domingo, 25 de agosto de 2019

AS BIBLIOTECAS PERDIDAS DO DESERTO

No final de uma dura e poeirenta estrada no deserto do Saara, encontramos uma cidade praticamente engolida pelas areias do deserto, estamos em Chinguetti na Mauritânia, África Ocidental. A maioria das casas já se encontram abandonadas e à mercê dos poderosos elementos, entre eles o vento que sopra quente arrastando consigo milhares de milhões de pequenos grãos de areia. Mas é também aqui que se encontram algumas das mais antigas bibliotecas e livros do mundo.

Calcula-se que o deserto do Saara avance para sul a uma velocidade média de 30 milhas por ano (mais ou menos 50 quilómetros). Caso não exista uma intervenção humana constante, é possível que fique enterrada na areia em pouco mais de duas gerações. Mas Chinguetti é mais do que uma cidade semi abandonada no meio do deserto, pois aqui estão bibliotecas com alguns dos mais raros livros do planeta. Em tempos idos, levados na memória do vento, Chinguetti foi uma próspera metrópole medieval que chegou a ter no seu auge cerca de 20.000 habitantes. Era a casa de um dos mais importantes centros de estudos multidisciplinares, onde eram estudadas matérias de direito, matemática, ciências, religião, medicina, e astronomia. Na Europa vivia-se uma era negra e obscura, conhecida como Idade das Trevas, que castrava quem tivesse vontade de beber conhecimento e onde imperava a lei da religião acima de todas as outras, mas aqui, neste canto da África Ocidental, encontravam-se os mais variados pensadores, estudiosos e religiosos.

Não era ao acaso que isto sucedia, pois ficava numa das antigas rotas de peregrinos a caminho de Meca. Os peregrinos islâmicos paravam aqui para descansar e retemperar energias, mas também para discutir, trocar ideias e mercadorias. Durante algum tempo chegou a ganhar estatuto de local santo do Islão, e por mérito próprio ficou conhecida como a "Cidade das Bibliotecas".

Hoje, infelizmente pouco resta desses esplendorosos tempos, sendo pouco mais do que um conjunto de ruas semi desertas com pequenos casebres de barro. Mas são estes casebres de barro, que têm como missão guardar os cerca de 6 mil livros antigos, grande parte deles em condições impressionantes de conservação tendo em conta a dureza dos elementos. Mas estes não são livros comuns, a maioria deles é século do IX (9).

Parece incrível, mas até à pouco mais de 60 anos, nos anos 50 do séc XX, existiam em Chinguetti mais de 30 bibliotecas familiares. Mais uma vez a dureza dos elementos, principalmente as secas rigorosas, fizeram com que famílias inteiras procurassem outras paragens, muitos procurando cidades com mais condições de habitabilidade e abandonando a vida do deserto, mas ao partirem levaram também os seus livros (muitos deles passados ​​de geração em geração).

Actualmente restam menos de 10 bibliotecas nesta velha cidade, estas ainda se vão mantendo graças a alguns estudiosos e turistas que as visitam e deixam uma (preciosa) ajuda monetária para a conservação dos livros. Os livros não saem de Chinguetti nem para serem restaurados (salvo raras excepções).

De entre estes manuscritos, encontram-se alguns dos mais importantes e antigos escritos islâmicos, com tratados sobre religião, literatura ou ciências. Os livros foram escritos em pele de gazela e encontram-se protegidos por capas de pele de cabra.

A mais importante e rica destas bibliotecas é considerada das mais antigas de todo o Islão, e pertence à família de Mohammed Habbot. São cerca de 1.600 livros, e mesmo tendo uma localização inusitada, a esta biblioteca não faltam armários de ferro onde estão alojados os livros, assim como várias secretárias de leitura.

O restante das outras bibliotecas que ainda existem em Chinguetti, nada mais são do que cápsulas do tempo da idade média, muitas mantendo-se da mesma forma como foram inicialmente construídas. Muitos destes livros encontram-se em prateleiras abertas e vulneráveis ​​aos duros elementos do deserto. Infelizmente as mudanças climatéricas não estão apenas a afectar o armazenamento dos livros, sazonalmente aparecem cheias seguidas de épocas longas de seca e erosão severa, provocando o aumento da desertificação ambiental (mas também humana), que trazem consigo tempestades de areia mais frequentes e severas.

Uma das soluções para prevenir a deterioração destes livros, ​​seria limitar o seu contacto com a luz e poeira, mas os moradores que ainda vivem em Chinguetti, têm no turismo uma das suas únicas fontes de rendimento. A subsistência humana está acima da preservação cultural, e em muitos casos os bibliotecários nómadas vêm-se obrigados a expor estes livros antigos para atrair alguns turistas, mesmo que desta forma os façam deteriorar-se ainda mais.

A UNESCO em 1996 tornou Chinguetti (cidade e bibliotecas) Património Mundial, reconhecendo a situação de risco da cidade e das suas bibliotecas. Pinturas que remontam à Idade da Pedra que existem perto de Chinguetti, retratando a região como um oásis de pastagens luxuriantes onde os animais selvagens proliferavam.

Infelizmente receio que as constantes mudanças climatéricas que assolam o deserto, assim como a turbulência política que assola muitas partes da África Ocidental, incluindo a Mauritânia (com um aumento dos raptos e extremismo por parte de alguns povos do deserto) afastem ainda mais os turistas, pondo em causa toda a subsistência dos bibliotecários do deserto.

Que o vento não seja o único a transportar as memórias escritas do deserto.

Fonte da matéria e das imagens:



















segunda-feira, 29 de julho de 2019

Mergulho sob as pirâmides: sarcófago de faraó negro de 2 mil anos está submerso e parece intocado

Com mais de 20 pirâmides antigas ao longo de 68 hectares do deserto sudanês, talvez Nuri seja o sítio arqueológico mais incrível do qual já se ouviu falar.

EM ALGUM LUGAR ABAIXO DA superfície de uma área do tamanho de uma piscina infantil e repleta de água lamacenta encontra-se a entrada para a tumba de 2,3 mil anos de um faraó chamado Nastasen. Se eu inclinar meu pescoço bem para trás, consigo reconhecer o flanco oriental de sua pirâmide surgindo quase três andares acima de mim.

É uma manhã escaldante no deserto ao norte do Sudão, a terra de Núbia na época dos faraós. O suor pinga na máscara de mergulho em volta do meu pescoço conforme dou um jeito de descer por uma escadaria antiga e estreita no meio do leito rochoso.

Lanternas à prova d’água em cada punho e um cinto que pesa mais de nove quilos pendurado a meu peito em estilo militar. Um tubo de oxigênio de emergência, menor que um spray para cabelo, está desconfortavelmente preso à minha lombar.

Na parte debaixo da escada, o arqueólogo e bolsista da National Geographic Pearce Paul Creasman está em pé, com a água lamacenta na altura do peito. “Hoje está bem fundo”, ele avisa. “A primeira câmara estará totalmente inundada”.

Eu e Creasman temos formação em arqueologia subaquática, então quando eu soube que ele tinha recebido uma bolsa para explorar antigas tumbas submersas, lhe telefonei e pedi para ir junto. Algumas semanas antes da minha chegada, ele entrou na tumba de Nastasen pela primeira vez, nadando pela primeira câmara, depois pela segunda e chegando à terceira e última sala, onde, muitos metros abaixo da superfície da água, viu algo parecido com um sarcófago real. O caixão de pedra parecia fechado e intacto.

Agora, Creasman desaparece dentro da água e ressurge com uma grade de aço usada para fechar a entrada da tumba. Aparentemente não é maior do que um aparelho de televisão grande.

“Esse é o tamanho da passagem”, anuncia ele. “É todo o espaço que vocês têm para entrar e sair da tumba”.

Mergulhar com tanques de oxigênio é muito complicado em um espaço tão apertado, por isso ficaremos conectados a mangueiras de 45 metros que nos fornecerão ar a partir de uma bomba barulhenta, que funciona à gasolina.

“Vou primeiro e puxo a mangueira para dentro”, diz Creasman. “Se eu não vir vocês daqui a cinco minutos, voltarei para encontrá-los”.

Concordo com a cabeça e me viro para olhar a antiga escada, onde, contra o sol nascente, se projeta a silhueta de Fakhri Hassan Abdallah, inspetor da Corporação Nacional de Antiguidades e Museus do Sudão. Ele faz um sinal de positivo para mim e sorri. Coloco o regulador de mergulho na boca. Está na hora de mergulhar sob as pirâmides.
As pirâmides de Nuri

A tumba submersa de Nastasen está situada onde era Nuri, que se estende a mais de 68 hectares de areia perto da margem leste do Rio Nilo, no norte do Sudão. Visto de cima, o que se destaca é uma cadeia de cerca de 20 pirâmides construídas entre 650 a.C. e 300 a.C. que parecem pedras preciosas formando um delicado colar.

Essas pirâmides representam os túmulos da realeza cuxita, os “faraós negros” que eram vassalos na região sul, rica em ouro do império egípcio, mas que emergiram de sua própria força durante o caos político que se seguiu ao declínio do Novo Reino. Desde aproximadamente 760 a.C. até 650 a.C., cinco faraós cuxitas governaram todo o Egito, da Núbia até o Mar Mediterrâneo, iniciando programas de construção ambiciosos Nilo acima e abaixo e reavivando práticas religiosas de um império egípcio bem mais antigo — incluindo a construção de pirâmides, nas quais os reis eram enterrados.

A maior e mais antiga pirâmide em Nuri pertence ao seu residente mais famoso: o faraó Taharqa, um rei cuxita que, no século 7 a.C. convocou suas tropas para a região norte de seu império a fim de defender Jerusalém dos assírios, rendendo-lhe uma menção no Antigo Testamento. George Reisner, egiptólogo de Harvard, visitou Nuri um século atrás para escavar as câmaras sepulcrais sob a grande pirâmide de Taharqa.

A equipe de Reisner também mapeou os monumentos funerários de Nuri, os quais incluem mais de 80 túmulos cuxitas — com aproximadamente um quarto deles sob suas pirâmides de arenito. Suas notas de campo mostram que muitas das tumbas encontradas por ele já estavam inundadas pela água subterrânea penetrando a partir do Nilo, que está nas proximidades, fazendo com que a escavação tradicional seja perigosa ou impossível.

Reisner nunca publicou os resultados de seu trabalho (um colaborador reuniu o pouco que foi documentado em um relatório publicado em 1955) e Nuri foi ignorada por quase um século. De forma precipitada — e incorreta — o arqueólogo de Harvard havia declarado que os reis cuxitas eram inferiores do ponto de vista racial e suas conquistas eram uma herança das tradições egípcias mais antigas.

Depois, em 1922, a descoberta da tumba de Tutankamon transferiu a atenção do público para o Vale dos Reis, a mais de 800 quilômetros Nilo acima, em Luxor. Nas décadas seguintes, Nuri parecia ser um sítio muito grande e complicado de se lidar. Muitas de suas tumbas estavam provavelmente submersas e, antes, ninguém nunca havia tentado praticar arqueologia subaquática no Sudão. Além disso, a antiga Núbia — atualmente o norte do Sudão — tinha vários outros sítios incríveis que deixariam os arqueólogos ocupados pelos anos seguintes.

De acordo com as notas de campo que Reisner fez há um século, sua equipe localizou e escavou a escada talhada em pedra que levava às câmaras sepulcrais sob a pirâmide de Nastasen. Um dos funcionários de Reisner entrou na tumba e, provavelmente nervoso com a água na altura dos joelhos, seguiu apressadamente até a terceira e última câmara. Lá, ele cavou um poço pequeno no canto e coletou um punhado de shabtis — pequenas estatuetas mágicas cuja tarefa era atender as necessidades do defunto após a morte. A equipe de pesquisa deixou Nuri e, por décadas, a tumba de Nastasen e a escada pela qual se chega até ela foram enterradas novamente pelas areias do deserto.

A equipe de Creasman passou a temporada de campo de 2018 e parte da temporada de 2019 escavando a escada. Ele chegou à abertura da tumba em janeiro deste ano e descobriu que a entrada agora estava totalmente submersa pela água, muito provavelmente, devido ao nível da água subterrânea que não para de subir em decorrência da alteração climática natural e induzida pelos seres humanos, da agricultura intensa perto do local e da construção de represas modernas ao longo do Nilo.
Pistas fascinantes

Quando cheguei a Nuri, Creasman havia reforçado a estreita abertura da tumba com uma grade de metal para evitar que as rochas desmoronassem e prendessem os mergulhadores nas câmaras abaixo da pirâmide. Pego impulso na grade e entro na primeira câmara. Como Creasman já havia alertado, a água chega ao teto. Cada movimento levanta uma nuvem de sedimento ultrafino que quase me impossibilita de enxergar o que está à minha frente.

Vou tateando a câmara, que tem o tamanho de um ônibus, nadando em círculos, até finalmente emergir na segunda câmara. Lá, o teto desmoronou, criando espaço para um grande bolsão de ar. Encontro Creasman içando bolsas com equipamentos em uma pilha de escombros secos e colocando lanternas em vasilhas de plástico que ondulam suavemente na água e iluminam a escuridão. Latas vazias de Red Bull servem como boias para uma corda de segurança que vai do fundo da tumba até a entrada.

Nadando através de uma abertura na rocha baixa e arredondada, entramos na terceira câmara. O sarcófago de pedra abaixo de nós é visível à luz fraca — uma visão emocionante — e identificamos o poço que foi cavado às pressas pelo nervoso funcionário de Reisner um século atrás. Nessa fase inicial do projeto, os objetivos de Creasman são demonstrar a segurança do sistema de fornecimento de ar, compilar medições básicas e escavar por completo o “poço de Reisner” para ver o que havia sido deixado para trás. Espiar dentro do sarcófago de pedra somente será possível no próximo ano.

Mas há pistas fascinantes de que a água subterrânea impediu que os ladrões de túmulos saqueassem a tumba de Nastasen. À medida que escavamos o poço de Reisner — enchendo baldes de plástico com sedimento, levando-os a nado para a segunda câmara cheia de ar, despejando o sedimento em uma peneira para encontrar artefatos — descobrimos folhas de ouro puro da espessura de um papel que provavelmente cobriam estatuetas preciosas, as quais se dissolveram na água há muito tempo. Essas estatuetas douradas seriam alvos fáceis para saqueadores e sua permanência é um sinal claro de que a tumba de Nastasen ficou essencialmente intocada.

Em nosso mergulho final, Creasman e eu flutuamos na água em silêncio na câmara posterior da tumba, pairando sobre o que pode muito bem ser o sarcófago intacto de Nastasen. Conversamos sobre a meta da equipe para 2020: escavar as câmaras sepulcrais de 2,3 mil anos submersas do faraó. É um objetivo audacioso e um enorme desafio logístico, mas Creasman está otimista.

“Acredito que finalmente temos a tecnologia para conseguir contar a história de Nuri, para preencher as lacunas do que aconteceu aqui”, afirma ele. “É um marco na história da qual sabemos tão pouco. É uma história que merece ser contada".






Vista da necrópole real núbia, em Nuri, com a pirâmide do Rei Siaspiqa (r. 487– 468 a.C.), o primeiro plano.
FOTO DE ROBBIE SHONE, NAT GEO IMAGE COLLECTION

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Paraty e Ilha Grande recebem título de Patrimônio Mundial da Unesco

Local é o primeiro sítio misto do Brasil, reconhecido por sua cultura e natureza.

Paraty e Ilha Grande, no litoral da Costa Verde, foram reconhecidas nesta sexta-feira (5), como Patrimônio Mundial. Essa é a primeira vez que o Brasil tem um sítio misto reconhecido por sua cultura e natureza.

A decisão foi anunciada às 09h27, horário de Brasília, pelo Comitê do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), durante reunião em Baku, no Azerbaijão.

Foram avaliados 28 pedidos de sítios mundiais, sendo dois mistos, e os de Paraty e Ilha Grande foram dois dos reconhecidos. Atualmente, são 22 bens brasileiros na lista de sítios de excepcional valor universal.

Com cerca de 85% da cobertura vegetal nativa bem conservada, a área do sítio misto forma o segundo maior remanescente florestal do bioma Mata Atlântica. Além da sua extensão, as diferentes fisionomias vegetais permitem a ocorrência de uma fauna e flora incomparáveis, com diversas espécies raras e endêmicas.

Com um importante acervo arquitetônico e ricas paisagens com belezas naturais, a cidade de Paraty concorre pela terceira vez.

O centro histórico se cerca de quatro áreas de conservação ambiental, que abrangem o Parque Nacional da Serra da Bocaina, o Parque Estadual da Ilha Grande, a Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul e a Área de Proteção Ambiental de Cairuçu, um território de quase 149 mil hectares.

Na Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis, são mais de 187 ilhas em um território preservado. A área abriga um sistema de comunidades tradicionais que misturam cultura e biodiversidade.

Oportunidade de crescimento

Segundo a Unesco, os Sítios do Patrimônio Mundial Natural protegem áreas consideradas excepcionais do ponto de vista da diversidade biológica e da paisagem. A proteção ao ambiente, o respeito à diversidade cultural e às populações tradicionais são objeto de atenção especial.

Os Sítios geram, além de benefícios à natureza, uma importante fonte de renda oriunda do desenvolvimento do ecoturismo.

Os investimentos que vem com o título são importantes para o crescimento da região. Em 2009, Paraty já tinha se candidatado. A cidade histórica chegou até a última etapa da avaliação, mas foi rejeitada. Na época, a orientação foi reunir mais elementos.

Em maio deste ano, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, recebeu um parecer técnico favorável ao reconhecimento dos municípios como patrimônio.

A candidatura envolveu o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), em conjunto com o Ministério da Cultura, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural — Inepac, além das prefeituras de Angra dos Reis e de Paraty.
















Lagoa Verde, na Ilha Grande — Foto: Divulgação/ Ilha Grande


Além de Ilha Grande, Paraty também recebe título de Patrimônio Mundial da Unesco — Foto: Divulgação


















Centro Histórico de Paraty — Foto: Prefeitura de Paraty
















Mata Atlântica na região de Paraty — Foto: Prefeitura de Paraty
















Igreja em Paraty — Foto: Prefeitura de Paraty




















Ilha Grande é território preservado — Foto: Eduardo Lacerda/ TG

domingo, 16 de junho de 2019

Primo gaúcho do Museu Niemeyer, prédio em formato de olho ficou quase uma década no centro de Porto Alegre

Projetado pelo arquiteto Marcos Heckman em 1958, construção foi o pavilhão de Exposições do Governo do Estado do Rio Grande do Sul

Sentir-se observado ao caminhar pela rua foi uma constante para quem circulava pela Avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre, na década de 1960. Na esquina com a Rua General Andrade Neves, um prédio em formato de olho capturava a atenção dos pedestres, destacando-se em meio às construções convencionais do entorno. 

A edificação, uma espécie de prima gaúcha do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, foi o pavilhão de Exposições do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Projetado pelo arquiteto Marcos David Heckman em 1958, o prédio em madeira é anterior ao emblemático museu do Paraná, mas também foi inspirado no trabalho do arquiteto mais famoso do Brasil. Concebido por Niemeyer em 1954, o auditório do Liceu Belo Horizonte, em Minas Gerais, foi a principal referência de Heckman para a obra porto-alegrense. 

Apesar de remeter ao formato de um olho, foi apelidado de acordo com as referências da época: ficou conhecido como Mata-Borrão. A base da construção tinha formato de barco, semelhante ao instrumento utilizado para absorver o excesso de tinta do papel antes das canetas esferográficas. 

— Era para ser uma estrutura temporária para abrigar exposições do governo do Estado, mas ficou ali por um bom tempo. Era muito diferente de tudo o que se tinha visto até então — recorda a arquiteta Anna Paula Canez, autora do artigo Mata-Borrão: um grande olho de madeira no centro da Porto Alegre da década de 1960. 

O prédio, localizado onde hoje fica o Tudo Fácil, foi demolido no final dos anos 1960. Professora da UFRGS, a arquiteta só tomou conhecimento dele nos anos 2000 — mais tarde, lembrou de ter visitado o local quando criança. Lecionava na Uniritter quando, em um acervo fotográfico, deparou com uma foto noturna do grande olho iluminado. Impressionada com a beleza da imagem, foi atrás de Heckman, que, inicialmente, negou a autoria. 

— À noite, era lindo, parecia que flutuava. O Heckman tinha uma referência presente da obra do Niemeyer, mas se incomodava com a comparação. Mas é um prédio diferente, feito em outro material. Quando voltei a procurá-lo, ele admitiu — conta a professora. 

Diferente da solução proposta pelo arquiteto carioca, que projetou a construção pousada sobre o solo, o Mata-Borrão ficava levemente ancorado por pilares de madeira e pela rampa de entrada, deslocada do centro. À noite, as estruturas eram apagadas pela escuridão, ficando em evidência apenas o olho. Dotado de múltiplas janelas de vidro, o edifício com as luzes acesas tornava-se um ponto brilhante, destacado na Avenida Borges de Medeiros. 

A opção pela madeira, além de mostrar-se mais econômica e fácil de desmontar, fazia alusão às realizações do então governador Leonel Brizola na área educacional. Conhecidas como “brizoletas”, diversas escolas erguidas durante sua gestão foram construídas com esse material.

— Acho que o arquiteto acertou, foi ousado na forma e cumpriu com o propósito de abrigar as exposições. Ficou na memória de quem viveu, e quem não viveu e vê as imagens daquela época quer saber como aquela nave pousou no centro de Porto Alegre — diz Anna Canez. 

Construção quase deu lugar a prédio de Niemeyer

Depois de abrigar por quase uma década com uma construção que lembrava a obra de Niemeyer, o terreno da Avenida Borges de Medeiros chegou muito perto de ter uma edificação projetada pelo arquiteto carioca.

O projeto de um prédio em estilo modernista para a área estava pronto quando foi barrado pela prefeitura de Porto Alegre. À época, o poder público municipal julgou que a proposta de Niemeyer destoaria das demais construções da Borges de Medeiros. 

— Por coincidência, houve esse projeto para aquela área. Era de uma arquitetura elegante, mas a prefeitura achou que era moderno demais. No fim, foi construído um prédio quadrado — lamenta a professora da UFRGS. 

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/porto-alegre/noticia/2019/06/primo-gaucho-do-museu-niemeyer-predio-em-formato-de-olho-ficou-quase-uma-decada-no-centro-de-porto-alegre-cjwl5s14v03of01qtfxj1waie.html

















Prédio foi pavilhão de exposições do governo do Estado
ACERVO JOÃO ALBERTO / UNIRITTER


Prédio sediou "comitê de resistência democrática" durante a crise da legalidade, em 1961
Jornal Última Hora / Agencia RBS








Projeto do prédio construído em 1958
Hélio Ricardo Alves / Reprodução







O cenário do "mata-borrão" em meio aos demais prédios do centro de Porto Alegre

ACERVO JOÃO ALBERTO / UNIRITTER







Pavilhão também foi centro de imprensa durante a universíade de 1963
Reprodução / Reprodução









O Olho de Niemeyer em Curitiba - Museu Oscar Niemeyer.
Fotos Carlos Renato Fernandes