sábado, 6 de junho de 2020

Cidade mais antiga do Tocantins completa 286 anos e ruína de igreja construída por escravos passa por revitalização

Natividade fica na região sudeste do Tocantins e é parte do patrimônio histórico nacional. Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos não chegou a ser concluída.

O município de Natividade, o mais antigo de todo o Tocantins, completa 286 anos nesta segunda-feira (1º). A cidade é parte do patrimônio histórico nacional e é conhecida pela arquitetura colonial e as ruas com pedras batidas. Uma das estruturas mais simbólicas da cidade está passando por uma revitalização, a ruína da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

O prédio nunca chegou a ficar pronto. Ele começou a ser construído por escravos no século XVIII, mas apenas as paredes e os arcos ficaram prontos. Mesmo assim, a igreja acabou se tornando um símbolo do estado.

A obra está sob responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e deve custar aproximadamente R$ 348 mil. A ideia é estabilizar a estrutura e tratar as superfícies. O canteiro de obras é aberto para que a população possa acompanhar o trabalho de perto.O trabalho deve durar três meses.

A cidade foi inspiração para cenários e personagens da novela O Outro Lado do Paraíso, produzida pela Rede Globo em 2018. Uma das referência era a enigmática personagem Mercedes, interpretada por Fernanda Montenegro e inspirada em Dona Romana. O município também serviu de locação para séries e filmes é conhecido como a terra do ouro, da religiosidade e também é lá que se produz o biscoito Amor Perfeito, muito popular em todo o estado.

Fonte: https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2020/06/01/cidade-mais-antiga-do-tocantins-completa-286-anos-e-ruina-de-igreja-construida-por-escravos-passa-por-revitalizacao.ghtml










Crédito: Prefeitura de Natividade










Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Crédito: Prefeitura de Natividade

domingo, 17 de maio de 2020

Livro mapeia bens tombados pela União no RS, com curiosidades e descobertas sobre prédios e sítios históricos

Das Pedras aos Lambrequins" recupera histórias envolvendo construções icônicas da arquitetura gaúcha que resistiram ao tempo ou que sucumbiram ao longo dos anos

Por Maturino da Luz
Arquiteto, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS

Uma das mais ativas editoras universitárias gaúchas, a da Unisinos, sob a liderança de Carlos Alberto Gianotti, oferece ao público o livro Das Pedras aos Lambrequins: A Preservação do Patrimônio Arquitetônico e Urbano no Rio Grande do Sul do Século XX, da arquiteta Ana Lúcia Goelzer Meira, professora dessa instituição e ex-funcionária do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Com qualidade gráfica, o trabalho é fruto da experiência da autora por mais de 30 anos como técnica do Iphan e diretora de sua representação regional, de 2003 a 2013, e é baseado na tese de doutorado por ela defendida na UFRGS e aprofundado no mestrado profissional em Arquitetura e Urbanismo da Unisinos, no qual atuou como docente.

A obra é dividida em duas partes. Na primeira, o leitor é introduzido ao tema da preservação dos bens culturais, com didática, simplicidade e clareza, familiarizando-se com seus conceitos fundamentais. Paulatinamente, adentra no assunto, mergulhando na maneira com a qual se constituiu o elenco de bens classificados como patrimônios culturais na esfera federal e quais critérios fundamentaram a inclusão de cada um. É possível entender o modo como evoluíram os valores que legitimaram esses bens representativos do Estado no mosaico cultural brasileiro e compreender como edificações que outrora estiveram para compor a lista foram eliminadas, por incompreensão e até por motivos políticos, que se sobrepuseram ao interesse público. A autora valeu-se de minuciosa pesquisa desenvolvida sobretudo nos arquivos do Iphan, respaldando assim suas afirmações.

São curiosas algumas justificativas usadas para incluir obras no rol do acervo sob proteção da União. Salienta-se o caso da Catedral de São Sebastião, em Bagé, cuja falta de relevância arquitetônica foi compensada pelas marcas de projéteis nas paredes (testemunhos da Revolução Federalista). Em uma intervenção posterior, esses sinais foram apagados, o que faz com que o imóvel não mais ostente o fundamento de sua classificação como monumento nacional.

Por outro lado, foram perdidas obras como a “casa com material missioneiro”, junto ao sítio arqueológico de São João Batista, em Entre-Ijuís, identificada, em 1937, por Lucio Costa na sua única visita ao Rio Grande do Sul. A casa, tombada em 1938, primeira obra de cunho vernáculo a receber tal honraria, logo seria demolida pelo proprietário sem o consentimento do órgão de preservação. Também fomos privados de conhecer e usufruir da antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário, à Rua Vigário José Inácio, em Porto Alegre, “destombada” para atender a interesses políticos, sem contar a subtração, na paisagem porto-alegrense, do Solar de Dom Diogo de Souza, que existiu na Rua Voluntários da Pátria, antigo “Caminho Novo” percorrido por Auguste de Saint-Hilaire quando visitou a povoação, em 1820.

Na segunda parte do livro, a autora trata dos critérios de intervenção aplicados nas obras realizadas em alguns desses bens. Novamente o leitor é convidado a conhecer de forma sucinta, primeiramente, teorias e documentos acumulados nos séculos 19 e 20 que embasam as ações de conservação direta (manutenção) ou indireta (restauração) nos bens culturais, em traslados de monumentos etc. Em seguida, Ana Lúcia apresenta uma série de exemplos de intervenções realizadas no nosso meio pelas diferentes esferas de poder, dando atenção especial às realizadas no monumento de maior reconhecimento, os remanescentes missioneiros de São Miguel Arcanjo. São apresentados resultados variados, demonstrando os acertos e os erros que, na sua avaliação, foram cometidos.

Pelo relato da autora, fica claro que é necessário rever algumas posturas até aqui adotadas, o que ela faz nas suas “considerações finais”, nas quais apresenta oito pontos para repensar os critérios de intervenção.

Das Pedras aos Lambrequins preenche uma lacuna importante pela falta de obras sobre a temática e será referencial para que o meio técnico, acadêmico, e o público em geral tenham a oportunidade de conhecer e refletir sobre as ações preservacionistas empreendidas em relação ao patrimônio legado pelas gerações antecessoras.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/05/livro-mapeia-bens-tombados-pela-uniao-no-rs-com-curiosidades-e-descobertas-sobre-predios-e-sitios-historicos-cka5dbeog004a015nqi9m4jow.html











O histórico Solar de Dom Diogo de Souza, que existiu na Rua Voluntários da Pátria, em Porto Alegre, no século 19Não se aplica / Acervo do IPHAN.















A velha Igreja do Rosário, no centro de Porto Alegre: "destombamento"
Wikimedia Commons / Reprodução








A fachada da "nova igreja do Rosário", erguida na Rua Vigário José Inácio nos anos 1950
Marco Favero / Agencia RBS










"Das Pedras aos Lambrequins: A Preservação do Patrimônio Arquitetônico e Urbano no Rio Grande do Sul do Século XX ", de Ana Lúcia Goelzer Meira. Editora Unisinos, 248 páginas, R$ 55 (no site da editora, o preço é R$ 38,50)
Reprodução / Reprodução

domingo, 5 de abril de 2020

Professor da UFRGS detalha como "solucionou o mistério da construção de Machu Picchu"

Responsável pelo referencial "Atlas Ambiental de Porto Alegre", o geólogo Rualdo Menegat tem sido aclamado internacionalmente por sua original pesquisa sobre a civilização inca

Em 1913, a revista da National Geographic Society revelou ao mundo as imagens impactantes de Machu Picchu, a cidade inca encontrada dois anos antes, no meio dos Andes, no Peru, pelo explorador norte-americano Hiran Bingham. Era um momento de orgulho para a organização, que financiou três expedições de Bingham ao local. Em dezembro de 2019, passados mais de cem anos, a National Geographic, em sua versão espanhola, voltou ao tema, em uma reportagem que anunciava: “Solucionado o mistério da construção de Machu Picchu em local tão inacessível”. Ao mesmo tempo, um número incalculável de publicações do mundo todo publicavam a mesma notícia: o geólogo Rualdo Menegat, professor da UFRGS, havia conseguido explicar o motivo de os incas terem erigido sua civilização nas encostas dos Andes. 

Com quase três décadas como docente da universidade, Menegat era, até então, reconhecido principalmente como o coordenador do impressionante Atlas Ambiental de Porto Alegre, inspirador de publicações similares mundo afora. Desde novembro, quando apresentou nos EUA seu trabalho sobre os incas, ele se tornou célebre pela tese de que a civilização inca viabilizou-se pela domesticação de falhas geológicas nas montanhas. Ele fala mais sobre essa pesquisa a seguir.

Não é comum um pesquisador brasileiro estudar um assunto relacionado a outro país. O que levou o senhor a Machu Picchu?
É uma trajetória incomum, um cientista fazer uma grande descoberta em um país vizinho. Sempre tive interesse pela questão do tempo profundo. O presente é só a pontinha do iceberg de um longo desenvolvimento histórico humano, e também da Terra. Desvendar esse mistério me atraiu desde os oito anos de idade, quando decidi estudar geologia. Tinha interesse pelas civilizações antigas, por causa das rochas. Queria saber como elas faziam obras tão grandes como pirâmides ou cidades de pedra em cima de montanhas. Então cursei Geologia, fiz o Atlas Ambiental de Porto Alegre e, por conta desse atlas, ocorreu na capital gaúcha um simpósio promovido pela ONU, em 1999. Uma delegação que se interessou foi a peruana. Eles me convidaram a ir ao Peru para dar conferências e ajudá-los a fazer um atlas. Respondi: tudo bem, mas incluam Machu Picchu no roteiro.

Então o senhor esteve lá para dar uma formação?
E conhecer Machu Picchu, que sempre esteve na minha pauta de interesses, até como latino-americano, por ser um ponto de identidade de toda a América Latina. E fui a Machu Picchu como geólogo. O geólogo tem de caminhar, andar entre as montanhas, entrar em desfiladeiros, se embrenhar em sendas inexploradas. Comecei pelas montanhas mais altas, de 7 mil metros de altitude, e fui descendo até Machu Picchu, a 2,3 mil metros, cercada por grandes montanhas.

Foram vários dias percorrendo o local?
Sim, até que por fim enxergo Machu Picchu do alto. Nesse momento, concluo que a única possibilidade daquele contexto eram as falhas geológicas. Pensei: nossa, Machu Picchu está em lugar muito desgastado pela erosão, um cruzamento de falhas geológicas. Mas a literatura não falava sobre isso.

O que é uma falha geológica?
Vem a ser uma ruptura dos maciços rochosos. É como um saco de bolacha bem empacotado. Se tu apertares, as bolachas vão quebrar, mas mantêm a forma. Os maciços rochosos foram prensados, esmagados, por forças compressivas muito fortes das placas tectônicas. Onde aconteceu a ruptura, há uma falha. A ruptura é o ponto de uma massa que, ao ser pressionada, quebra. É uma fenda.

E só de olhar o senhor percebeu que esse era o caso em Machu Picchu?
Sim. Onde há falha geológica, há dano na rocha, que fica toda fraturada na parte lateral dos dois blocos. Esse fraturamento faz com que o maciço rochoso se quebre naquela região, e essa quebradura de blocos menores facilita a erosão. Onde há falha, a erosão é maior.

Não existia literatura sobre essa característica de Machu Picchu?
Nada. E achei fantástico, porque era uma explicação geológica e geomorfológica. A questão seguinte era saber se a cidade estar ali era um acaso ou era intencional. Voltei ao Peru já no ano 2000 para investigar a escolha dos locais de assentamento incaico. Fiz expedições em 2001, 2006, 2010 e 2012. Fui aprofundando e comprovando a tese.

O senhor concluiu que a construção de Machu Picchu naquele local foi intencional. Que intencionalidade é essa? O que os incas buscavam ao escolher aquela área?
Minha tese foi que Machu Picchu não podia ser obra do acaso ou um capricho. Quem construiu a cidade o fez dentro de uma prática construtiva dos Andes. Você vê hoje o grande edifício de Abu Dhabi (Burj Khalifa) e diz: meu Deus, como é possível, construíram um edifício de 800 metros de altura. Mas, se for analisar a sociedade contemporânea, construir edifícios é uma prática. Não se construiu um edifício de 800 metros onde ninguém sabe construir edifícios, mas onde todos sabem. Machu Picchu é o mesmo. Por que construíram uma cidade tão alta, em um lugar de tão difícil acesso? Porque essa era a prática construtiva dos Andes à época. 

Como surge essa prática?
A questão é entender porque ela é necessária. Nós, brasileiros, que vivemos em clima úmido, num país tropical, florestado, não fazemos ideia do que é uma cordilheira imensa como a andina, com altitudes de 2 mil a 7 mil metros, onde há condições climáticas extremas, desde a glacial, nos cumes nevados, até a muito seca, nos desertos. A dinâmica andina é inóspita. É um lugar muito difícil de habitar. Há dinâmicas geotectônicas e geológicas severas: terremotos, vulcões, derretimento de gelo. Há momentos de muita chuva. Se tu perguntares a um geólogo onde colocar uma cidade nos Andes, ele vai dizer: evite a qualquer custo os fundos dos vales. Tu poderias retrucar: mas esses são os melhores lugares, com terrenos planos e água corrente dos rios. Para a civilização ocidental, os vales são atrativos, porque é uma civilização do domínio fluvial, como os egípcios no Nilo e os sumérios no Tigre e no Eufrates. Nos Andes, os vales são proibitivos. Em um ano, tu poderás plantar nas margens do rio e ter uma bela colheita. No ano seguinte, poderás ter uma seca terrível. No outro, uma inundação, quando o rio carrega tudo embora. Em outro momento, uma encosta inteira da montanha desaba sobre o vale e soterra tudo. No Ocidente, nossa construção civilizatória consiste em domesticar os rios. A história antiga é a história das civilizações fluviais. Nos Andes, não. Percebi que a estratégia civilizatória andina devia ser outra. 

E qual seria?
Tive de entender o que seriam as janelas de habitabilidade, onde a vida humana seria possível nos Andes. Se não é possível no fundo dos vales, então onde? Em locais elevados, mas os locais elevados são rochosos. Os Andes são o mundo das rochas. E, no mundo rochoso elevado, é possível construir onde ele está falhado, que é onde as rochas estão mais quebradas, e principalmente onde há cruzamento de falhas, porque ali os blocos ficam previamente cortados. Ali é possível assentar uma cidade, removendo bloco por bloco. O material de construção, que são os blocos rochosos, está previamente cortado, por causa da quebra e da erosão. Ao identificar um lugar com essas características, os construtores recolhem os blocos rochosos e fazem os terraços para plantio, nas encostas vertiginosas, com os próprios blocos. E podem ir removendo os blocos e encravando as edificações.

Se não houvesse a falha, não haveria onde assentar a cidade no maciço e não haveria rochas soltas para a construção?
Exatamente. E há um terceiro fator importantíssimo. No reino fraturado, que é o reino das montanhas andinas, a água corre pelas falhas. As falhas são aquíferos. A água goteja permanentemente, com volumes mais ou menos contínuos. Não é em abundância, mas nunca é escassa. Se souberes canalizá-la, tens água corrente e podes estabelecer ritmos civilizatórios. Então eles constroem andenes, que são muros, terraços, escadarias que eles assentam nessa encosta rochosa falhada. E, com isso, conseguem uma coisa prodigiosa, que é transportar as pequenas faixas de solo que estão ao lado do rio, férteis. Transportam para essa escadaria na encosta rochosa estéril, para o cultivo.

Então os incas domesticam a montanha?
Sim. Para ser mais específico, domesticam a falha geológica. Essa estratégia civilizatória garante zonas de habitabilidade nos Andes, que é onde é possível construir esses terraços e encravar esses assentamentos. Os incas vivem em locais elevados, mais ou menos numa mesma faixa de altitude.

Como o senhor fez para demonstrar sua tese?
O primeiro passo foi mostrar que, sim, há falhas. Fiz estudo por imagem de satélite, usando sete escalas de avaliação e análise. Estudei toda a região dos rios Apurimac e Urubamba-Vilcanota, que é onde estão as cidades incas mais famosas: Machu Picchu, Ollantaytambo, Pisac, Urubamba. Percebi que havia redes de falhas em toda essa região. São linhas paralelas e se cruzam também. Os rios correm paralelos, são todos encaixados nas grandes falhas. Os padrões são fractais. Tu os enxerga com a dimensão de 200 quilômetros, de 20 quilômetros, de dois quilômetros e podes ir até dois metros. As linhas que definem os setores de Machu Picchu coincidem com as direções das falhas, porque ali é onde tem facilidade de desmontar a rocha. O que tu tens no desenho de Machu Picchu é um mapa das falhas. Eles construíram procurando as falhas e removendo os blocos à medida que se deixavam desprender. Ao fazerem isso, revelaram as linhas de falha. Meus métodos foram análise de imagens de satélites em várias escalas, análise de campo e medição de fraturas. Depois, passei dias na própria cidade, medindo essas linhas de escadarias. Onde o arqueólogo via uma escadaria, eu, geólogo, via uma linha de falha.

E quanto às outras cidades incaicas?
Depois do estudo em Machu Picchu, fui ver se era uma regra geral. Estudei Ollantaytambo, cidade vizinha no Vale Sagrado, depois Pisac e inclusive Cusco, que hoje está soterrada pela colonização espanhola e pela civilização atual. Pude ver que todas seguem o padrão, ou seja, são mapas de falhas geológicas. Isso é incrível. E me mostrou que eu estava diante de uma teoria geral sobre o modo de domesticação andina.

Os incas sabiam que se tratava de falhas geológicas?
O conceito de falha geológica é da ciência geológica. Os incas não vão ter uma teoria explicativa. O que eles têm é uma análise empírica de tentativa e erro. Mas também deviam ter uma espécie de conhecimento que se equivale ao nosso conhecimento geológico. Eu diria que é impossível estabelecer uma civilização das dimensões da civilização inca sem que eles conhecessem o mundo andino, e o mundo andino é o mundos das rochas. Eles deviam ter um conhecimento profundo das pedras, assim como nossos indígenas têm um conhecimento espetacular das florestas. Eles conheciam esse mundo das fraturas porque é o mundo deles. A identificação de falhas era uma questão fundamental. O pensamento deles não é científico. Mas é lógico. Pude mostrar, com meu estudo, que há um pensamento ali.

Eles enxergam na geografia da montanha algo que um ocidental não enxergaria?
Não enxergaria e não enxergou. Por isso levou tanto tempo até alguém identificar isso. Por isso que meu estudo teve impacto.

O senhor defendeu seu doutorado, com essas conclusões, em 2006. recebeu várias distinções, como um título de doutor honoris causa, no Peru, em 2014. Na ocasião, Zero Hora publicou reportagem sobre o assunto. Mas só agora veio a repercussão internacional. Por quê?
Depois dessa descoberta, que é minha tese de doutorado, fiz um conjunto de conferências para eles, para a comunidade andina, para os brasileiros, porque era uma revelação importante, que retirava a ideia de que os incas são só o mundo da magia e do místico. Eu queria mostrar que, para além do mistério inca, da magia, há uma questão importante que é o pensamento. Ninguém vive nos Andes só com magia. É preciso ter um conhecimento profundo daquele mundo. Fui ver o quanto essa minha descoberta tinha significado para os peruanos, para que eles não vissem isso como uma descoberta de um estrangeiro. Estamos falando da imagem que os peruanos têm de si e da pepita de ouro que é Machu Picchu. É algo muito delicado para eles. Só em 2019 concluí que esse processo já estava maduro.

E o que o senhor fez?
Resolvi participar do congresso da Geological Society of America, nos EUA, e submeter meu trabalho a provas maiores, aos geólogos norte-americanos. Para minha surpresa, isso causou um enorme impacto na comunidade geológica norte-americana. Eu sabia que tinha em mãos um tema relevante, uma descoberta nteressante. Mas que podia ser rejeitada. Sou brasileiro, sul-americano, a UFRGS é uma universidade maravilhosa, mas se uma pesquisa é revelada por Cambridge, o impacto é diferente. 

Uma prova é que, embora publicado em 2006, seu trabalhou permaneceu pouco conhecido até essa apresentação no ano passado?
Sim. Porque não é fácil. Acho que nós, brasileiros, devemos ter muito mais confiança na nossa capacidade tecnológica e científica. Não precisamos dos anais internacionais para saber que somos prodigiosos, criativos, inteligentes. Sempre que apresentei esse tema no Peru, as plateias ficavam boquiabertas.

Como foi a repercussão internacional, a partir dessa apresentação do ano passado?
Foi o coroamento de um longo trabalho. O nome da UFRGS saiu grafado em mais de 30 países, em mais de 15 línguas, em canais científicos e também em veículos muito populares, como a mídia de massa, Le Monde, Times, BBC, Daily Mail... Na imprensa especializada também, como as revistas Archeology e Science... A National Geographic anunciou: “Está resolvido o mistério de Machu Picchu”. 

O senhor ainda continua envolvido com o tema?
Sim, porque o estudo permite desenvolver questões importantes. Uma delas é como resolver os problemas urbanos atuais em zonas montanhosas ou zonas declivosas. Se os incas desenvolveram uma civilização prodigiosa com 10 milhões de pessoas em encostas muito mais íngremes e perigosas do que as nossas, por que nós não poderemos conseguir? Temos coisas a aprender do ponto de vista técnico, dos processos de construção e da habitabilidade das encostas brasileiras, evitando tragédias. Estou tentando aplicar isso na nossa realidade. Em geral, a solução mais imediata que temos é remover as pessoas, mas isso é impraticável diante do problema social que é remover e diante dos custos econômicos, sociais e culturais. Precisamos ter outras abordagens técnicas, customizáveis, possíveis de serem implantadas pelos próprios moradores, mais resilientes e mais adaptadas às situações em que eles se encontram. E foi isso que vi nos incas. Eles respeitam o lugar onde vão construir. Temos muito a aprender com eles.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/04/professor-da-ufrgs-detalha-como-solucionou-o-misterio-da-construcao-de-machu-picchu-ck8j36lwx00y701o5n94lsln6.html

























Incas aproveitaram falhas geológicas para erguer sua impressionante cidade, concluiu pesquisador gaúcho
Adriana Franciosi / Arquivo Pessoal




















Rualdo Menegat: temos muito a aprender com os incas
Fernando Gomes / Agencia RBS

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Novos sítios arqueológicos são descobertos em Serranópolis (GO) com ação do Iphan

Trinta novos sítios de pinturas e gravuras rupestres foram descobertos no município de Serranópolis (GO), localizado na região Sudoeste do Estado de Goiás. A descoberta é resultado de ações de conservação realizadas em dez sítios de abrigo do complexo arqueológico do local, contratadas pela Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Estado de Goiás (Iphan-GO). No total, foram investidos pelo Iphan quase R$ 193 mil.
As atividades foram voltadas a preservação dos sítios com pinturas e gravuras rupestres que, a partir de agora, também passam a oferecer mais segurança às atividades turísticas, educacionais e de pesquisa.
Os trabalhos consistiram na retirada da vegetação, de pisos e paredes dos abrigos, limpeza do acúmulo de massa vegetal e remoção de microfaunas, como cupins, ninhos de formigas, caixas de marimbondos e colmeias de abelhas, que foram transportadas para uma área de preservação.  Além disso, foram feitos testes químicos em pequenos espaços sem pinturas para limpeza de pichações, fuligem e trilhas de cupins.  
Os serviços foram realizados no segundo semestre de 2019 e tiveram como objetivo frear o processo de degradação e minimizar os impactos sobre o conjunto de arte rupestre.
Trabalharam na ação um grupo formado por quatro arqueólogos, um geoarqueólogo, três biólogos, um engenheiro ambiental, um apicultor e três guias turísticos da região, que também tiveram o acompanhamento da equipe de arqueologia do Iphan-GO.
O Complexo Arqueológico de Serranópolis, mais especificamente os conjuntos de abrigos sob rocha, compõe um significativo patrimônio arqueológico e ambiental do Estado de Goiás, tanto por sua importância científica relacionada à ocupação do território goiano quanto por sua beleza cênica. Desde 1970, é referência na história do povoamento do cerrado brasileiro, com datações de 11 mil anos.
 Assessoria de Comunicação 
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
comunicacao@iphan.gov.br
Clélia Lima -  clelia.lima@iphan.gov.br
Marianne Cardoso - marianne.cardoso@iphan.gov.br
(61) 2024-5528 - 2024-5527

(62) 3224-6402
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Fonte das imagens: do site Iphan

sábado, 7 de março de 2020

Antes e depois: o que restou do RS pintado por um viajante alemão nos anos 1850

GaúchaZH visitou diversas regiões gaúchas para redescobrir as paisagens retratadas pelo aquarelista Herrmann Wendroth

Um soldado alemão, debochado e transgressor, foi o responsável pelo mais vasto registro visual do Rio Grande do Sul no século 19. Herrmann Rudolf Wendroth morreu desconhecido, em data e lugar incertos, e sua obra só se tornou acessível ao público mais de cem anos depois de concebida – e ainda hoje não é popular fora do circuito acadêmico de arte e história do Rio Grande do Sul.

O estrangeiro registrou por meio de suas aquarelas paisagens de Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas, Lavras do Sul e Rio Pardo. Seus trabalhos mostram cidades em expansão, em desenhos com profusão de detalhes e apuro estético. No ambiente rural, também circulou e ilustrou com minúcia o modo de vida do homem do campo. Além disso, foi um dos raros artistas-viajantes do século 19 que retrataram os escravos com simpatia, expondo maus tratos sofridos e dando dignidade a sua dança.

Pouco se sabe sobre quem era Wendroth antes de vir ao Brasil. O alemão partiu de Hamburgo em 1851, como soldado mercenário para lutar a serviço do governo imperial do Brasil na campanha contra o ditador argentino Juan Manuel de Rosas (1793–1877). Ele fazia parte de um grupo de legionários conhecido pela indisciplina e disposição para a briga, recebendo o apelido de “resmungões” – brummer, em alemão.

O que o governo imperial não previa era que, em vez de importar um soldado, estava recebendo um artista. Não há informações sobre a família ou a respeito da formação do pintor, mas os trabalhos deixados apontam que Wendroth tenha estudado formalmente e com razoável esmero a técnica de aquarela.

– Ele era um aquarelista muito bom. Os trabalhos apontam que teve ao menos uma boa iniciação no estudo da técnica. E o bom artista trabalha muito, depura, aprende também ao praticar – avalia a ilustradora Laura Castilhos.

Além do talento artístico, Wendroth parece ter sido também um jovem idealista. Os raros estudos sobre o artista pressupõem que ele nutria sonhos de viajar pelo mundo e fazer sua arte conhecida, provavelmente impulsionado pelo trabalho de viajantes naturalistas famosos à época. O alemão Alexander von Humboldt (1769–1859) foi um exemplo desse tipo de personalidade, aliando espírito aventureiro e prazer estético com o avanço dos estudos sobre história natural e ciência.

– Naquela época, não havia muitos ídolos em quem se inspirar. Humboldt era um deles – contextualiza o historiador Júlio Bittencourt Francisco.

“Até as estrelas”

Desde o século 18, a taxonomia se popularizou pela Europa, com a publicação do Systema Naturae (1735), de Carl von Linné (1707–1778), impulsionando não apenas cientistas, mas também cidadãos comuns a uma ânsia classificatória da natureza. Em grande parte, os registros de paisagens realizados por viajantes à época atendem a essa curiosidade, com representação diversificada de animais e plantas. As Américas, com vasta flora e fauna desconhecidas, despertavam a curiosidade dos europeus. Wendroth possivelmente veio para o Brasil não com o desejo de lutar contra Rosas, mas com o plano de voltar para seu país com um álbum ilustrado, que poderia ser vendido, inserindo-se em um mercado lucrativo de livros de artistas-viajantes.

Sua viagem sofreu percalços desde o início. O pelotão em que estava inserido desembarcou no Rio de Janeiro em 1851. Da capital imperial, os soldados seguiram para o porto de Rio Grande e, mais tarde, foram divididos em embarcações menores para atravessar a Lagoa do Patos rumo a Porto Alegre. No artigo “A Iconografia de Viagem de Hermann Rudolph Wendroth sobre o Rio Grandedo Sul Oitocentista”, a historiadora Maria Angélica Zubaran observa que um desenho sobre essa travessia é o primeiro da série autobiográfica do álbum de Wendroth.


Conforme o texto, o alemão não deixa mais do que breves legendas, mas é possível ter mais detalhes sobre o ocorrido por meio da leitura dos relatos de outros companheiros de viagem, como o capitão Lemmers-Danforth, que descreveu em suas memórias a viagem pela Lagoa dos Patos como uma “péssima travessia”.

Apesar da chegada difícil à capital gaúcha, o desenho de Wendroth também carrega esperança na legenda Per aspera ad astra, que pode ser traduzida do latim como “através das dificuldades até as estrelas”. Além de Porto Alegre, há registros do pelotão em Jaguarão e Rio Pardo, mas, ainda em 1851, no dia 20 de setembro, o alemão registra no álbum que teria deixado o grupo, sem detalhar motivos: “Expulso da pátria e já despojado das insígnias, nada mais me restou...”, escreveu.

Antes de abandonar o grupo, no entanto, pinta mais uma curiosa passagem autobiográfica. Por conta de indisciplina militar, Wendroth e alguns colegas foram presos, confinados em um chalé na cidade de Rio Grande. Além de fazer desenhos da casa que serviu como prisão, também deixou uma aquarela em que um soldado recolhe em um vaso o líquido que jorra de uma das paredes. O líquido, na verdade, é vinho. Na ânsia de escapar do cárcere, um dos soldados soltou uma tábua da parede e descobriu no recinto ao lado uma grande quantidade de pipas. Montou uma espécie de torneira. Com a descoberta, desistiram de fugir e passaram a receber visitas de amigos, que também se refestelavam no cárcere.

Cem anos de ausência

Pelos trabalhos deixados por Wendroth, é possível perceber que o artista, depois de deixar a condição de soldado, perambulou por Lavras do Sul e cruzou localidades próximas aos rios dos Sinos, Taquari e Caí. Neste último, perdeu um cavalo, provavelmente afogado na travessia, como pintou em uma aquarela, na qual é representado em pranto por ter perdido o animal. 

O ano e o local da morte de Wendroth são incertos, mas historiadores estimam que seja por volta de 1860, pois é quando se deixa de falar no artista em cartas e outros documentos. Seu álbum, com quase 160 desenhos espalhados em mais de 40 pranchas, é o mais amplo registro das paisagens do Rio Grande do Sul do século 19.

– Wendroth é um caso único, pelo menos até onde se conhece. Os estudos sobre arte visual no Rio Grande do Sul são muito mais relacionados ao final do século 19 e ao século 20. O contexto anterior de formação e produção artística era muito incipiente – afirma o professor Paulo Gomes.

O Estado não teve paisagens e costumes tão documentados por viajantes no século 19 como outras regiões do Brasil. Jean-Baptiste Debret (1768–1848), por exemplo, deixou uma variada obra sobre o país, mas poucos trabalhos relacionados ao Rio Grande do Sul – ainda restam dúvidas entre historiadores se Debret de fato visitou o Estado. Wendroth, deixou vestígios sobre o povo e a geografia locais no século 19, assim como Debret o fez no Rio e em outras cidades, mas a comparação entre os dois precisa ser delimitada, pois pertencem a momentos distintos e possuem formações diferentes.

– Wendroth vem para cá na década de 1850. Debret, (Johann Moritz) Rugendas e todos aqueles artistas que vieram no final do século 19 e início do 20 para realmente documentar o Brasil, quase como uma missão científica, eram profissionais e faziam esse trabalho de modo sistemático. Não é o caso de Wendroth. Debret e Rugendas não são termos de comparação para ele. Wendroth é um amador, um curioso que faz imagens sem nenhuma destinação a priori – explica Paulo Gomes.

A professora Maria Angélica Zubaran compara os registros da população negra realizados por Wendroth com os de Debret e Rugendas:

– É interessante observar que Wendroth, seguindo a tradição das pinturas Debret e Rugendas, não ignorou a violência presente no cotidiano escravista e representou a aplicação de açoites e outros castigos corporais aplicados aos escravizados no Rio Grande do Sul. Ele também registrou negros e negras numa cena festiva, dançando ao som de atabaques, usando calçados e vestidos com tecidos de cores fortes, parecendo um batuque de negros libertos – avalia a professora Maria Angélica Zubaran.

O álbum de Wendroth chegou a ser surrupiado e vendido por um impostor, para passar mais de um século inacessível. Em 1863, as lâminas originais do pintor foram oferecidas por um homem chamado F. A. Buhlmann, de Buenos Aires, para D. Pedro II, sugerindo que os trabalhos eram do remetente e que o imperador poderia comprá-los pelo valor que julgasse mais conveniente. Foi só em 1963 que o secretário de Dom Pedro Gastão de Orleans e Bragança, Guilherme Auler, topou com o material, armazenado no Palácio da Princesa Isabel. Encantado com a descoberta, entrou em contato com o crítico literário gaúcho Augusto Meyer, que resolveu verificar a autoria do material antes de publicá-lo. Como percebeu uma assinatura raspada, encaminhou as lâminas para Instituto de Criminalística do Departamento de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, que conseguiu reconstituir parte do nome assinado, “Herr. Rudolf W”. Com isso, foi possível comparar a assinatura com a lista dos brummer, e o nome de Herrman Rudolf Wendroth foi encontrado.


A publicação do álbum, contudo, teve de aguardar. Foi só em 1982 que a primeira edição foi realizada, e não com todas as lâminas originais. O volume Obras de Hermann Rudolf Wendroth – 1852 foi bancado pela Rio Grande Companhia de Celulose do Sul (Riocell) e oferecido para seus funcionários e colaboradores como presente de final de ano, contendo ainda um texto introdutório do escritor Abeillard Barreto (1908–1983).

Por meio de Abeillard Barreto, o folclorista Barbosa Lessa (1929–2002) também tomou conhecimento do trabalho de Wendroth. Em 1983, quando Lessa era secretário estadual de Cultura, promoveu a primeira exposição com seus trabalhos, celebrando também a edição do conjunto integral dos suas obras, O Rio Grande do Sul em 1852: Aquarelas de Herrmann Rudolf Wendroth.

As lâminas voltaram com pompa para Porto Alegre: foram a atração principal da inauguração de nada menos do que a Casa de Cultura Mario Quintana. Entre os convidados, estavam autoridades como D. Pedro Gastão de Orleans e Bragança, que veio ao Rio Grande do Sul especialmente para o evento. Mas, apesar do brilho de seu retorno à Capital, o artista corre o risco de voltar a ser esquecido mais uma vez – quase quatro décadas depois, não houve reedição de seu trabalho.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/03/antes-e-depois-o-que-restou-do-rs-pintado-por-um-viajante-alemao-nos-anos-1850-ck7f2slan01on01oabxnxpnqw.html

O RS do século 19 e de hoje

Dois olhares sobre a Praça da Matriz, no centro da Capital: aquarela de Wendroth mostrando a antiga Igreja Matriz e o Palácio do Governo nos anos 1850; e a Catedral Metropolitana e o Palácio Piratini, construídos nos mesmos locais