filho se deu conta da fragilidade do que vinha sendo contado a respeito da passagem por Torres e Santo Antônio da Patrulha, lugares onde o monarca teria pernoitado. Não há, segundo ele, “prova concreta e coerente das histórias narradas, que parecem uma compilação de fatos distintos e contraditórios, senão inverídicos”. Mas é a história oficial, a que ficou.
 5/12/1826, A CHEGADA
Qual a percepção do imperador ao chegar ao Estado? Eis suas próprias palavras: “Sempre areia e mar. Enquanto nos dias anteriores só avistávamos uma praia esbranquiçada que se confundia com o céu na linha do horizonte, hoje, ao menos, deparamos dois montes denominados Torres, porque realmente avançam mar adentro, como duas torres arredondadas”. No município gaúcho, a artista plástica Cibele Souto Amade pintou uma tela que busca retratar a cena.
Em A Viagem Maluca de Dom Pedro I pelo Sul do Brasil, Adams Filho escreve: “Às 5h e três quartos do dia 5 de dezembro, uma terça-feira, Dom Pedro montou a cavalo, deixou a barraca de sapé na Sesmaria dos Rodrigues, atual Passo de Torres (SC), e saiu do mato em direção à praia, onde chegou 15 minutos depois. Portanto, a referida barraca – que certamente era de serventia a pescadores – ficava perto da beira-mar. Às 6h30min, ele encontrou ‘um oficial do Batalhão de São Paulo que vinha com ofícios’, conforme descreve no itinerário. Era o tenente-coronel Francisco de Paula Soares Gusmão, comandante do Baluarte. Meia hora depois, a comitiva chegou às margens do Mampituba. Às 8h, Dom Pedro chegava ‘às Torres’, lavou-se, comeu e foi à ‘Estância do Pacheco’. ‘Ali dormimos’, relatou o imperador”.
No descampado de algo como 10 quilômetros, hoje pontilhado por alguns casebres de madeira, ninguém sabe de uma família Pacheco. Venderam a propriedade? O sobrenome mudou em razão de casamentos nos quais o nome do pai era outro?
Adams Filho conta:
– No livro Batizados e Casamentos da Paróquia de Domingos das Torres, de Marco Antônio Velho Pereira, existe o registro de número 113 que aponta o batizado de Joaquina, em 30 de maio de 1830. Os avós maternos são Manoel Pacheco e Maria Cardoso de Jesus, ambos procedentes de Laguna e pais de Ana Cardoso de Jesus.
A conclusão a que o pesquisador chega é de que Dom Pedro I pernoitou na propriedade de Manoel Pacheco dos Santos, morador da chamada Estância do Meio (atualmente em Arroio do Sal). Por isso, o imperador falava em “estância do Pacheco”, hoje uma vasta área em Arroio do Sal.
A história oficial conta que Dom Pedro foi recebido com pompa e circunstância em Torres e Santo Antônio da Patrulha. Teria sido disparada uma salva de 101 tiros de canhão quando do seu ingresso no Estado, em Torres, no ensolarado 5 de dezembro de 1826. Ali, teria visitado colonos alemães recém chegados. Depois, dormiu na casa do Alferes Manuel Ferreira Porto Filho. A casa ainda está lá, em Torres, como ponto turístico, que atrai curiosos, e é habitada por Maria Vitorino, uma senhora de idade que vive reclusa. Os dois pesquisadores refutam a tese dos tiros de canhão. Diz Adams Filho:
– Eram quatro os canhões. É de se supor que os tiros fossem divididos, cabendo 25 a cada canhão. Computado o tempo mínimo de quatro a cinco minutos entre o disparo e a recarga, são pelo menos duas horas disparando. Imagine o que isso representaria de barulho para a pacata Torres, com não mais de 1,2 mil almas.
COM OS ALEMÃES EM TORRES
Em seu livro O Lavrador e o Sapateiro (EdiPUCRS, 2013), Trespach apresenta a transcrição de uma carta (“inédita na historiografia brasileira”) do colono alemão Valentin Knopf, escrita em 1º de dezembro de 1827.
– Trata-­se da única carta encontrada até agora em que um imigrante alemão faz um relato a seus parentes na Alemanha sobre a colonização em Três Forquilhas, onde a leva de colonos protestantes (luteranos e calvinistas) havia sido assentada em 1º de agosto de 1827. A chegada a Torres ocorreu em 17 de novembro de 1826. Knopf faz relato pormenorizado da vida e da situação do Vale do Três Forquilhas. Em certa altura da carta, informa que, quando o imperador esteve de passagem por aqui, deu graciosamente a cada pai de família 4 mil réis.
A carta de Knopf talvez seja o único documento conhecido e público que ateste a visita do imperador. O “por aqui” de Knopf, de acordo com Trespach, “refere-se a Torres, pois o imperador, de fato, passou por ali em 5 de dezembro de 1826, quando os alemães ainda estavam aguardando a distribuição dos lotes”.
No relato de Dom Pedro à imperatriz, não há menções aos colonos alemães, que estavam por lá havia 18 dias. Mas as evidências indicam que, sim, o encontro seria plausível.
– A vinda dos imigrantes alemães ao Brasil,­ colonos e soldados mercenários, era um projeto coordenado pessoalmente pelo imperador. E a esposa, dona Leopoldina, era austríaca, de língua alemã como os colonos. Teria sido natural que Dom Pedro fosse ver pessoalmente os imigrantes, como havia feito muitas vezes quando da chegada dos navios de estrangeiros ao Rio de Janeiro. Por outro lado, uma testemunha ocular da História, o tenente-coronel Francisco de Paula Soares Gusmão, comandante do Presídio das Torres e Inspetor da Colônia Alemã, relata o encontro com o imperador e as salvas de canhão, mas não faz referência ao encontro com os alemães – diz o historiador. – É difícil acreditar que Paula Soares tenha deixado de mencionar um encontro com os colonos, que tinham vindo ao Brasil por meio de um projeto de Pedro. Nem mesmo o visconde de São Leopoldo, que se encontrou com o imperador em 25 de dezembro, relatou que Dom Pedro teria se encontrado com os colonos.
Os pesquisadores especulam, então, que o dito encontro com os colonos só pode ter ocorrido no retorno de Dom Pedro, no Natal de 1826.
– Na chegada, Dom Pedro teve pouco tempo para para visitar o arranchamento dos alemães,­ não mais do que quatro ou cinco horas,­ e ainda entregar dinheiro a cada uma das famílias, conforme descreveu o colono Knopf – diz Trespach.
De acordo com a carta do imperador, ele dormiu “numa barraca de sapê abandonada” junto ao Arroio Grande (que hoje não existe mais), em área do futuro município do Passo de Torres (SC) e que era, na época, a Sesmaria dos Rodrigues. Avistou Paula Soares­ e seguiu adiante para transpor o rio e chegar ao Baluarte Ipiranga, em Torres. Seu primeiro ato quando chegou foi se banhar e tomar café da manhã.
– Essa ação teria durado cerca de duas horas. O imperador estaria livre às 10h30min. Nada há relatado em sua carta, apenas que almoçou e às 14h15min montou a cavalo e se dirigiu à Estância do Pacheco, onde pernoitou. Com ele estavam, entre outros, o fiel companheiro Chalaça (conselheiro Francisco Gomes Pinto) e o Marquês do Alegrete – conta Trespach.
Era Chalaça quem fazia as vezes de alcoviteiro para o imperador. Se nesse intervalo entre 10h30min e 14h15min houve alguma urgência sexual a resolver, natural que não estivesse relatada na carta a Dona Leopoldina.
Trespach e Adams Filho também debruçam-se sobre uma passagem da carta em que o imperador diz que, ao chegar a Torres, “lavamo-nos”.
– Banho era coisa rara. Tomava-se semestralmente. Acreditava-se que a camada de gordura sobre a pele evitava doenças – conta o historiador. – Ele certamente estava com a farda toda suja. Estava cavalgando havia seis dias e dormira naquela noite numa cabana de sapê abandonada. Seria natural que passasse direto pelos colonos em direção ao Baluarte do Ipiranga, uma paragem mais adequada. E ainda havia pressa em chegar à capital e inteirar-­se sobre os acontecimentos da Guerra Cisplatina, motivo de sua viagem ao Sul.
A VISITA QUE PODE NÃO TER ACONTECIDO
Às 5h15min de quinta-feira, 6 de dezembro, Dom Pedro I e comitiva já cavalgavam à beira-mar depois de terem deixado a Estância do Pacheco. Foram duas horas e 45 minutos até o “Sítio do Ignacinho”, que, perto do mar, era uma pequena choupana próximo à Lagoa dos Quadros, hoje município de Capão da Canoa. A choupana era cuidada por um preto velho. Tudo pertencia a Santo Antônio da Patrulha, um dos quatro primeiros municípios gaúchos, com Rio Pardo, Viamão e Rio Grande.
Em Santo Antônio da Patrulha, Dom Pedro I teria sido recebido por grande comitiva e depois dormido nas casa do médico Marcos Cristino Fioravanti. À noite, diz o relato usualmente feito na cidade, serviram-lhe jantar, e ele bebeu água do chafariz, ficando preocupado com o abastecimento de água da cidade e autorizando a construção de uma fonte, hoje ponto histórico. A casa é sede do Museu Antropológico Caldas Júnior e guarda relíquias da passagem do imperador.
– Pedro I não passou pela cidade nem dormiu ali em sua viagem de ida até Porto Alegre. A passagem pode ter ocorrido, com um tempo exíguo,­ em seu retorno de Rio Grande a Torres – diz Trespach. – Boa parte das histórias que contam pode não ser verdade. O documento de próprio punho do imperador, endereçado à imperatriz, contradiz muito do que já foi contado sobre sua passagem pelo Litoral Norte.
Na carta a Dona Leopoldina, Dom Pedro diz que saiu de Tramandaí às 13h30min, chegando à Estância do Peixoto, nas proximidades de Santo Antônio da Patrulha, às 16h45min e ficando ali mesmo. No dia seguinte, às 5h30min, seguiu viagem até Porto Alegre. Nem mesmo uma suposta missa teria ocorrido naquele momento de passagem por Santo Antônio da Patrulha na ida até a atual capital gaúcha.
Ao contrário da Estância do Pacheco, a Estância do Peixoto, no território de Santo Antônio, é mais conhecida hoje. Na verdade, eram duas estâncias com esse nome, ambas distantes do núcleo urbano. A primeira mais a leste e junto à Lagoa dos Barros, a 20 quilômetros da barra do Tramandaí e pertencente a Francisco Silveira Peixoto, parte da família Peixoto com a qual o médico Fioravanti tinha parentesco. A outra, a oeste, ficava em um curral onde se guardava, vendia e separava gado utilizado pelos tropeiros.
A MORTE DA IMPERATRIZ
Com assinatura do imperador, a carta a Dona Leopoldina é datada de 8 de dezembro daquele ano e foi escrita em Porto Alegre. Dom Pedro se diz “esposo amante e saudoso” e relata a viagem à mulher. Quem descobriu a relíquia foi o historiador Fernando Lauck, que a mantém no Museu Imperial, em Petrópolis (RJ).
Dona Leopoldina morreu sem ler a carta. Pereceu em 11 de dezembro, depois de agonizar 10 dias. Dom Pedro estava em Porto Alegre e soube quase uma semana depois, no dia 17, em Rio Grande. Tratou de retornar. No dia 23, estava em Porto Alegre, e, dois dias depois, chegava novamente a Torres, para, a partir dali, voltar ao Rio de Janeiro.
– Nenhum documento pessoal até hoje foi encontrado sobre o itinerário de Dom Pedro entre Rio Grande e Torres. Alguns documentos da época afirmam que Pedro sequer retornou à Capital, seguindo diretamente até Santa Catarina, por terra, via Torres. Foi em Torres, dia 25 de dezembro, ao receber do Marquês de Quixeramobim as cartas da Corte, que Dom Pedro soube da situação delicada no Rio de Janeiro – diz Trespach.
E qual seria essa situação delicada?
– Corriam boatos de que a imperatriz teria sido envenenada por Domitila de Castro, a Marquesa de Santos e amante do imperador. A casa de Domitila tinha sido apedrejada e ameaçada de invasão. Pelas ruas, pessoas protestavam e choravam a morte da imperatriz – diz o historiador, sublinhando que dona Leopoldina, uma mulher culta e generosa, era muito benquista pela corte e pela população.
Dona Leopoldina sequer recebeu a carta do marido. Havia o estafeta encarregado, mas o tempo era curto, e, a 1,5 mil quilômetros, ela era acometida de alucinações desde o dia 6. Pouco dormia. Os médicos estavam atônitos. Esgotavam todos os recursos da é poca. Pelas ruas do Rio, dos escravos às autoridades, as pessoas rezavam. Gostavam da imperatriz, vista como uma estadista que defendera a independência brasileira. Em 7 de dezembro, Dom Pedro acordou cedo. Estava em Santo Antônio da Patrulha. Tinha ainda 80 quilômetros pela frente. Não sabia da precária saúde de sua mulher. Não havia telégrafos, e ele não tinha acesso a navios. Chegou a Viamão e cavalgou mais uma hora rumo a Porto Alegre, ainda tendo metade do seu trajeto pelo Sul até Rio Grande, palco da guerra. Em Porto Alegre, chegou às 19h15min. No dia seguinte, 8 de dezembro, escreveu a carta para a imperatriz, a mesma carta que hoje clareia os caminhos do tempo e elucida fatos históricos.
TEXTO
Léo Gerchmann
leo.gerchmann@zerohora.com.br
IMAGENS
Carlos Macedo
carlos.macedo@zerohora.com.br
EDIÇÃO
Ticiano Osório
ticiano.osorio@zerohora.com.br
DESIGN
Amanda Souza
amanda.souza@zerohora.com.br
Paola Gandolfo
paola.gandolfo@zerohora.com.br










O jornalista Nelson Adams Filho com a tela pintada por Cibele Souto Amade que imagina a chegada de Dom Pedro I a Torres










EM ARROIO DO SAL, O DESCAMPADO ONDE TERIA EXISTIDO A ESTÂNCIA DO PACHECO, LOCAL DE POUSO DE DOM PEDRO I APÓS A CHEGADA A TORRES
















PREOCUPADO COM O ABASTECIMENTO DE ÁGUA, O IMPERADOR AUTORIZOU CONSTRUIR A FONTE QUE VIROU PONTO TURÍSTICO DE SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA
















A CASA QUE PERTENCEU AO ALFERES MANUEL FERREIRA PORTO FILHO, ONDE, SEGUNDO A HISTÓRIA OFICIAL, O IMPERADOR DORMIU EM TORRES

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Prefeitura e Espaço Histórico resgatam marco de antiga civilização de Agudos

'Cruzeiro de Tupá' estava prestes a desabar, no antigo cemitério de São Domingos de Tupá, a localidade que desapareceu no século passado.


Um cruzeiro de madeira, considerado o último resquício da existência de São Domingos do Tupá, antiga civilização que despareceu no século XX, foi retirado no último dia 16 de maio por uma equipe do Espaço Histórico Plínio Machado Cardia, acompanhada pelo prefeito de Agudos, Altair Francisco Silva, pela primeira dama Elisângela Bianchi Silva e pela secretária de Planejamento e jornalista Bete Lucas.
A retirada da cruz e reportagem sobre o seu resgate foi realizada pelo jornalista Aurélio Alonso e aqui descrita. "Escorada em cipó, não houve dificuldade para que quatro homens removessem a enorme cruz que vai passar por restauração. Após esse trabalho minucioso, a prefeitura deverá decidir qual será a destinação. Não sobrou nada do que foi São Domingos do Tupá, a não ser restos do antigo cemitério".
No local ainda há restos de túmulos em meio a uma mata, circundada por canavial. "A cruz vai ficar sob cuidados do museu, onde será providenciada a restauração. O Conselho Municipal de Cultura e Turismo vai analisar qual será a destinação. O cruzeiro é um patrimônio cultural e histórico do município", explicou o prefeito.
De acordo com ele, foi o primeiro povoado dentro dos limites do município de Agudos e também importante para a formação de toda a região. "Há 200 anos já tínhamos uma população que ficou esquecida e agora está vindo à tona com essa história sendo resgatada", declarou o prefeito.
Altair contou que tomou conhecimento da história da localidade após uma reportagem publicada por um jornal da cidade. "Também pretendemos desenvolver um plano de turismo, onde será possível trazer alunos e professores para disseminar mais essa informação", declarou.
A diretora do Espaço Histórico Plínio Cardia, Marilena Cardia, explicou que o cruzeiro será restaurado. Após esse trabalho será repassado à prefeitura que vai dar a palavra final para saber com quem vai ficar a relíquia. "Se ficar comigo, vai para o museu", declarou. Atualmente, o Espaço Histórico já guarda uma estátua de São Benedito de terra-cota e um altar de madeira.
"Com a descoberta deste cruzeiro veio completar a história dessa localidade. É o fechamento da história de Tupá", ressaltou Marilena Cardia. O cruzeiro foi removido com facilidade, colocado em uma caminhonete e transportado até uma marcenaria de Agudos, onde passará por restauração completa.
A localidade teria sido em 1719, antigo retiro da Fazenda Jesuíta com ranchos para ponto de apoio dos bandeirantes.
Em 1852, São Domingos foi sede do 12º Quarteirão Eleitoral de Botucatu, o segundo maior da época, com 44 votantes.
A igreja do lugarejo em 1856 foi elevada à condição de paróquia. Pela Lei Provincial nº 27 de 1858 o lugar teve a condição de freguesia, sob o nome São Domingos.
Nos registros históricos constam que 1859 o local foi sede eleitoral, onde dispunha de oito quarteirões, com 178 eleitores qualificados.
O declínio começa a partir de 1873, quando ocorre a emancipação política e religiosa de Santa Cruz do Rio Pardo. O Decreto Estadual 9.775, de 30 de novembro de 1938, extinguiu a localidade e seu território integrado a Agudos.
 

Altair, Elisângela, Aurélio, Maria Helena, Bete e funcionários do Espaço Histórico (Foto: José Mauricio Garijo)










Cruz de madeira é um dos últimos resquícios de São Domingos de Tupá (Foto: José Mauricio Garijo)

Lendas de Fernando de Noronha podem virar Patrimônio Imaterial

“Dois gigantes viveram um romance proibido em Fernando de Noronha, por castigo os órgãos genitais do casal foram petrificados: o pênis do homem virou o Morro do Pico e os seios da mulher foram transformados no Morro Dois Irmãos (fotos)”. Essa é a Lenda do Pecado, uma das dez conhecidas na ilha, as lendas de Noronha podem virar transformadas em Patrimônio Imaterial, título outorgado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A defesa do projeto foi feita pela pesquisadora Marieta Borges, na sede do instituto no Recife, nessa segunda-feira (22).

“Caso as lendas sejam consideradas Patrimônio Imaterial, esta será a primeira vez no Brasil que o Iphan reconhecerá um conjunto de lendas com importância para uma localidade, que é a ilha”, falou Marieta Borges. A pesquisadora, responsável pelo resgate da história de Noronha há mais de 40 anos, já registrou as lendas em dois livros.

As lendas e os fatos pitorescos de Fernando de Noronha foram tema do enredo da Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro, no ano de 1995. Na época a apresentadora da Rede Globo Angélica encarnou a Alamoa, uma linda mulher loura que seduzia os homens em noites de lua cheia, fazia sexo e depois matava o parceiro. O resgate dessas histórias foi relatado no encontro com  os técnicos do Iphan,  a superintende regional do instituto, Renata Borba, e a representante do Ministério da Cultura no Nordeste, Maria do Céu.

“Eu já havia feito um pedido para que as lendas fossem consideradas Patrimônio Imaterial, mas o processo não andou.  Agora a representante do Minc, Maria do Céu, resolveu encampar o projeto e organizou a reunião”, contou Marieta Borges. “Esse é um projeto importante, a reunião foi muito produtiva, a Administração da Ilha vai dar as informações e nós vamos encaminhar o processo”, disse Maria do Céu.

Palestra
Nesta terça-feira (23), a historiadora Marieta Borges dá início a uma série de palestras para os profissionais da Administração de Fernando de Noronha, no Recife. A ideia  é capacitar os profissionais com informações históricas. Nos eventos serãos sorteados livros “Fernando de Noronha – Cinco Séculos de História”, da autoria de Marieta.


 





















A historiadora Marieta Borges defendeu o projeto (Foto: Divulgação)


























Angélica no desfile em 1995 (Foto: reprodução livro Fernando de Noronha – Cinco Séculos de História)

domingo, 30 de abril de 2017

Casario de Pesqueira (PE) é Indicado a Tombamento

Processo de tombamento foi aberto por solicitação do Instituto Histórico e Geográfico de Pesqueira.

Ícone da arquitetura de Pesqueira, município do Agreste pernambucano localizado a 215 quilômetros da Capital, o casario da rua Cardeal Arcoverde, no centro da cidade, teve o pedido de tombamento aprovado, na manhã de quinta-feira (27), pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC). O parecer se refere aos imóveis de número 23, 39, 49, 57, 65 e 71 do logradouro.
O local foi o primeiro arruamento do município, ainda por volta de 1800, e possui um importante papel em sua estrutura urbana. Apesar do progresso, o lugar manteve fortes traços de seus aspectos originais de arquitetura neoclássica brasileira: casarios com platibandas corridas e decoradas; fachadas marcadas por janelas (em arcos abatidos, arcos plenos, arcos ogivais) e coberturas de duas águas em telha canal, além de calçadas altas.
O processo de tombamento foi aberto por solicitação do Instituto Histórico e Geográfico de Pesqueira, assinado pelo presidente José Florêncio Neto, e deferido pelo então secretário de Turismo, Cultura e Esportes, Francisco Bandeira de Mello.
Os membros do CEPPC acataram o pedido por maioria dos votos e solicitaram que a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) apresente, em até dez dias, o parecer de tombamento dos imóveis. Em seguida, o processo retorna à Secretaria de Cultura estadual, que o encaminha para o governador do Estado, responsável pela publicação do decreto de tombamento. Depois de publicado, o decreto é despachado ao CEPPC, que inscreve os imóveis no seu livro de tombo.
Fonte original da notícia: Folha de Pernambuco
Imóveis estão localizados na rua Cardeal Arcoverde, no centro. Foto: Marcos Prado/Cortesia

sábado, 22 de abril de 2017

Oito prédios de Porto Alegre que você não pode deixar de conhecer

Eles estão no "Guia de Arquitetura", proposta de passeio por várias épocas.

Por Jéssica Rebeca Weber

O estilo moderno, com materiais aparentes, e a adaptação ao Morro Santa Tereza garantiram ao Condomínio Encosta do Poente um espaço no Guia de Arquitetura de Porto Alegre. Além do edifício em formato de escada, a publicação lançada pelos arquitetos Vlademir Roman e Rodrigo Poltosi no final de março inclui diversos prédios simbólicos para a Capital. As páginas do guia propõem um passeio pelos diferentes períodos da arquitetura da cidade.
— No cotidiano, as pessoas passam na frente de um prédio várias vezes e não o valorizam. Muito porque nem conhecem aquela história — observa Poltosi.
No livro, cem construções recebem uma análise breve de suas características e histórico. A ideia é atender não só a profissionais de arquitetura, mas turistas — por isso, está escrito em português, inglês e espanhol — e moradores da cidade. O retrato que sai mostra os mais diferentes estilos. Foi difícil limitar a uma centena, contam os autores, que partiram de 200 obras. Roman observa que o eclético, que predominou entre o final do século 19 e começo do século 20, é o que mais foi preservado. Prédios ricos em ornamentação como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), o Paço Municipal e o Palácio Piratini possuem características desse estilo.
Já os prédios do período colonial e imperial são mais raros de encontrar. Presidente do departamento do Rio Grande do Sul do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), Rafael Passos destaca:
— A gente não teve um bom começo na preservação do nosso patrimônio. O centro de Porto Alegre foi totalmente descaracterizado.
Passos defende a importância de um trabalho de educação da sociedade, pois muitos moradores não reconhecem o valor histórico e arquitetônico do imóvel que possuem.
— Ainda há aquele entendimento de que, como não tem 400 anos, não precisamos preservar. Mas as pessoas se esquecem que precisa passar pelos 40, 50, 100 anos para poder chegar aos 400 — destaca.





Foto: Montagem sobre fotos de Mateus Bruxel


















Anos 1820 - Um dos poucos prédios da arquitetura luso-brasileira que resistiram sem grandes alterações na cidade. O sobrado colonial foi construído nos anos 1820 e, a partir dos anos 1830, foi dividido e ocupado por várias famílias. Entre as características estão a incidência de beiral (última fileira de telhas que forma a aba do telhado), as janelas em verga de arco abatido (como um meio arco achatado) e, nas quinas do prédio, cunhais marcados. Atualmente, é sede do Porto Alegre em Cena.
Anos 1880 - Com mais de 12 mil m² de área e inaugurado em 1884, é distribuído em seis pavilhões ligados por um eixo de circulação. Tem um rígido padrão clássico, e, na avaliação dos autores do Guia, usa a arquitetura como forma de impor a razão sobre a loucura. É caracterizado pelos arcos plenos no térreo e basculantes, que permitiam a passagem de ar e luz, mas impediam a fuga dos pacientes.
Início Séc. 20 - O conjunto de 17 casas em fita, grudadas umas nas outras, é um testemunho das habitações populares típicas do início do século passado, em uma área que tinha constante ameaça de enchente antes da retificação do Arroio Dilúvio. São decoradas por um friso contínuo que reforça o sentido de conjunto na composição. Os imóveis ainda servem de residência e também abrigam atividades comerciais.
Anos 1900 - O Instituto Astronômico e Meteorológico inovou com elementos do art nouveau, inspirado por formas e estruturas naturais. Tem elementos fitomórficos, com características semelhantes às dos vegetais, e a estátua de Urânia, a musa da Astronomia. Ainda tem representadas, em alto relevo, as constelações do zodíaco e os símbolos dos oito planetas. Atualmente sedia o Observatório da UFRGS. Foi inaugurado em 1908.
Anos 1910 - Um exemplar do estilo eclético é o prédio encomendado em 1910 pela Cervejaria Bopp, onde hoje fica o Shopping Total. Possui fachada rica em elementos decorativos. Tem colunas de garrafas, figuras bávaras com canecas e esculturas que vão de um elefante à imagem do lendário Gambrinus, patrono não-oficial da cerveja.
Anos 1940 - O edifício de aspecto monumental foi construído entre 1944 e 1950 para a antiga rede de lojas e departamentos Mesbla. Tem composição clássica e características da Escola de Chicago, como o tijolo à vista. A esquina é o que mais chama atenção, com arredondamento negativo do corpo do prédio e base com esquina curva. Atualmente, o prédio é usado pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul.
Anos 1950 - É um marco do movimento moderno no Rio Grande do Sul. O térreo possui uma malha regular de pilares. Possui um grande plano de vidro e brises metálicos no corpo da edificação, sendo que as outras fachadas são cegas. Na parede voltada à Praça da Matriz, há uma escultura em bronze da deusa Têmis, guardiã dos juramentos dos homens e da lei. O projeto é de 1953.
Anos 2000 - Construída em um pequeno terreno, essa casa apresenta referências da arquitetura moderna brasileira e indica também relação com a arquitetura contemporânea europeia. A estrutura de concreto é utilizada como planos que se desdobram, de forma com que não dê para distinguir elementos estruturais, como colunas e vigas, e tem ainda acabamentos metálicos. O projeto é de 2004.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Será reinaugurada a Igreja São Domingos de Torres, a segunda mais antiga no Litoral do Estado

A Igreja São Domingos de Torres, bem tombado pelo patrimônio histórico e precioso elemento da memória histórica e religiosa do Rio Grande do Sul, passou por um importante processo de restauro. Após sete anos de obras, a Igreja será entregue à comunidade do município do Litoral Norte gaúcho.
A reinauguração está agendada pra o dia 8 de abril de 2017, às 10h30min, na rua Padre Lamonaco, nº 2, Morro do Farol. E às 15h30min serão realizadas as palestras “Igreja São Domingos de Torres – a viabilização do projeto de restauração através das leis de incentivo à Cultura”, ministrada pelos gestores culturais Lucia Silber e Manuel Dias, da Lahtu Sensu Administração Cultural e “Primórdios da Capela e Matriz de São Domingos das Torres – 1815 – 1856” com o jornalista Nelson Adams Filho, Coordenador do Centro de Estudos da História de Torres e Região, e demais membros da entidade.
Marco
A edificação da Capela de São Domingos, iniciada em 1820 e inaugurada em 24 de outubro de 1824, constitui-se na primeira igreja construída no trecho litorâneo entre Laguna (SC) e Osório (RS), sendo a segunda mais antiga no litoral do Estado. Localizada no Morro do Farol, é o marco inicial do núcleo urbano de Torres, pois foi a partir da igreja que a cidade se desenvolveu.
Erguida por prisioneiros de guerra, guarani-cristãos castelhanos, a edificação é representativa da arquitetura luso-brasileira com trato barroco. O prédio e sua decoração interna têm um estilo eclético, com alguns traços neoclássicos e mesmo neogóticos. Sua única torre foi erguida em 1898 pelo Padre José Lamônaco.
Encontram-se, em sua lateral direita, as fundações da segunda torre, que não foi concluída. Junto à igreja, está localizada a Casa n°1, que recebeu o Imperador D.Pedro I em sua passagem pelo local.
Em 1983, a Igreja Matriz de São Domingos, passou a integrar o patrimônio cultural do Estado, através da Portaria de Tombamento n°5/83.
Restauro
Em 2004, foi elaborado o projeto arquitetônico de restauro, assinado pelo arquiteto Edegar Bittencourt da Luz. Em dezembro de 2010, o projeto foi aprovado junto ao Pronac e, em abril de 2011, junto à LIC-RS. Desde então, uma equipe multidisciplinar liderada pelo Bispo Dom Jaime Kohl, da Mitra de Osório, que investiu os recursos necessários para a elaboração dos projetos, tem se empenhado incansavelmente na captação dos valores que vêm viabilizando as obras.
Estas iniciaram em 2010, com recursos do Fundo Nacional de Cultura R$ 300.000,00 e contrapartida da Prefeitura Municipal de Torres (R$75.613,50) e Mitra Diocesana de Osório (R$ 59.559,98).
Seguindo, em 2013, com o financiamento do Governo do Estado do Rio Grande do Sul por meio da lei de incentivo à cultura estadual, R$ 1.015.909,72, e do Governo Federal por meio da lei de incentivo à cultura nacional, R$ 819.450,55, patrocinados pelas empresas Tramontina (patrocinadora máster), Gerdau, CEEE, Banrisul, Randon, Casa Perini, Malharia Anselmi, entre outras.
O projeto tem execução da Arquium Construções e Restauro e gestão administrativa da Lahtu Sensu Administração Cultural. O custo total do projeto foi R$ 2.270.533,75.
Em 2008, a igreja foi interditada para o uso e visitação. Quando foi iniciada a restauração em 2010, o estado físico estava comprometido por infiltrações nas paredes e a torre e a fachada estavam num avançado grau de erosão pluvial e eólica.
Foram mantidos sua estrutura e estilo original. A equipe procedeu a colocação de reboco transpirável em cal e areia, além da requalificação dos elementos de vedação em esquadrias de madeira, restauradas ou novas. Além disso, a estrutura de forros e pisos foram substituídos por madeira de alta densidade.
Também foram restaurados os bens integrados (imagens de santos em madeira e mobiliário) além da pavimentação do adro e dos blocos de arenito em cantaria, com a pintura a base de cal. A etapa final da obra consistiu na dotação de infraestrutura de instalações hidráulicas, elétricas e proteção a incêndio e segurança, bem como na implantação do sistema de drenagem e escoamento das águas pluviais e de acessibilidade.
Dom Jaime comenta sobre a importância da preservação deste importante monumento histórico. “A revitalização da Igreja São Domingos vai restituir à comunidade do município e do Estado este valioso imóvel, referência da arquitetura neo-colonial brasileira. A comunidade torrense poderá voltar a frequentá-la para suas celebrações, e a visitação dos turistas será retomada.”







Após sete anos de obras, a Igreja será entregue à comunidade neste sábado (Foto: Divulgação)







A edificação da Capela de São Domingos foi iniciada em 1820 e inaugurada em 24 de outubro de 1824 (Foto: Divulgação)












(Foto: Divulgação)

sábado, 1 de abril de 2017

Enquanto Olímpico agoniza, vizinhança convive com abandono e sensação de insegurança

Assistindo ao Olímpico Monumental agonizar, a região que o abrigou e cresceu com o Grêmio também sofre. Desocupado há pouco mais de dois anos, o estádio parcialmente demolido colabora para a sensação de insegurança no limite dos bairros Azenha, Medianeira e Menino Deus. E deixa um sentimento de abandono, tanto em gremistas como em colorados.
— O Grêmio era a mola propulsora para o comércio, o entretenimento e até a autoestima no local. Era o coração do bairro — diz o professor Marcelo Xavier, 46 anos, vizinho do estádio desde que nasceu.
Sem jogos ou perspectivas para o começo de alguma obra no local há quatro anos, parte dos negócios — como o Bar Preliminar, tradicional ponto de encontro de torcedores — fechou as portas na região.
O funcionário público federal Mauro Ribeiro de Souza, 59 anos, avalia que o estádio alimentava o comércio e "dava vida ao bairro". Agora, com as ruas mais vazias, as placas de "vende-se" se multiplicam por residências e imóveis comerciais. E é difícil encontrar um vizinho que não se queixe de aumento da criminalidade.
— A gente sempre gostou de morar aqui — conta a dona de casa Carmen Regina Feijó, 60 anos, que colocou à venda a casa em que mora desde os cinco anos, na Rua José de Alencar. — Mas agora não tem mais segurança, (a região) ficou deserta. E a gente já tem uma certa idade.
Carmen costumava tomar chimarrão nas praças da rua, junto à rótula da Avenida Erico Verissimo. Pela insegurança e pela falta de cuidado, nunca mais se animou em frequentá-las. Na calçada da Praça Cid Pinheiro Cabral, a aposentada Vera Lucia Seben, 60 anos, atesta:
— Ninguém em sã consciência vem aqui.
Vera salienta que, antes, as áreas públicas tinham mais manutenção e capina. Ela também chama a atenção para a quantidade de moradores de rua e de usuários de drogas ao redor do "falecido" Olímpico.
— Tem lugares que tu nem te dá conta de que são praças, mas vê que tem pessoas "depositadas" lá — lamenta.
O lixo e a grama alta também saltam aos olhos. A respeito das áreas públicas, o secretário de Serviços Urbanos de Porto Alegre, Ramiro Rosário, lembra que o serviço de capina havia sido interrompido no começo do ano, mas que a empresa contratada emergencialmente está trabalhando para vencer os espaços que ainda não foram contemplados. Ele também admite que há uma dificuldade maior de manter limpas praças onde há muitos moradores de rua.
Em fevereiro, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) vistoriou a área do estádio e notificou o Grêmio pela quantidade de lixo exposto no terreno. Ainda de acordo com Rosário, o clube atendeu à solicitação e realizou a capina e serviço de limpeza na área de propriedade do clube.
Quem não fechou, está no vermelho
As cores da bandeira gremista seguem na fachada estreita e antiga do prédio na Avenida Carlos Barbosa, com o nome do estabelecimento: Restaurante Manjeronas. Mas, assim como o Olímpico, o negócio — situado no lado oposto da via — fechou, e o prédio sofre com o tempo e o vandalismo. O proprietário do imóvel, José Carlos da Silva, 70 anos, conta que o locatário entregou as chaves depois que o Grêmio foi para a Arena, na Zona Norte. O local está há um ano à venda — José não está conseguindo o valor que pede pela área.
O Preliminar também fechou as portas, na esquina da Avenida José de Alencar com a Rua Dona Cecília. O bar que durante mais de 10 anos dedicou finais de semana ao Grêmio tentou sobreviver no bairro — inclusive, foi transformado em minimercado na reta final. Mas as chaves foram devolvidas há um ano para a proprietária do imóvel. Ela está financiando uma reforma, na torcida para que, ajeitando o local, apareça alguém querendo alugar.
Diferentemente dos negócios que debandaram com a saída do Grêmio, um restaurante que foi aberto na Carlos Barbosa motivado pela promessa da construção de um grande empreendimento na área do Olímpico. A proprietária, que não quis se identificar, conta que o estabelecimento foi arrombado três vezes no último ano. Com a esperança de que as obras saiam do papel, ela permanece no local.
— Mas não tem perspectiva nenhuma. A sensação é de impotência total — relata. 




















Fotos: Anderson Fetter / Agencia RBS