sexta-feira, 30 de março de 2018

CONPRESP tomba várias obras modernas paulistanas

Com informações do Núcleo Docomomo SP

Fotos Helio Herbst (Residência Oscar Americano, projeto Oswaldo Arthur Bratke)

Na reunião do CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) , em 12/03/2018, foram tombadas várias obras da arquitetura moderna paulistana. Professores/as e pesquisadores/as mobilizaram-em apoio ao tombamento, sendo incluída uma carta elaborada pelo professor José Lira na ata da reunião, reproduzida no final deste texto.

Bem tombados:

Gregori Warchavchik
Edifício Mina Klabin Warchavchik
Conjunto de casas econômicas na Barão de Jaguara
Salão de Festas do Clube Pinheiros

Rino Levi
Laboratório Paulista de Biologia
Conjunto Hospitalar A.C.Camargo
Edifício Porchat
Edifício Trussardi

Convenio Escolar
Escola Estadual Pandiá Calógeras, Mooca
Escola Estadual Brasílio Machado, Vila Mariana
Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Helen Keller
Biblioteca Roberto Santos, Ipiranga
Biblioteca Adelpho Figueiredo, Canindé

Rodrigo Lefèvre 
Casa Pery Campos
Casa Dino Zammataro

Oswaldo Bratke
Fundação Oscar e Maria Luisa Americano
Edificio Lineu Gomes

+ Conjunto de 31 edifícios modernos (no bairro de Perdizes)

Casos muito importantes, como obras de Vilanova Artigas, Hans Broos, Paulo Mendes da Rocha, e conjuntos como o Parque das Fontes do Ipiranga e a Cidade Universitária da USP, tiveram seu exame adiado para outra reunião (a ser realizada em 19/03/2018). Parte do conjunto de edifícios modernos propostos para tombamento não foi incluído.

Segue portanto necessário continuar atuando em prol da efetiva preservação desse patrimônio moderno.

Carta elaborada pelo professor José Lira

Ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP
Ilmo. Sr. Cyro Laurenza
Presidente do CONPRESP

São Paulo, 8 de março de 2018

Prezados(as) Senhores(as),

É com profundo interesse que a comunidade arquitetônica e patrimonial de São Paulo vem acompanhando os processos de tombamento e preservação de bens arquitetônicos modernos construídos na cidade entre os anos 1920 e 1970. Afinal, além da excepcional qualidade artística de um bom número deles, em conjunto evocam um momento crucial de afirmação física, social e cultural da metrópole. A força desta arquitetura na configuração da nova ecologia metropolitana é proporcional a seu peso nos processos contemporâneos de expansão e adensamento da malha urbana, verticalização das áreas mais centrais, ascensão de novos padrões residenciais e instalação em toda parte de espaços modernos de trabalho, consumo, lazer, esportes, cultura, educação e saúde.

É verdade que muitos dos marcos arquitetônicos desse processo se perderam nas últimas décadas, substituídos por uma quarta ou quinta camada de urbanização autofágica, ou abandonados à ação da matéria e aos constrangimentos provocados pela marcha inexorável da urbanização, por obras viárias inflexíveis, projetos imobiliários imediatistas e intervenções no mínimo desastradas. De qualquer modo, como em toda grande cidade que se pretenda um polo de civilidade no planeta, aqui e ali, também em São Paulo, alguns deles resistem. Se bem salvaguardados, haverão de afirmar-se como marcos fundamentais de orientação dos cidadãos no espaço e no tempo, de preservação de uma escala humana na megalópole, de coesão social em torno de um sistema cultural urbano comum, essa espécie de acervo vivo de estruturas e figuras nas palavras de Giulio Carlo Argan, capaz de fornecer balizas seguras ao conhecimento e ao desenvolvimento das cidades.

Com a iniciativa de tombamento, oferece-se assim uma resposta consistente com os esforços historiográficos das duas últimas décadas no sentido do conhecimento, valorização e ampliação do corpus de obras de arquitetura moderna paulista, e ao mesmo tempo uma contribuição para a qualificação do ambiente construído local. Trata-se, portanto, de uma iniciativa fortemente enraizada na mais atualizada pesquisa científica, com benefícios inestimáveis para o público em geral, crescentemente interessado pelo patrimônio edificado – vide o sucesso de exposições, publicações e jornadas a seu respeito – assim como para as futuras gerações de habitantes e visitantes da cidade. Preservar esses bens não só salvaguarda a memória de grupos sociais os mais diversos, como garante a densidade histórica, cultural e ambiental necessária para o futuro de uma cidade do porte de São Paulo.

A relevância e a complexidade do acervo em exame é tal que qualquer decisão a respeito de sua preservação deverá se valer das análises qualitativas e dos cuidadosos estudos técnico-patrimoniais que vem notabilizando o Departamento de Patrimônio Histórico desta Secretaria Municipal de Cultura já há mais de três décadas. Neste sentido, é que vimos perante este Conselho Municipal solicitar atenção ao valor patrimonial deste Conjunto de Arquitetura Moderna reunido nos vários processos sob seu zelo, no sentido de sua efetiva preservação pelos meios legais.

Atenciosamente,

Carlos Alberto Cerqueira Lemos (Professor Titular da FAU-USP, Diretor técnico do Condephaat, 1968-1981, Ex-Conselheiro do Condephaat, do Iphan e do Conpresp)

Benedito Lima de Toledo (Professor Titular da FAU-USP, Ex-Conselheiro do Condephaat)

Monica Camargo Junqueira (Professora Associada da FAU-USP, Ex-Conselheira do Conpresp)

Joana Mello de Carvalho e Silva (Professora Doutora da FAU-USP)

José Tavares Correia de Lira (Professor Titular da FAU-USP)

Ana Lúcia Duarte Lanna (Professora Titular da FAU-USP, Ex-Presidente do Condephaat)

Beatriz Mugayar Kuhl (Professora Titular da FAU-USP, Ex-Conselheira do Condephaat)

Cristina Meneguello (Professora Associada IFCH-Unicamp, Conselheira do Condephaat)

Maria Lucia Bressan Pinheiro (Professora Associada FAU-USP, Ex-Conselheira do Condephaat)

Flavia Brito do Nascimento (Professora Doutora da FAU-USP, Conselheira do Condephaat)

Hugo Massaki Segawa (Professor Titular da FAU-USP)

Ruth Verde Zein (Professora Doutora da FAU-Mackenzie)

Luis Recamán Barros (Professor Doutor da FAU-USP)

Silvana Barbosa Rubino (Professora Associada IFCH-Unicamp, Ex-Conselheira do Condephaat)

Guilherme Teixeira Wisnik (Professor Doutor FAU-USP)

Ana Paula Koury (Professora Doutora da FAU-São Judas)

Renato Sobral Anelli (Professor Titular do IAU-USP)

Andrea de Oliveira Tourinho (Professora Doutora da FAU-São Judas)

Fernando Vásquez (Professor Doutor da FAU-São Judas, Coordenador Docomomo-SP)

Helena Ayoub (Professora Doutora da FAU-USP)

Miguel Buzzar (Professor Associado e Diretor do IAU-USP)

Luis Antonio Jorge (Professor Associado da FAU-USP)

Sabrina Fontenele (Professora colaboradora do IFCH-Unicamp)

Paulo Cezar Garcez Marins (Prof. Doutor Museu Paulista da USP, Conselheiro do Condephaat)

Cecília Rodrigues dos Santos (Profa. Doutora da FAU-Mackenzie, Superintendente Iphan-SP)

Carlos Alberto Ferreira Martins (Professor Titular do IAU-USP, Ex-Presidente da ANPARQ)

Ana Lucia Ceravolo (Professora Doutora, Ex-Presidente da Fundação Pró-Memória de São Carlos)

Sarah Feldman (Professora Associada Senior IAU-USP, Conselheira do Condephaat)

Nadia Somekh (Professora Titular da FAU-Mackenzie, Ex-Diretora do DPH-SP)


























Edifício Mina Klabin Warchavchik, 1939 - Foto: Zanella e Moscardi (Acervo Biblioteca FAU-USP).

quinta-feira, 15 de março de 2018

Cobogós e azulejos: designer mapeia afetivamente a arquitetura de Olinda

No Centro Histórico de Olinda (PE), a arquitetura furta formas e cores da natureza: os furos dos cobogós nas varandas lembram folhas leves e frutos redondos; os portões de gradil espiralam com um quê de galho retorcido de flor. Há também cor de terra e de céu no chão: quintais, cozinhas e salas de casas coloniais são ladrilhadas em marrom e azul.
Essa arquitetura habita as veias da designer gráfica Renata Paes. Natural da orla de Olinda, a jovem cresceu de olhos atentos para a memória gráfica que se arvorava nas casas e ruas de sua infância. O pai Antenor, arquiteto preservacionista, costumava levá-la pela mão em longas andanças, apontando os pungentes detalhes arquitetônicos da cidade alta olindense, cujo centro histórico foi tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1968 e reconhecido como Patrimônio Mundial Cultural pela UNESCO, em 1982.
“Cresci ouvindo histórias do meu pai sobre ladrilhos e gradis, e o quão importante era a preservação da arquitetura local. Quando tive que escolher meu trabalho de conclusão de curso, percebi quanto essa memória gráfica permeava minha infância, então decidi enfrentar esses artefatos danados!”, Renata relata com humor.
Esse “enfrentamento” resultou em um mapa afetivo de suas memórias arquitetônicas entrelaçadas com as da cidade pernambucana. Em 2017, ela concluiu seu curso de Design na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) lançando o catálogo Memória Gráfica da Arquitetura de Olinda, registro fotográfico sensível de alguns artefatos componentes da identidade da região.

Andanças à deriva: Como começa o catálogo

Ao debruçar-se sobre a memória gráfica de Olinda, Renata fez o que seu pai ensinou tão bem: perambulou pela cidade. A primeira parte do mapeamento consistiu na deriva pelas ruas onde foi criança e adolescente, seguindo trajetos não diferentes dos que fazem parte de seu cotidiano habitual: “Repeti vivências, como os caminhos que me levam até a casa de uma amiga, um mercado ou um bar”.
Durante os trajetos, Renata fazia registros fotográficos dos elementos que mais lhe chamavam atenção. Além dos objetos arquitetônicos que estava acostumada a ver, como os azulejos ou cobogós, também fotografou elementos de fachada das casas – que vão desde edifícios coloniais até obras neoclássicas – como também as recentes intervenções de grafites e pichações que colorem a cidade.
Olhando as mais de duzentas fotografias tiradas nas 15 ruas mapeadas, Renata percebeu nelas um denominador comum de design: as expressões gráficas modulares. A designer explica: “Módulos são elementos arquitetônicos que se repetem em painéis, mas também podem funcionar de modo isolado, como os azulejos”.
Ela elegeu então quatro artefatos para mapear: Os cobogós, azulejos, gradis e ladrilhos hidráulicos:
Cobogó
“Elemento genuinamente pernambucano, seu nome é acrônimo de seus três criadores: CO-imbra, BO-eckmann e GO-és. Ele é inspirado no muxarabi, um elemento árabe de madeira. Sua função é trazer ventilação e luz para dentro da casa, preservando sua privacidade. A maioria dos cobogós que documentei estavam nos muros.”
Gradil
“O gradil surge como elemento de proteção bem parecido com o cobogó, permitindo a entrada de vento e luz solar. Tem dois tipos de gradis: o mais orgânico e sinuoso, encontrado principalmente nas construções antigas, e as grades geométricas, visto nas construções mais recentes e afastadas do centro da cidade.”
Azulejo
“Trazido por navios portugueses nas épocas coloniais, os azulejos protegem a fachada e refletem o calor. Os desenhos tem influência portuguesa e francesa, a maioria com temas florais ou orgânicos. O azul e branco são as cores predominantes, logo em seguida o amarelo.”
Ladrilho Hidráulico
“Considerado um piso de baixo impacto ambiental, o ladrilho hidráulico é curado em água, pulando a etapa do fogo. Ele é feito à base de materiais naturais, sendo colocado numa prensa e depois imerso na água durante 24 horas. Ele serve como substituto ao mármore e ao revestimento queimado e ao taco.”

Fofocas boas e portões abertos: conhecendo os moradores de Olinda

Se a primeira parte do mapeamento ficou concentrada nas andanças ao léu e nos registros fotográficos, a segunda se construiu a partir da abertura de portões das casas em que mapeou os quatro elementos modulares. “Começou uma fofoca danada”, conta Renata, recordando o momento. “Eu entrava na casa de uma pessoa, ela me indicava seu vizinho que possuía tal ladrilho, que depois me mandava para outro canto atrás de um cobogó. Fui pulando pela cidade de casa em casa, mostrando as fotos e ouvindo falas como: ‘Ah, minha mãe tinha uma casa assim!’ ou ‘O quintal da minha avó possuía ladrilhos desse jeito!’”.
A pesquisa calcada em afeto, café no sofá e desenvolvimento de relações entre o design e as pessoas gerou uma cartografia maleável, que foge à rigidez acadêmica convencional. “Recorri aos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guatarri para montar uma cartografia afetiva. Nela, o pesquisador e o entorno se relacionam intimamente, e todas as pessoas encontradas, desde a moradora da casa até a vendedora de pipoca no centro, são produtoras de um conhecimento precioso.”

Catalogar para preservar o patrimônio

A aproximação com os moradores donos desses objetos arquitetônicos revelou o afeto que há entre os habitantes e os patrimônios, passíveis de despertar muitas lembranças, inclusive daquilo que já foi perdido. Havia casas, por exemplo, onde os ladrilhos hidráulicos eram encontrados no corredor e nos quartos, mas não mais na cozinha, tomada pela cerâmica. Embora resguardado como sítio histórico, as moradias em Olinda vêm sofrendo com o descaso político quanto à preservação de suas características, como observa a designer.
Mais do que um levantamento imagético da arquitetura tradicional ou um trabalho de conclusão de curso, hoje Renata vê o catálogo como uma ferramenta de sensibilização para que os moradores reconheçam a importância de seu patrimônio cultural. Descobrindo a potência dos objetos que adornam suas casas, eles podem se converter em verdadeiros guardiões da história entalhada em ferro e cerâmica. “Se eu antes pensava que a parte legal do catálogo seria a identificação dos objetos arquitetônicos, hoje o que eu mais tenho vontade de repetir é o contato com os moradores”, sintetiza a designer.
O catálogo – disponível na plataforma Cidades Educadoras – apresenta 52 fotografias dos quatro artefatos estudados, assim como seus vetores disponíveis para uso público. “O meu desejo agora é engordar o catálogo, adicionando fotografias e melhorando o texto. Quero explorar melhor a questão afetiva e voltar a ter contato com a população. E então, finalmente publicá-lo para aproximar mais as pessoas da preservação desse patrimônio arquitetônico e afetivo.”
Artigo escrito por Cecília Garcia e publicado originalmente no Portal Aprendiz em 30 de janeiro de 2018 com o mesmo título. 














© Renata Paes

sexta-feira, 2 de março de 2018

Unesco aceita dossiê de Paraty (RJ), candidato a Patrimônio Mundial

Paraty (RJ), uma das principais cidades coloniais brasileiras do ciclo do ouro, teve sua candidatura a Patrimônio Mundial aceita pelo Centro do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) nesta quinta-feira, 1º de março. Elaborado em parceria entre Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério do Meio Ambiente, o dossiê apresenta Paraty como sítio misto, por seu excepcional valor cultural e natural. Caso seja aprovado, será o primeiro sítio misto brasileiro a ser inscrito na Lista do Patrimônio Mundial.
Os limites do sítio incluem os territórios de áreas protegidas além do centro histórico de Paraty, como o Parque Nacional da Serra da Bocaina e o Parque Estadual da Ilha Grande. Em setembro, a cidade irá receber a Missão de Avaliação de especialistas do Conselho Internacional de Monumentos e Sítos (Icomos), órgão assessor da Unesco. A expectativa é que Paraty seja reconhecida pelo Comitê do Patrimônio Mundial em 2019. 
A presidente do Iphan, Kátia Bogéa, destaca o valor excepcional do sítio natural e urbano. Ela destaca que “o trabalho técnico do Iphan resgatou a importância de Paraty e suas paisagens preservadas, na relação histórica com suas rotas singulares para o mar e para a terra, onde comunidades tradicionais seguem em seu ambiente nativo. O projeto expressa uma visão conjunta das políticas de preservação do patrimônio cultural e natural do Brasil”.
Para o ministro da Cultura, Sérgio Leitão, ter o dossiê de candidatura da cidade histórica aceito pela Unesco representa grande expectativa. “Os grandes atrativos da cidade são muito conhecidos, como seu polo gastronômico, seu centro histórico belíssimo e toda sua rica vida cultural. Agora, o mundo está prestes a reconhecer a biodiversidade da região de Paraty que, junto com sua bagagem cultural, transforma a cidade em um exemplar único da harmonia entre suas paisagens naturais e bens arquitetônicos”, ressalta.
Cidade do ciclo do ouro
Um exemplo íntegro da arquitetura colonial portuguesa, Paraty é também uma paisagem espetacular com montanhas cobertas de densa floresta primitiva, em área de reserva da biosfera da Mata Atlântica, que encantou os viajantes cientistas do século XIX por sua biodiversidade. Desde a Baia da Ilha Grande, o sítio abrange 187 ilhas cobertas de vegetação primária. Abriga ainda comunidades tradicionais, como dos Quilombola, Guarani e Caiçara, que mantêm o modo de vida de seus antepassados, além de preservar a maior parte de suas relações, ritos, festivais e religiões. O relacionamento com o meio ambiente está enraizado na própria expressão das pessoas.
O reconhecimento de Paraty e da Baía da Ilha Grande, por seus valores naturais e culturais, como Patrimônio Mundial, pode representar avanços importantes para a região. Paraty deve ganhar visibilidade, como destino. Além de criar um compromisso do país perante a comunidade internacional, na proteção do sítio histórico e natural.
Mais informações para a imprensa
Assessoria de Comunicação Iphan
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Helena Brandi – helena.brandi@iphan.gov.br
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Fonte das Imagens: do site Iphan

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Exposição em São Paulo provoca reflexão sobre patrimônio

“A CONSTRUÇÃO DO PATRIMÔNIO” EXIBE, NA CAIXA CULTURAL SÃO PAULO, A RELAÇÃO PERMANENTE ENTRE SOCIEDADE E TEMPO COMO MANEIRA DE CONSTITUIR NOSSA HERANÇA

O ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Luiz Fernando de Almeida conduziu visita à exposição "Construção do Patrimônio", de sua própria curadoria e em cartaz na Caixa Cultural São Paulo. A iniciativa realizada na última quinta-feira, 1 de fevereiro, foi seguida por um debate com Anna Beatriz Galvão, doutora em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo.

“A exposição é apenas uma narrativa”, diz Almeida. Ela retrata “a leitura do Brasil do começo do [século] 20 e a leitura do Brasil hoje”. Nela, o visitante pode ter contato com três momentos históricos marcantes: os anteriores à criação do Iphan, o de sua instauração e os posteriores que se estendem até os dias atuais.

O percurso da mostra inicia-se com a citação provocativa de Aloísio Magalhães: “A nossa realidade é riquíssima, a nossa realidade é inclusive desconhecida (...)”. E encerra-se com Mario de Andrade: “(...) mas tudo vai se acabando agora que o Brasil principia (...)”. O público pode conferir documentos, desenhos, esculturas, fotografias e objetos, que estão reunidos de acordo com o período em que se inserem.

Destacam-se obras de Tarsila do Amaral, Cecília Meireles e uma réplica de escultura de Aleijadinho – ícone do movimento Barroco brasileiro. O acervo fotográfico é representado por nomes como Marcel Gautherot, Germano Graeser, Eric Hess e Pierre Verger. No campo da arquitetura, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer expressam-se nos registros da obra do Palácio Capanema – Ministério da Educação e Saúde do Rio de Janeiro – com azulejos originais de Portinari.

O debate abordou o significado da preservação no século 21, de que maneira a questão do patrimônio se posiciona perante o futuro e como a sociedade deve tratá-la - citando movimentos sociais como o Cais Estelita e a Casa Modernista, de Warchavchik -, além de relacionar questões multidisciplinares do patrimônio e como ele faz parte do processo de qualificação urbana, atuando não apenas como um elemento pontual, mas em conjunto com a cidade.

Na discussão também foram pontuados alguns dos desafios que envolvem a expansão do conceito de Patrimônio Cultural e como o próprio órgão deve se posicionar nos próximos anos: “O Iphan foi construído dentro de uma instituição nacional que talvez não tenha mais sentido (...). Ele precisa ser fortalecido, mas a gente precisa de um processo de descentralização de competência, de capacidade, de reflexão, de pensamento (...)”, disse Almeida.


A Construção do Patrimônio
Local Caixa Cultural São Paulo - Galerias Florisbela e D. Pedro
Endereço Praça da Sé, 111, Centro - São Paulo (SP) (Próxima à estação Sé do Metrô)
Visitação 10 de janeiro a 4 de março de 2018
Horário Terça-feira a domingo, das 9h às 19h
Telefone (11) 3221-4400
Entrada Franca; Classificação indicativa Livre; Acesso para pessoas com deficiência

Fonte: http://www.arcoweb.com.br/noticias/noticias/exposicao-provoca-reflexao-sobre-patrimonio


(Foto: Paola Vianna)


















Foto: Thiago Mann

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

História de Encruzilhada do Sul - Sobrado Dr. Gastão Gonçalves Lopes

Situado na Rua Ramiro Barcelos, esquina com a Rua General Osório, construído em 1947, em estilo colonial português, pelo construtor José Fossa, o sobrado pertenceu ao médico Gastão Gonçalves Lopes.
Gastão Gonçalves Lopes era natural de Cangucu. Radicou-se em Encruzilhada logo após concluir a faculdade de Medicina. Aqui construiu sua família e viveu até o último dia de sua vida. Participou intensamente da vida social e política da comunidade, além de médico, era poeta, cronista e jornalista.
A religiosidade de sua família fez com que sua casa servisse de altar para receber a procissão de "Corpus Christi" por longos anos.
Em 1949, nas comemorações do centenário do município, teve a honra de hospedar em sua residência o governador da época, Valter Jobim e o casarão foi por um dia sede do Governo do Estado.
Poucos amaram tanto esta terra  e este povo como o poeta Bento Velho ( seu pseudônimo ) e foi  no aconchego de seu lar que ele exaltou em prosa e verso a terra encruzilhadense.
Em 19 de julho de 1972, recebeu o título de Cidadão Encruzilhadense, pelos relevantes serviços prestados ao município. Gastão G. Lopes faleceu em 8 de julho de 1978.
A seguir, um dos poemas escritos por Bento Velho:

"Encruzilhada"

Cruz de estradas, sinal de Deus, marcando a terra
Berço da promissão que encanta o peregrino, 
Caminhos que se abraçam na lomba da serra;
Distâncias que se encontram no mesmo destino.

Tesouro de município, que o Brasil encerra.
Querência hospitaleira, presente divino,
Que a cordilheira impávida do Erval descerra
Como diamante raro, de quilate fino.

Cidade de jardins, de grandes fadados, 
mostrando, em cada praça, um símbolo glorioso:
Figurinos da história no bronze vazado.

Gleba de Santa Bárbara, lendária  e crente,
Onde o velho feiticeiro da água do pedroso
Fascina e prende o próprio coração da gente.

Bento Velho

Abaixo, as plantas do Sobrado e imagens do prédio.


 Planta do Pavimento Térreo - Acervo Humberto Fossa

























 Planta do Pavimento Superior - Acervo Humberto Fossa



 Foto de 2005 - Imagem do autor




















Foto de 2010 - Imagem do autor

domingo, 7 de janeiro de 2018

Um pouco da história da Igreja Matriz Santa Bárbara de Encruzilhada do Sul

Nas imagens abaixo, o ilustre historiador de Encruzilhada do Sul, Sr. Humberto Fossa, já falecido, conta um pouco da história da Igreja Matriz Santa Bárbara de Encruzilhada do Sul, desde a o início da construção em 1866, através do mestre francês Francisco Haliot, até seu término, em 1889, pelas mãos do construtor italiano Antônio Labriola, o historiador conta um pouco da história do prédio que é o maior símbolo arquitetônico e fonte irradiadora da expansão urbana da cidade.

As imagens são digitalizadas. A fonte de origem foi publicada nas edições do Jornal do Sudeste, entre Junho e Dezembro de 1992.






























Foto atual da Igreja - Fonte: do autor

domingo, 31 de dezembro de 2017

Demolição do Patrimônio Histórico de Encruzilhada do Sul

Texto escrito em 04/08/2107

Hoje, ao me deparar com esta cena, meu coração chorou, minha alma entristeceu.
Para um arquiteto, defensor do Patrimônio Histórico, de tantas memórias que estes bens trazem para a sociedade não só encruzilhadense, mas do mundo todo, é muito triste ver esta cena.
Não sei o que vai ser construído no local, talvez preservem a fachada, talvez não, não conheço detalhes do projeto, se existe um, para o local.
Neste prédio, nesta quadra, projetei meu TFG, o projeto que concluí meu curso de Arquitetura. Tinha a vaga esperança, de quem sabe um dia, algo parecido com meu TFG pudesse ser construído no local. Vã esperança...
Fiz todo o levantamento deste prédio, detalhe por detalhe, para usar no meu projeto de conclusão de curso. Talvez por isso esse apego por este prédio, pela sua história, pelos seus detalhes únicos da arquitetura colonial portuguesa com características açorianas. Na minha opinião, um dos principais, se não o principal prédio representativo do Patrimônio Histórico de Encruzilhada do Sul, a cidade que surgiu do caminho dos tropeiros e das lutas de defesa dos portugueses contra a invasão espanhola na Província de São Pedro.
Se nada for feito, se a sociedade encruzilhadense e o poder público não tomarem iniciativa para criarem uma Lei de Preservação do Patrimônio, este será apenas o primeiro de muitos outros que irão abaixo, pois parece que para alguns, a sede do mercado imobiliário por lucro sempre fala mais alto que a história, que as lembranças e a memória coletiva deste povo de tanta tradição.
Atualmente, os prédios históricos de Encruzilhada do Sul vêm se deteriorando, sem que nada seja feito para preservar essas edificações, exceto por iniciativa própria de alguns proprietários.
Porém, nem todas os ocupantes de prédios históricos têm recursos para conservar o imóvel com suas características originais. Cabe então aos órgãos públicos tomarem a iniciativa e conservar o patrimônio construído.
Diante deste quadro, surge a pergunta: até quando vamos deixar nosso patrimônio se deteriorar? Dar prioridade à preservação do patrimônio arquitetônico não significa assumir uma postura que seja contrária ao novo, mas antes, uma reflexão crítica que implica em assumir uma responsabilidade social cada vez maior com o que é construído. Cabe não só aos profissionais capacitados encontrar os caminhos capazes de identificar e conciliar as forças do passado para transforma – ló no futuro, mas a toda a sociedade.
Memórias que se vão, saudade que fica de um prédio que fez história na cidade.
Segundo a matéria do Jornal 19 de Julho, os proprietários solicitaram a demolição do prédio alegando abandono do prédio e invasão de usuários de drogas à noite, além de problemas estruturais na fachada, baseados em laudo técnico de um profissional habilitado para tal função.
Após o Corpo de Bombeiros também solicitar a interdição do prédio, o Conselho do Plano Diretor encaminhou ao setor técnico da Prefeitura Municipal a análise dos documentos, e também autorizou a demolição do prédio, a qual foi corroborada pela Engenheira Civil da Prefeitura, afirmando que devido ao abandono da edificação, riscos de desabamentos e crescimento da vegetação nas paredes, o mesmo deveria ser demolido. Após a assinatura do Secretário de Planejamento e Habitação, a demolição foi finalmente autorizada.
O exposto acima realmente estava ocorrendo. E com base nos problemas apresentados nos Laudos, o Conselho e demais responsáveis da Prefeitura Municipal tomaram sua decisão baseada em informações técnicas. Pude comprovar no local os problemas estruturais do prédio ao fazer o levantamento da edificação histórica para utilizar no meu trabalho de conclusão de curso. Se pensarmos por este lado, da segurança dos pedestres, o prédio precisava sim ser interditado ou passar por uma intervenção (restauro, requalificação), mas na minha opinião como Arquiteto, profissional também habilitado para fornecer Laudos Técnicos, creio que a demolição seria a última instância a ser pensada para o prédio, de tanto significado histórico para o munícipio.
Mas então surge a questão:
Teriam os proprietários atuais do local condições financeiras ou interesse em arcar com as despesas de um restauro ou de uma requalificação do prédio? Ao menos manter a fachada do mesmo?
Como Arquiteto, afirmo que há técnicas de Restauro e Requalificação de prédio históricos capazes de recuperar até mesmo problemas estruturais severos, como os que estavam ocorrendo no prédio em questão.
Talvez, se houvesse interesse dos proprietários em manter o prédio, poderiam fazer alguma parceira com o Poder Público, como por exemplo, isenção ou redução de impostos, ou permuta de área em outro local, hipóteses que são previstas na Lei Federal de Tombamento (Decreto – Lei N° 25, de 30 de novembro de 1937). Mas são questões pessoais de quem tem o direito sobre o imóvel e não cabe a mim questionar suas decisões.
Enquanto nos países desenvolvidos, estabeleceu-se uma legislação extremamente rígida para a preservação do patrimônio histórico, no Brasil, ainda se engatinha nessa questão, mesmo com a atuação do IPHAN, da criação de algumas Leis de preservação no âmbito municipal, estadual e federal, nossos governantes ainda consideram em segundo plano a preservação da cultura nacional e todos os benefícios que ela possa trazer para a sociedade.
As imagens divulgadas da demolição atingiram muito a memória coletiva da sociedade encruzilhadense, mas ao mesmo tempo nos impelem a pensar e refletir, e também agir em prol da defesa do que ainda resta dos nossos prédios históricos, cobrando o poder público a organizar e sancionar uma Lei Municipal de Preservação que impeça novas demolições do nosso rico patrimônio cultural.
Abaixo, uma foto da demolição, uma foto de 2005 (tirada por mim), uma foto de 2016 (para o trabalho do TFG), uma imagem do detalhamento que fiz do prédio e algumas imagens do Trabalho Final de conclusão do Curso.

 Todas as fotos e imagens são de minha autoria.