sábado, 8 de fevereiro de 2020

Série Cerro do Jarau Parte III: O que pontos turísticos do Cerro do Jarau revelam sobre o passado dos gaúchos

Furna que leva até a moura encantada é uma das principais atrações do local, mas há também espaços que explicitam costumes do povo do RS.

A principal atração do Cerro do Jarau, em Quaraí, no oeste do Estado, é a furna por onde seria possível, segundo a lenda, chegar até a moura encantada. Localizada em uma encosta, perto do cume de um dos morros mais altos do conjunto, trata-se de uma gruta de pouca profundidade, com uma fenda comprida e estreita no fundo, abrindo-se para a escuridão das entranhas do morro.

Apesar da fama, não é um lugar muito visitado. Quem tem tentado mudar isso é a empresária do turismo Kátia Lagreca Schmidt, 52 anos, que oferece passeios agendados no local. Kátia e o marido, Guilherme Casapina Schmidt, 53 anos, são donos da Estância Santa Rita do Jarau, que abrange uma parte do cerro. Ela fez parceria com outros proprietários para franquear o acesso de turistas. A própria Kátia serve de guia, conduzindo os visitantes por estradas de chão, cruzando sangas e escalando encostas pelas trilhas mais acessíveis, até o topo dos morros, de onde se descortina o panorama em 360º das vastas planícies.

— Somos do Alegrete. Antes de vir morar na estância, uns 15 anos atrás, eu não tinha a menor ideia sobre o cerro. Quando cheguei, achei lindíssimo, me apaixonei pela paisagem e comecei a saber mais da história — conta Kátia.

Em dezembro, a empresária e o marido percorreram o local com a equipe de GaúchaZH, acompanhados da professora de história Ana Fritz da Silva, 41 anos, e do professor de geografia Jader Vilaverde Carvalho, 30 anos, que chamou a atenção para a vegetação peculiar existente na pedregosa zona do cerro.

— É uma vegetação típica de zona de agreste, de pouca precipitação e solo bastante duro. Algumas dessas plantas são xerófitas, que conseguem se adaptar ao clima seco. São plantas diferentes das que encontramos na região — observou.

Em um conjunto de notas que acompanham a lenda da Salamanca, João Simões Lopes Neto afirma que "o célebre caudilho Bento Manuel deveu a sua sorte guerreira, política e de fortuna ao conchavo que ajustou na salamanca do Jarau". Dono de vastas terras que incluíam toda a zona, sesmarias obtidas pelos serviços prestados ao Império, Bento Manuel Ribeiro (1783-1835) tornou-se célebre por trocar de lado várias vezes durante a Revolução Farroupilha. Por ter sido "embruxado" pela teiniaguá, dizia-se, escapou ileso das incontáveis batalhas e morreu de velhice.

Na recente incursão pelo local, Kátia Lagreca percorreu os matagais do sopé do cerro em busca das ruínas da estância de Bento Manuel, que não visitava havia anos. O que se conta é que, nos momentos de perigo, o general deixava sua casa no Alegrete e se refugiava na estância, que, protegida pelos morros, oferecia condições ideais para a defesa.

— A estância era um forte, bem protegido. Ele mantinha vigilantes no alto do morro, que ficavam de sentinela, para que ele não fosse atacado na calada da noite ou sem estar preparado — explicou a professora Ana Fritz da Silva.

Depois de alguma procura, dificultada pelo mato fechado, os sinais da antiga estância apareceram: um resto de alicerce, um pedaço de parede e grossos muros de pedra, que se estendiam em linha reta por 15 ou 20 metros, com extensões perpendiculares mais curtas saindo das duas extremidades. Em uma seção do muro, um figueira cresceu. Ela levantou as pedras, que ficaram amalgamadas no tronco.

Por ali, Guilherme viu algo rebrilhar no chão e abaixou-se para pegar. Era a parte inferior de uma garrafa, de vidro fosco e espesso, com um acabamento algo rudimentar.

— Acho que é de vinho, de repente do tempo do Bento Manuel — especulou o proprietário rural.


Não é impossível. Na base da garrafa, podia-se ler a inscrição CW&Co, que uma pesquisa posterior na internet indicou tratar-se de uma fábrica norte-americana ativa no século 19, cujas garrafas chegam a valer centenas de dólares hoje em dia.

Ruínas da estância

Cerca de 2 mil objetos foram encontrados nas ruínas por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Um dos participantes do projeto, para um mestrado defendido em 2001 na Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), foi o arqueólogo Flamarion Freire da Fontoura Gomes, 45 anos. Ele observa que a estância é um dos sítios arqueológicos mais extensos do Estado, com 33 hectares de área construída, às vezes subindo morro acima.

Esse complexo, de arquitetura rústica e espaços sombrios, era composto por residência, galpões, mangueiras, currais, cacimba e cemitério. Muito distante de qualquer outra povoação, precisava ser um núcleo autônomo, daí a existência de espaços para produção de farinha, de velas e de sabão.

Uma das constatações que chamaram sua atenção foi o caráter de fortaleza da estância, inclusive com prejuízo para a atividade econômica principal, a pecuária. O solo repleto de afloramentos pedregosos, herança do impacto do meteoro, não é adequado para a pastagem. 

A escolha do local, portanto, teria motivação estratégica.

— Era um local isolado, a ponta da fronteira, com toda uma estrutura militar e preocupações com a defesa. Ficava no pé do cerro justamente por proteção e para permitir visualizar a distância qualquer movimentação de alguém chegando. Se fosse avistado algum inimigo, dava para tentar fugir com o gado, que era a principal riqueza. Também havia mangueirões muito altos, de pedra, que não faziam sentido para gado. Era mais um quartel do que uma moradia, ainda que houvesse uma família ali — afirma Flamarion.

As ruínas do Cerro do Jarau revelaram muito mais do que isso, descortinando informações sobre a sociedade e o cotidiano gaúchos que, em vários aspectos, estão em contradição com crenças arraigadas a respeito de nosso passado.

— Fomos atrás do que as ruínas podiam nos informar a respeito do período, porque um dos problemas da história do Rio Grande do Sul é que ela acaba sendo recontada de uma maneira nostálgica, construída dentro de uma visão muito romântica. Havia, por exemplo, a ideia do gaúcho como um biotipo único, independentemente da posição de patrão ou de peão. E o que nós concluímos é que havia toda uma multiplicidade de gentes que viviam ali — observa o arqueólogo.

No cemitério, por exemplo, foram encontrados muitos sobrenomes espanhóis, evidenciando a presença castelhana. Os registros também apontaram uma presença maciça de negros – famílias inteiras de escravos vindas de diferentes partes da África –, em geral pouco lembrada na Fronteira Oeste. E, claro, havia muitos índios na estância, com uma particularidade:

— Havia indígenas que, na documentação, se declaravam como escravos. Por exemplo: alguém se apresentava como "José, índio guarani e escravo". Isso é uma coisa que a gente nunca viu na história do Rio Grande do Sul — revela Flamarion.

O arqueólogo também detectou o papel central das mulheres. Quando espocavam os conflitos – o que era quase sempre –, os peões viravam soldados e partiam para os campos de batalha. A estância ficava inteiramente em mãos femininas, que tomavam conta das atividades econômicas.

Como registra Simões Lopes Neto nas linhas finais da lenda da salamanca, até mesmo Anhangá-Pitã, o diabo-vermelho, incorreu em erro por não tomar "tenência de que a teiniaguá", a guardiã dos tesouros do Jarau, "era mulher".

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/01/o-que-pontos-turisticos-do-cerro-do-jarau-revelam-sobre-o-passado-dos-gauchos-ck62j9i5v0d4e01mvfu94peam.html

















Pequena gruta perto do cume de um dos morros mais altos do cerro é a “porta de entrada” para toda a mitologia do lugar
Félix Zucco / Agencia RBS




O muro da estância de Bento Manuel: há marcas do passado preservadas no sítio de Quaraí
Félix Zucco / Agencia RBS




Elevação formada por pedras foi usada para proteger a propriedade de Bento Manuel Ribeiro, personagem histórico da Revolução Farroupilha
Félix Zucco / Agencia RBS

Série Cerro do Jarau Parte II: Da lenda da Salamanca do Jarau a Simões Lopes Netos: as histórias consagradas do famoso cerro em Quaraí

Com características muito peculiares no cenário pampiano, é natural que formação rochosa ganhasse uma aura mítica.

Por suas características únicas no cenário pampiano, é natural que o Cerro do Jarau, em Quaraí, no oeste do Estado, ganhasse uma aura mítica. Assim, no imaginário local, acabou fundindo-se com tradições indígenas e antigas histórias ibéricas sobre mouras encantadas para dar origem à famosa lenda da Salamanca do Jarau, esteio da cultura rio-grandense. No século 19, essa lenda foi recolhida em livro por pesquisadores do folclore platino e inspirou João Simões Lopes Neto (1865-1916) a compor uma versão reestilizada, publicada no clássico Lendas do Sul (1913).

É essa versão, na qual o autor pelotense inseriu o personagem Blau Nunes, que ficou consagrada.

O conto trata de uma linda princesa moura da cidade espanhola de Salamanca que, transformada em "fada velha", fugiu para o outro lado do oceano. Nos pampas, foi transformada por Anhangá-Pitã, diabo vermelho dos indígenas, na teiniaguá – uma lagartixa com uma pedra cintilante no lugar da cabeça. "Aqui está tudo que eu sei, que a minha avó charrua contava à minha mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros que, esses, viram", relata Blau Nunes.

A lenda envolve também um sacristão da cidade de São Tomé, nas missões jesuíticas, que um dia encontrou a lagartixa e capturou-a, sabendo que "quem prendesse a teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo". Ele passou a cuidar da princesa encantada, alimentando-a com mel de lexiguana. No quarto trancado do sacristão, a lagartixa virou gente. "Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça! (...) Cada noite era meu ninho o regaço da moura", rememora ele, muito depois, num encontro com Blau Nunes diante do Cerro do Jarau.

Um dia, o sacristão roubou o vinho da missa e embebedou-se com a princesa. Quando acordou, estava cercado pelos padres jesuítas. "Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame; condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira", relata.

Na hora da execução, com os urubus já fazendo baixo a sua contradança, apareceu a teiniaguá, "fogachando luminosa como nunca", e resgatou o sacristão, levando para o Jarau. No cerro, por duzentos anos, o sacristão serviu de guardião junto a uma furna, sem comer ou dormir, vítima de um encantamento. Lá dentro do morro, em um palácio maravilhoso, repleto de tesouros, vivia a teiniaguá.

Instado pelo sacristão a quebrar o feitiço, Blau entra pela furna, "a boca da toca", e avança para dentro do cerro. Vence sete provas, até encontrar "uma velha, muito velha, carquincha e curvada", que pela proeza permite-lhe escolher entre as maiores riquezas e poderes. Ele recusa tudo e diz à velha:

— Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim...

Uma escuridão caiu e Blau Nunes viu-se de novo do lado de fora do Jarau. Quis entrar de novo pela furna, "mas bateu coo peito na parede dura do cerro". Já não havia "fresta, nem brecha, nem buraco". Apareceu-lhe o sacristão, com um presente, uma moeda furada mágica, que gerava moedas infinitas, mas só uma de cada vez.

A onça de ouro fez de Blau um homem rico, mas não feliz. Ele voltou ao cerro para devolvê-la ao sacristão. "Neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que retumbou naquelas vinte léguas em redor; o Cerro do Jarau tremeu de alto a baixo, até as suas raízes, nas profundas da terra, e logo, em cima, no chapéu do espigão, apareceu, cresceu, subiu, aprumou-se, brilhou, apagou-se, uma língua de fogo, alta como um pinheiro, apagou-se e começou a sair fumaça negra, em rolos grandes (...). Era a queima dos tesouros da salamanca." Blau viu a velha transformar-se em teiniaguá e a teiniaguá em princesa. De mãos dadas, ela afastou em "viagem de alegria" com o sacristão. O encantamento estava desfeito. "Assim acabou a salamanca do Cerro do Jarau, que aí durou duzentos anos, que tantos se contam desde o tempo das Sete Missões, em que estas cousas principiaram", conclui Lopes Neto.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/01/da-lenda-da-salamanca-do-jarau-a-simoes-lopes-netos-as-historias-consagradas-do-famoso-cerro-em-quarai-ck62iu21p0f7c01qd68k6pvyj.html





















Representação da Salamanca do Jarau em gravura de Zoravia Bettiol
Reprodução / Ver Descrição

Série Cerro do Jarau Parte I: Veio do espaço: você sabe como se formou o Cerro do Jarau, famoso por lenda e da era dos dinossauros?

Há apenas oito formações do tipo no Brasil e uma centena e meia no mundo. Conheça essa história extraordinária gaúcha e seu impacto na contemporaneidade

Para qualquer ponto cardeal que se olhe estendem-se as planícies, sem fim como um mar. São campos verdejantes e levemente ondulados, derramados por léguas incontáveis, cruzando a fronteira, avançando por Uruguai e Argentina. É assim o pampa.
No meio dessa larga monotonia surge num susto, sem coerência ou aviso, uma fileira de 11 morros de rocha alva torcida e retorcida, formando um arco de cinco quilômetros e que atinge os 200 metros de altura. Uma espigada aparição no oceano de gramíneas: eis o Cerro do Jarau.

Localizado em Quaraí, no oeste do Rio Grande do Sul, esse monumento de pedra reúne em si singularidade geológica, ressonância mitológica e riqueza histórica. Sua contrastante estranheza na geografia do pampa, descobriu-se há pouco, deve-se ao impacto de um meteoro, na era dos dinossauros. Muito depois, inspirou a lenda da teiniaguá, a "Salamanca do Jarau", alicerce do folclore gaúcho e tema de autores como João Simões Lopes Neto e Erico Verissimo. No século 19, tempo de revolução e guerras com os castelhanos, abraçou em seu regaço circular a estância-fortaleza de um dos caudilhos mais controversos do período farroupilha, o vira-casaca Bento Manuel Ribeiro.

A confirmação de que o cerro é um "astroblema" – ou seja, que surgiu a partir do impacto de um meteoro – veio nos últimos anos, pela mão de pesquisadores paulistas. Em 2014, a campinense Joana Sánchez, especialista em crateras de impacto, defendeu na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) uma tese de doutorado que apontava essa origem, asserção reforçada por trabalhos de outros cientistas.

É uma descoberta e tanto. 

Há apenas oito formações do tipo no Brasil e uma centena e meia no mundo. Atualmente professora do curso de geologia da Universidade Federal de Goiás, Joana, 37 anos, concluiu que o meteoro tinha 500 metros e trombou com o atual território quaraiense cerca de 65 milhões de anos atrás.

— Era raro cair um meteorito desse tamanho, e hoje em dia não acontece mais, porque a atmosfera da Terra ficou diferente. Quando chega à superfície, um meteoro está muito diminuído. No passado, eram eventos que causavam destruição geral no planeta. A extinção dos dinossauros, por exemplo, ocorreu pela queda de vários meteoritos, e um deles foi o que levou à formação do Cerro do Jarau — explica a geóloga.

Quando Joana começou sua investigação, que incluiu medições e análises geoquímicas, a origem espacial era uma suspeita, baseada na morfologia. Os morros formam um semicírculo e são, no pampa inteiro, a única serra levantada. Em uma zona só de pedra deitada, apresentam rochas com orientação vertical. São características sugestivas de um grande impacto.

O meteorito chocou-se no terreno de basalto e algum granito, explodiu e converteu-se em uma colossal nuvem de poeira. A temperatura e a pressão eram tão altas que as ondas de choque deformaram as rochas nas bordas – em um efeito parecido ao que se vê quando uma pedra é jogada na água. Formou-se uma cratera e, ao redor dela, levantaram-se os cerros.

— Mapeei a borda toda dessa estrutura e comprovei que é circular, com fraturas radiais, o que é uma das feições que caracterizam impacto. Encontrei várias estruturas muito deformadas, o que comprovava que ali houve uma coisa que em todo o redor não aconteceu. É uma deformação visível a olho nu. A rocha dobrou ali, e só ali — diz a professora.

Joana já estudou quatro dos oito "astroblemas" brasileiros e especializou-se no assunto, mas considera que o exemplar gaúcho tem algo de especial.

— O que eu acho lindo no Cerro do Jarau é que ele tem a lenda associada — explica.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/01/veio-do-espaco-voce-sabe-como-se-formou-o-cerro-do-jarau-famoso-por-lenda-e-da-era-dos-dinossauros-ck62i88t10d3c01mvyy8i7nsr.html

Fileira de 11 morros de rocha alva torcida e retorcida: eis o Cerro do Jarau
Félix Zucco / Agencia RBS







Morros formam um semicírculo e são, no pampa inteiro, a única serra levantada
Félix Zucco / Agencia RBS

domingo, 2 de fevereiro de 2020

O que são as paleotocas, misteriosas cavernas pré-históricas que são encontradas no RS

No entardecer de uma sexta-feira de 2008, em meio ao trânsito pesado da BR-116, o professor de geologia Heinrich Frank avistou uma feição estranha à margem da rodovia, nas imediações de Novo Hamburgo. Era um buraco, escavado em rocha sedimentar rígida, a pouco mais de um metro do chão. Frank ficou intrigado.

Alguns dias depois, passando pelo local com a família, estacionou e pediu que o esperassem. Caminhou até a formação, examinou-a e percebeu tratar-se de um túnel. Mais adiante, guiado por moradores do entorno, deparou com outro, dotado de uma boca de um metro e 40 centímetros. 

Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), às vésperas de defender sua tese de doutorado sobre ocorrências minerais associadas ao basalto, Frank não era capaz de explicar o que tinha diante dos olhos. Nenhum processo geológico conhecido justificava a existência daqueles túneis. 

— Os buracos não deveriam estar ali — afirma o professor de 59 anos.

Pouco mais de uma década depois, Frank já identificou cerca de mil ocorrências do mesmo tipo em território gaúcho, as maiores delas cavernas que chegam a quatro metros de largura e quase 40 metros de comprimento. Outras, de circunferência menor, estendem-se por mais de 100 metros. E ele já sabe do que se trata. São tocas de animais pré-históricos.

Abertas por preguiças-gigantes e tatus-gigantes, espécies da megafauna que se extinguiram cerca de 10 mil anos atrás, as chamadas paleotocas foram identificadas com abundância em todo o Estado. Em Erechim, por exemplo, Frank foi chamado porque durante a construção de uma residência apareceu um túnel de 50 metros de comprimento dentro da rocha. Era toca. O professor pediu ao proprietário que tentasse preservá-la. Graças a isso, basta remover a máquina de lavar roupa, na área de serviço do imóvel, para ter acesso ao buraco.

O curioso é que, fora do Rio Grande do Sul, as paleotocas só são encontradas em quantidade no território catarinense. Já foi achada alguma coisa também no Paraná, em Minas Gerais e na Argentina – e é praticamente tudo o que há. Embora as criaturas que as cavavam estivessem espalhadas pelas Américas, parecem não ter deixado rastro em outras regiões.

Por algum motivo ainda não explicado, o Rio Grande do Sul revelou-se nos últimos anos um raro santuário desse patrimônio, com Frank no centro do seu estudo. 

— A esta altura do jogo eu diria que é exclusivo da América do Sul e mais concentrado na nossa região. Não sei como é que não se achou isso antes. Porque está ali, é muito óbvio. Temos os maiores túneis do mundo. E ninguém conhecia. Provavelmente os paleontólogos clássicos não conseguiam imaginar que essa coisa pudesse existir, e por isso veio um professor de mineralogia e começou a mexer com o assunto — diz ele.

Como não é possível datar um buraco, o pesquisador utiliza como referência o período em que viveram seu possíveis construtores – o que iria dos 10 mil até milhões de anos atrás. Depois de uma década de trabalho, ele identificou quatro tipos de tocas. As menores têm cerca de 50 centímetros de largura e, pelo tamanho, são atribuídas a tatus pré-históricos, que podiam passar dos 250 quilos.

Depois há túneis com quase um metro e meio, que Frank crê serem de alguma espécie de preguiça-gigante, mas que também poderiam ser de tatus. Há ainda as maiores, com dois metros de altura e três ou quatro de largura, de preguiças de grande porte. O professor também encontrou dois exemplares de um outro tipo de abrigo, de configuração diferente. 

— Não são túneis, são dormitórios interligados por túneis curtos. Você tem formas elípticas, tipo um ovo, com um metro e 50 centímetros de altura e até 10 metros de diâmetro, as paredes absolutamente lisas e côncavas. Pela disposição, seria de um outro tipo de preguiça, mais raro — descreve.

O "filé mignon"

Semanas atrás, o geólogo conduziu uma equipe de GaúchaZH em uma expedição à maior das paleotocas gaúchas, situada em uma propriedade rural de Boqueirão do Leão, município do Vale do Rio Pardo. Ao longo de todo o caminho, ele deu demonstrações de que enxerga o mundo de uma forma singular, vendo o que os outros não veem. A cada tanto, estacionava o veículo no acostamento da BR-386 e desembarcava para mostrar em um barranco ou talude alguma obra de tatu-gigante ou os resquícios de um arroio que correu no local milhares de anos atrás — desenhos na rocha pelos quais milhares de pessoas passam todos os dias, sem suspeitar de que tenham qualquer significado especial.

Uma das paradas foi no quilômetro 376, onde uma praça de pedágio estava em obras. Frank desceu do carro, empunhou uma câmera fotográfica e pinçou uma escala do meio dos equipamentos que enchiam o porta-malas. Depois, cruzou as duas faixas da BR e se embrenhou no lamaçal ao lado da pista, para se aproximar de um talude recém-cortado, que fizera o barranco recuar alguns metros. 

Esse tipo de intervenção no terreno é uma espécie de filé mignon no trabalho do pesquisador. Obras em estradas costumam significar escavações, com retirada de fatias dos barrancos, expondo rocha nua. É nesse tipo de corte que Frank encontrou e documentou centenas de paleotocas.

— Via de regra, você tem uma colina e as tocas entrando. Aí, com o tempo, vão se tapando as entradas das tocas, e elas não ficam visíveis. Um dia, chega uma terraplanagem qualquer e corta fora uma fatia da colina. Então, você tem acesso ao que sobrou da paleotoca. Algumas vezes está aberta, noutras está preenchida, e você só vê a mancha escura no paredão. A mancha escura é o preenchimento da toca. 

De olho nesses cortes, o geólogo mapeou nada menos do que 200 tocas durante a duplicação da BR-116. Algumas chegavam a ter um metro e meio de largura e 15 estavam abertas, permitindo uma exploração do interior.

O projeto já ocupa o pesquisador por três anos e vai continuar até a obra viária ser concluída. Todo mês, Frank apanha o automóvel e percorre a via, de olho em colinas recém-escavadas. No final do trabalho, planeja publicar um artigo com um levantamento completo das tocas pré-históricas descobertas na rodovia. Para o professor, a duplicação da estrada representa uma chance ímpar: 

— Temos de reconhecer oportunidades que são únicas na vida da gente. A duplicação da BR foi uma dessas. Nunca mais vamos ter acesso a tal quantidade de taludes recentes na região. É uma oportunidade para pesquisar paleotocas que nunca mais vou ter na vida. 

No arenito recém-cortado do quilômetro 376 da BR-386, Frank dirigiu-se até uma espécie de cratera no talude. Posicionou a escala junto à abertura e fez fotos. O buraco tinha cerca de 50 centímetros de largura.

— Não foi feito pela máquina que cortou a colina, porque não tem escarificações. Também não é da água da chuva, porque não existe erosão em cima. Está feia, mas é uma toca, com certeza. Com meio metro, é de tatu-gigante — concluiu. 

Em breve, o corte recente à margem da rodovia seria coberto por leivas, e a paleotoca desapareceria das vistas, mas não dos registros do professor. Neles, junto com centenas de outras, ela estaria catalogada, com fotos, medições e coordenadas. 

Trata-se de um patrimônio único, testemunha de formas espantosas de vida que caminharam pela Terra em eras passadas. Nesse sentido, não deveria ser preservado? Mais de uma vez, promotores do Ministério Público procuraram Frank para colocar essa questão. Mesmo apaixonado pelas paleotocas, o professor desencorajou a ideia de declará-las sítios paleontológicos:

— É um patrimônio importante, que a gente deveria tentar preservar, na medida em que aparece aberta, mas eu disse: "Olha, se a gente começar a fazer isso, não construímos mais nada e não duplicamos mais rodovia nenhuma no Rio Grande do Sul, porque está tudo cheio". O que dá para fazer é tirar foto, medir e botar GPS, documentando toca por toca e depois publicando os resultados.

Antes de chegar a Boqueirão do Leão, o geólogo deixou a 386 e embocou por via secundárias até estacionar diante da paróquia de Catupi, localidade do interior do Triunfo. Nos fundos da igreja, em meio ao mato, mostrou uma extensa cratera. Ali, explicou, a erosão fez parte do teto de uma paleotoca desabar, revelando o túnel. 

— Quando jogam um copo de plástico aqui no buraco, tempos depois ele sai na outra ponta do túnel, a 130 metros daqui, lá embaixo — apontou Frank.

A toca dos índios

A escala seguinte já foi em Boqueirão do Leão, mas, antes de dirigir-se à maior paleotoca do Estado, o professor fez uma parada na Mecânica Mantovani, na zona urbana do município. Não estava precisando de nenhum reparo no veículo. Enquanto os mecânicos trabalhavam a três ou quatro metros de distância, ele mostrava um buraco num paredão de pedra vulcânica, no pátio da oficina. Era, claro, mais uma toca pré-histórica. 

O grand finale, a capela sistina das paleotocas, ainda estava a alguns quilômetros de distância, percorridos em estrada de chão. A caverna fica na propriedade rural de Laudir Ogliari, 73 anos, e Bernardina Ogliari, 72 anos, casados há mais de meio século. Eles receberam o professor na varanda da casa de madeira, diante de sua plantação de fumo.

Amigos de infância, Laudir e Bernardina contaram que nos tempos de meninice costumavam brincar – e também brigar – na caverna.

— Sei dessa gruta desde que me conheço por gente. A gente dizia que era a toca dos índios. Ali juntava a gurizada — disse Laudir. — Nós já nos gostávamos desde crianças. Brincávamos ali porque não tinha outro lugar — acrescentou Bernardina.

Na década de 1960, a gruta virou assunto por causa de um morador da região que tinha mania de cavar tudo em busca de tesouros. O homem colocou na cabeça que antigos jesuítas haviam escondido ouro no local e passou uma temporada cavoucando e danificando as paredes com golpes de picareta – episódio que, toda vez que é evocado, provoca em Frank uma incontida indignação e a soltura de alguns impropérios.

Segundo Laudir, o caçador de tesouros foi o culpado por estragar a entrada da caverna, que antes era perfeitamente redonda. 

— O velho até foi apelidado de tatu-do-rabo-mole, que é o bicho que mais cavouca. O que ninguém pensava, na região, era que a gruta dos índios pudesse ser uma toca, e ainda mais escavada na pedra por um bicho. 

Então apareceu Frank. Depois de começar a pesquisar os túneis da megafauna, o professor desenvolveu estratégias variadas para localizá-los. Um deles, claro, consistia em examinar escavações para obras. Na construção de um condomínio em Nova Santa Rita, por exemplo, identificou 35. Outra técnica era dirigir-se ao centro de cidades pequenas, encontrar o local onde os idosos reúnem-se para jogar conversa fora, apresentar-se e perguntar se há na região algum buraco ou gruta. Mas havia um jeito ainda mais simples: procurar na internet. Frank já achou paleotocas até mesmo bisbilhotando vias do Interior com o "street view" do Google Earth. Em geral, pesquisava termos como "buraco dos índios" ou algo parecido (a celebre Gruta dos Índios de Santa Cruz do Sul, atestou ele, é uma toca de preguiça).

Depois, ia até os locais sobre os quais encontrava referências, para vistoriá-los. Muitos era paleotocas. Foi dessa maneira que ele soube da caverna de Boqueirão do Leão, por volta de 2010. Viu fotos na rede e disse: "Isso só pode ser toca".

Dias depois, bateu à porta de Laudir e Bernardina. O proprietário achou estranha a história. 

— Então o senhor é o professor dos loucos? — provocou. 

— Não, os loucos são outra equipe — respondeu Frank. 

Laudir deu licença e Frank passou dias, acompanhado por alunos, removendo barro do interior da caverna, para poder estudá-la. Dias atrás, habituado a visitar o local, carregou-se de apetrechos e guiou a equipe de GZH em meio a plantações, mato e uma pinguela até chegar a uma colina de arenito. No alto dela, escondida atrás da vegetação, estava a caverna, com uma abertura de dois metros de altura e quatro metros de largura, dando para um amplo salão, que depois se afunilava e serpenteava para dentro, até perder-se na escuridão.

— Olha o que é isso! Que negócio impressionante! — disse o professor.

As paredes e o teto do salão estavam repletos de inscrições, muitas delas nomes de visitantes e datas. Mas também há marcas que o professor suspeita serem de antigos indígenas, como sulcos que podem ter servido para afiação de ferramentas e ranhuras que formam o que parece ser um desenho do sol. Na parede da direita, há junto ao solo uma passagem vertical estreita, que dá acesso a outra toca, também de grandes dimensões. 

Esguio, Frank já entrou nela em diferentes ocasiões, mas desta vez não foi possível – estava inundada. Depois do salão principal da gruta, o túnel faz uma curva e fica mais baixo e estreito, em parte por causa de terra que entrou, provavelmente em alguma grande enchente de tempos remotos. Não é possível seguir a pé, mas de joelhos. A largura é a original, cerca de 1,5 metro, o que seria o tamanho do corpo das preguiças-gigantes. No final, surge um outro salão amplo e arredondado, com três metros de largura e 1m50cm de altura, o dormitório dos animais. Frank apaga a luz da lanterna e a escuridão é total. Não se filtra a menor réstia de luz desde o lado externo. 

O futuro das tocas 

A tese do professor é de que vários animais, talvez quatro ou seis, morassem na toca. Escavada em arenito duro, ela seria obra de sucessivas gerações de grupos de preguiças. Um único bicho não teria condições, com suas garras, de realizar uma obra tão portentosa – afinal, cada metro cúbico de rocha são duas toneladas:

— O negócio é extremamente duro. Eles escavavam no arenito, que é o que me deixa mais impressionado, e não na terra, porque terra desaba, infiltra muita água. 

Frank chama a atenção para as paredes perfeitamente lisas.

— O teto é completamente liso porque os bichos entravam e saíam durante décadas e séculos. Essa coisa lisa não tem processo geológico que crie dentro de uma antiga duna. Se aqui fosse basalto, poderia ser um túnel de lava. Mas não é basalto. E é horizontal, sinuoso. É coisa muito óbvia. Não tem como ser outra coisa. É uma toca. O pessoal fala muito em gruta do índio, mas tem de lembrar que índio não tinha ferramentas de ferro, e com uma ferramenta de basalto não se escava isso — explicou.

Além disso, em algumas reentrâncias, sinais concretos da passagem dos animais resistiram, caso de marcas de garras na parede, que são iluminadas pelo professor. Enquanto Frank exibia os fundos da toca, ouviram-se sons vindos da entrada da caverna. Eram as primas Larissa Martini, 14 anos, e Lauane Ogliari, 10 anos, netas de Laudir. Fascinadas pela gruta, elas aguardaram durante longo tempo junto ao salão. Quando Frank emergiu, receberam uma aula.

— Na época dessa toca, tinha camelo aqui na América e na África. Tinha elefante aqui e lá. Tinha tigre aqui e lá. Lembram o Diego, de A Era do Gelo (filme de 2002)? Então, era um tigre que existia aqui. O que a gente até hoje não sabe é porque os grandes bichos daqui morreram, e os da África continuam.

— Meu avô falou que é por causa da Arca de Noé — atalhou Lauane.

— Isso o pessoal fica falando... Então, essa megafauna tinha bichos que podiam cavar, como o tatu-gigante e a preguiça-gigante. O tatu-gigante chegava a 270 quilos, o que é igual a um porco muito grande. Um bicho assim não precisa de um túnel com dois metros de altura. Aí entra o outro bicho que podia cavar, que é a preguiça-gigante. Não é tipo essas preguiças de hoje, que sobem em árvore, mas é uma preguiça do tamanho de um urso, ou até maior, com umas garras que parecem uma picareta. Você tem as marcas de garra na parede da toca. Assim a gente conclui que essa toca é de preguiça-gigante. Tinha preguiça do tamanho de um elefante, que é o megatério. Essa aqui era menor, mas era uma baita preguiça, uma tonelada de preguiça. Aí você junta quatro, cinco ou seis, todos os dias entrando e dormindo lá no fundo. Por isso o teto é liso, as costas esfregando no teto. E esse é um lugar muito bom. É o local ideal para o bicho. Corre o rio perto, mas cinco metros para baixo. Se o rio enche, a toca não inunda. Está acima do nível das enchentes. E pega o sol da tarde, o que é favorável no inverno. 

— Aqui é frio — comentou Lauane.

— É fresquinho. Entra lá pra dentro, e o clima é muito bom. Então tem muita toca por aí. Esta é a melhor toca. A mais bem preservada do Estado. 

— Na escola, o professor mostrou livros que tinham fotos da toca — comentou Larissa, com orgulho.

Frank prosseguiu:

— Na paleontologia, você trabalha com os ossos dos dinossauros. Pode reconstruir o esqueleto e, a partir daí, supor que o animal fazia isto ou aquilo. Com as paleotocas é diferente. Você tem a casa do bicho. Você vê como ele vivia. A preguiça-gigante não existe mais, mas ainda temos a casa dela e podemos dizer: olha, ela vivia em túneis. Por isso paleotocas são tão legais.

A fama da toca de Boqueirão espalhou-se, graças ao trabalho do docente da UFRGS. Larissa e Lauane acostumaram-se aos curiosos que aparecem na propriedade de Laudir para conhecê-la.

— Vêm uns e perguntam: "Onde fica a tal paleotoca?" A gente diz: "Vieram uns guris, colocaram fogo na palha e acabou a toca" — brinca o idoso, soltando uma gargalhada.

Laudir não costuma se importar que forasteiros venham ver a gruta, mas não quer transformá-la em atração turística, por receio de transformarem o local em um "banzé". De vez em quando, fala em vender a área para Frank, que já simpatiza com a ideia de, na aposentadoria, remover as toneladas de terra e pedras do interior para converter a toca em um espaço de visitação.

Essa aposentadoria não está distante. Virá em dois ou três anos. Quando acontecer, é bem provável que falte na UFRGS um herdeiro para dar prosseguimento às caçadas e estudos de Frank.

— Não sei se vai ter continuidade. Porque para trabalhar com paleotocas tem de ser meio abnegado e meio louco. Tem de se enfiar dentro dos buracos. Precisa estar afim, e não é todo mundo que está. Mas não me preocupo, porque a essa altura as paleotocas já são um conhecimento mais ou menos difundido. No passado, apareciam igual, mas chamavam arqueólogos, porque achavam que era de índio. Muita paleotoca eu identifiquei lendo artigos de arqueologia. A geração nova de arqueólogos já sabe o que são. E o conhecimento não se perde, porque vou deixar alguma coisa publicada. Agora, quem vai continuar depois... — diz o professor, deixando a questão no ar.

 

















Heinrich Frank dentro da maior paleotoca do RS, em Boqueirão do Leão
Mateus Bruxel / Agencia RBS
Frank fotografa barranco à beira da estrada
Mateus Bruxel / Agencia RBS


















Frank e o arroio pré-histórico
Mateus Bruxel / Agencia RBS

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Após sonho, gaúcho doa coleção de quase mil peças sobre a Revolução Farroupilha a museu de Piratini

Ao longo de 20 anos, o empresário gaúcho Volnir Júnior dos Santos construiu uma coleção à altura do seu amor pela Revolução Farroupilha. Considerou erguer um museu em Gramado para exibir as 988 peças. Mas, no ano passado, teve um sonho que selou o destino da coleção: o Museu Histórico Farroupilha, em Piratini, a primeira capital da República Rio-Grandense.

— No sonho, os artefatos se perdiam, eu morria e ninguém sabia do que se tratavam aqui no outro Rio Grande (do Norte), então Miguel (Arcanjo) apareceu e me disse "leva para Piratini!" Na manhã seguinte, divulguei meu desejo de doar ao Museu Farroupilha de Piratini — recorda o colecionador.

Empresário de 43 anos que trabalha com locação de imóveis e carros, Santos ainda pensa no Rio Grande do Sul como um "país livre". Natural de São Francisco de Paula, mora em Natal, ou seja, no "Exterior", há 20 anos. Nesse período, tornou-se um exímio conhecedor do movimento farroupilha.

— Eu me considero um novo farrapo, resgatando os pedaços da República Rio-Grandense quando nenhum governo fazia, e futuramente, quem sabe, sendo o governador da secessão.


O desejo de Santos chegou aos ouvidos da diretora do museu, Franciele Domingues. Em 11 de setembro, data em que foi proclamada, em 1836, a República Rio-Grandense, Volnir registrou em cartório a doação. 

Junto à secretária de Estado da cultura, Beatriz Araujo, Francieli viajou até Natal para ver a coleção de perto. A dupla foi recebida por Santos e sua mulher devidamente pilchados, apesar do calor. Na casa, uma bandeira rio-grandense hasteada e a surpresa: 401 quilos de material conservado em condições museológicas e dividido em 29 volumes. Entre as preciosidades datadas de 1835 a 1845 havia espadas, balas de canhão, moedas e documentos, além de itens comemorativos e livros raros de anos posteriores. 

— Eu conhecia a história de algumas peças, mas nunca tinha visto porque eram raríssimas — relembra Francieli, que é historiadora e se emocionou com o acervo. — É um tesouro farroupilha voltando para casa. 

De valor inestimável, o acervo representava mais do que toda a coleção do museu, que possui 600 itens e passará a ter quase 1,5 mil. Fundada em 1953, a instituição não recebia doações desde os anos 1970.

— Nunca tinha visto uma coleção tão grande. Ela conta a história de vida e morte de todo um sonho que se constitui a partir da formação da República Rio-Grandense — reforça a diretora do museu. 

Santos preza todos os itens, mas sublinha a importância de alguns, como o facão (foto com fundo vermelho) de Joaquim Teixeira Nunes, líder dos lanceiros negros que teria sido morto com a própria arma no Massacre de Porongos. Para Francieli, a coleção preenche lacunas na história do Estado: 

— Um documento fala que a província só foi devidamente pacificada em 1847, mostrando que houve tentativas de continuar a guerra mesmo depois de 1845. Já as moedas vinham de outros países e recebiam o carimbo da República de Piratini. Apesar de ser um período de guerra, havia a experiência de República com comércio, indústria e até passaporte para entrar no RS. Nada disso a gente tinha no museu. 

O museu

A volumosa doação impôs dois desafios: como transportar as peças frágeis e como exibi-las. O transporte foi viabilizado com um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) e, em terra, pelo Exército Brasileiro. 

Atualmente, o acervo se encontra em Porto Alegre, onde técnicos da Diretoria de Memória e Patrimônio da Secretaria da Cultura fazem a catalogação. Enquanto isso, o Museu Histórico Farroupilha, que foi contemplado com R$ 100 mil no ano passado, realiza melhorias na reserva técnica e providencia novo mobiliário expositivo e sistema de alarme. 

A coleção recebeu o apelido do seu dono: Coleção TcheVoni. Sua exibição pública está marcada para setembro de 2020, quando o museu também recebe duas pinturas históricas que estão há 11 anos longe da instituição para restauro. 

Santos está contente com a decisão. Para ele, não se trata de um investimento financeiro, mas um projeto de vida. Aliás, nem sabe dimensionar o quanto investiu em tudo. 

— Jamais venderia algum item, tive muitas propostas, mas esta coleção nunca teve preço para mim! Doei tudo porque o Museu "Farrapo" de Piratini é a pedra fundamental da República Rio-Grandense para as futuras gerações.

O Acervo

O quê: acervo de 988 peças reunido ao longo de 20 anos que estava guardado em 29 volumes, totalizando 401 quilos.
Perfil: peças de armaria, livros raros, documentos, moedas e mais.
Origem: Brasil, Estados Unidos, Itália, França, Uruguai, Argentina.
O colecionador: o empresário Volnir Júnior dos Santos, o Tchê Voni, de São Francisco de Paula.

Programe-se

Atualmente em fase de catalogação, o acervo poderá ser visto no Museu Histórico Farroupilha a partir de setembro. O museu é localizado na Rua Coronel Pedroso, 77, em Piratini, e pode ser visitado de terça a sexta-feira, das 9h as 11h30min, e das 13h30min às 17h, sábados, domingos e feriados das 14h30min às 17h.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2020/01/apos-sonho-gaucho-doa-colecao-de-quase-mil-pecas-sobre-a-revolucao-farroupilha-a-museu-de-piratini-ck5n0mnc001hw01pl8e2q43c3.html


















Coleção conta com quase mil itens, incluindo espadas e livros raros
Tadeu Vilani / Agencia RBS

Uma das raridades da coleção: a primeira edição em francês do livro de memórias de Garibaldi, de 1861
Tadeu Vilani / Agencia RBS


















Arma de Joaquim Teixeira Nunes, líder dos lanceiros negros
Acervo Pessoal / Volnir Júnior dos Santos


















Detalhe de livro técnico que integra o acervo
Rafael Varela / Divulgação Sedac


















Coleção conta com livros relacionados ao tema
Tadeu Vilani / Agencia RBS

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Museu da Língua Portuguesa será reinaugurado em junho de 2020

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Museu da Língua Portuguesa já tem data para reabrir as portas ao público: 27 de junho de 2020. O anúncio da conclusão da restauração e da reabertura foi feito pelo governador de São Paulo, João Doria, e secretário de Cultura e Economia Criativa, Sérgio Sá Leitão, durante visita ao local nesta segunda (16). 

Se ocorrer na data prometida, a reabertura se dará com quase um ano de atraso. Em julho de 2018, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo havia previsto para o segundo semestre deste ano.

A restauração incluiu serviços de recuperação de fachadas e esquadrias, e reconstrução da cobertura e espaços internos. Também foram realizadas ações de conservação da cobertura da ala oeste, que não foi atingida pelo incêndio. 

O restauro trouxe melhorias de infraestrutura e segurança contra incêndios, como a instalação de chuveiros automáticos. O museu também terá certificação ambiental e atenderá de forma mais ampla a acessibilidade. 


Há diretrizes de sustentabilidade, como a adoção de técnicas para economia de energia na operação do museu; a gestão de resíduos durante as obras; e a utilização de madeira que atende às exigências de sustentabilidade (certificada e de demolição).


Para a construção da nova cobertura, foram empregadas 89 toneladas (67 m³) de madeira certificada proveniente da Amazônia.

A área ocupada pelo Museu foi expandida, com novos espaços, como um café no terraço com vista para o Parque da Luz e integração dos pátios laterais, que darão acesso aos saguões e o local em que é possível observar a Estação da Luz.

Localizado no antigo prédio da Estação da Luz, em 2015, o museu foi destruído por um incêndio, que culminou com a morte de um bombeiro. Em quase 10 anos de funcionamento, o museu recebeu cerca de 4 milhões de visitantes.

Antes da reinauguração o governo estadual deverá providenciar a instalação da museografia e a seleção da organização social responsável pela gestão. O edital de contratação já foi lançado e a data final para recebimento das propostas é 29 de janeiro.

"Nós teremos aqui um Centro de Referência e Estudos da língua portuguesa. Então teremos não apenas uma área voltada ao público em geral, mas também um espaço para pesquisadores, estudiosos e outro para debates e seminários sobre a língua portuguesa e a diversidade cultural como temas principais", disse o secretário. 

A reconstrução foi aprovada e acompanhada de perto, em todas as etapas, pelos três órgãos do patrimônio histórico: Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) e Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).

"O Museu da Língua Portuguesa, agora reconstruído, retoma sua vocação de espaço de educação por excelência, em que patrimônio histórico, experiências museológicas e ações educativas se complementam e se comunicam para celebrar nosso maior patrimônio imaterial, o nosso idioma", diz Lucia Basto, gerente geral de Patrimônio e Cultura da Fundação Roberto Marinho, entidade parceira na reconstrução do museu.

Ao longo do primeiro semestre de 2020 serão realizadas atividades culturais com o objetivo de manter o museu em comunicação com o público antes de sua reabertura. 

Entre as ações está o Programa Educativo Escola, Museu e Território, que envolve escolas e instituições culturais da região.












Fachada do Museu da Língua Portuguesa, na região da Luz, em foto de arquivo — Foto: Henrique Barreto/Futura Press/Estadão Conteúdo

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Manuscrito mais misterioso do mar Morto narra a saída de Noé após o dilúvio

Museu mostra pela primeira vez o mais frágil pergaminho milenar encontrado nas cavernas de Qumran. É uma cópia do “Gênesis” escrita em primeira pessoa

O Museu de Israel exibe pela primeira vez o Gênesis apócrifo, um dos manuscritos do Mar Morto que até agora havia permanecido guardado na câmara climatizada construída expressamente para abrigar os delicados manuscritos encontrados nas cavernas de Qumran, de mais de 2.000 anos de antiguidade e a que só os conservadores do museu têm acesso.

O pergaminho agora exposto é um dos textos mais misteriosos dos sete primeiros manuscritos do Mar Morto encontrados em 1947 em uma caverna do deserto da Judeia. “Era de longe o documento em pior estado, por isso até agora foi impossível mostrá-lo”, disse na segunda-feira o conservador Adolfo Roitman, diretor do Santuário do Livro.

Datado do século I antes de Cristo e escrito em aramaico, vai do capítulo 5 ao capítulo 15 do Gênesis. Uma parte da Bíblia que fala de Abraão e Noé, mas contada com diferenças significativas, por isso é considerado um texto apócrifo. Seu conteúdo não faz tremer as bases do Vaticano — que considera os manuscritos do Mar Morto de interesse universal —, mas se presta a ser objeto de novas teorias da conspiração para colocar em dúvida o texto Bíblico. “É sem dúvida uma cópia muito antiga de um texto original. Os traços da escrita são feitos com muito esmero, sem erros e isso nessa época só era possível se o documento a ser copiado estivesse diante do copista”, diz Roitman. No pergaminho, que pode ser visto em Jerusalém, é narrada a passagem do fim do dilúvio universal.

Diferentemente do Gênesis — que narra que Noé sai da arca com sua família e a primeira coisa que faz é erigir um altar e fazer um sacrifício a Deus — o manuscrito conservado na Cidade Santa conta como Noé faz o sacrifício dentro da arca. “De um ponto de vista histórico também faria sentido porque se estamos falando da destruição que arrasou a terra, o sacrifício teria sido feito para assegurar-se de purificar o exterior”, diz Roitman ao lado do escaparate que contém o texto. Além disso, os fragmentos do Gênesis apócrifo não são narrados em terceira pessoa, é o próprio Noé quem conta a história.

Sua enorme deterioração confundiu os especialistas durante décadas. Por isso nem sequer pôde ser digitalizado para consulta online. Das 22 colunas que o compõem, as melhor conservadas são as últimas, da 18 a 22. “Tem sua lógica porque ao permanecer enrolado, os caracteres do final do rolo são os que ficaram menos expostos à luz e à umidade”, explica Roitman. São os únicos fragmentos desse pergaminho que foram exibidos brevemente em 1955, no edifico Terra Sancta em Jerusalém, quando o à época primeiro-ministro de Israel, Moshe Sharett, anunciou que o Estado israelense havia comprado os quatro manuscritos perdidos que faltavam dos sete encontrados na chamada Caverna 1 de Qumran.

Decomposição

Os especialistas lidaram durante anos com a decomposição aparentemente imparável desse texto. Ao contrário de outros rolos encontrados na mesma caverna, esse manuscrito é um pergaminho, não um papiro, e sua tinta parece ser o que o faz tão frágil. “É composta por uma liga de carvão e resinas, como a tinta dos outros rolos, mas a do Gênesis apócrifo também contém cobre, o que faz com que seja especialmente sensível à luz. Temos fotografias em que essa deterioração é vista ao ser comparado o estado atual com o estado em que estava em 1955, quando o professor James Bieberkraut trabalhou nele pela primeira vez”, diz o conservador.

Bieberkraut foi o primeiro especialista em Israel que se encarregou da conservação dos rolos. Mas à época não se sabia que esse pergaminho é especialmente sensível à luz. Tanto que nem mesmo resistiria caso fosse exposto no Santuário do Livro, nas mesmas condições do restante dos documentos de Qumran. Por isso, para essa exposição os especialistas criaram um escaparate especial coberto com um vidro inteligente. O vidro é composto por duas camadas que permitem a passagem de um feixe de luz entre elas de maneira que, quando se aperta um botão, o pergaminho se torna visível durante somente 30 segundos, mas nunca é iluminado diretamente. O escaparate contém um chip que registra constantemente as condições ambientais.

“Os outros manuscritos são exibidos por partes. Mostramos um trecho diferente deles a cada três meses, assim asseguramos sua preservação. Mas com o Gênesis apócrifo não podemos fazer isso porque se desintegraria. Por isso essa ocasião para vê-lo é única”, diz Roitman. Os fragmentos serão expostos até julho. Depois, voltarão a dormir na câmara onde estiveram por mais de 50 anos.

PÉRIPLO MUNDIAL ATÉ JERUSALÉM

Os Manuscritos do Mar Morto são quase 1.000 pergaminhos e papiros escritos em aramaico e hebraico em onze cavernas das quase 300 inspecionadas em Qumran, no deserto da Judeia, na Cisjordânia, entre 1947 e 1956.

O Gênesis Apócrifo faz parte dos primeiros sete manuscritos encontrados em 1947 na chamada Caverna 1 por pastores beduínos da tribo dos Tamireh. Ao jogar uma pedra em um buraco e notar um som estranho decidiram retornar ao local preparados para escavá-lo. Encontraram dez potes de barro fechados e em um deles havia três manuscritos enrolados. Em outra visita ao local, descobriram outros quatro manuscritos e acabaram vendendo-os a vários comerciantes de Belém.

Um professor da Universidade Hebraica, Eleazar Sukenik, comprou três deles e os outros quatro foram adquiridos pelo arcebispo Athanasius Yeshue Samuel do Monastério siríaco ortodoxo de Jerusalém, que pagou 100 dólares (330 reais) pelo lote. Quando explodiu a guerra após o nascimento do Estado israelense, o prelado fugiu com seus manuscritos aos Estados Unidos via Beirute. Lá os colocou inicialmente à venda por um milhão de dólares (3,3 milhões de reais), mas ninguém os comprou. "Sua antiguidade não estava clara, a soma era muito elevada e o medo de que fossem exigidos por Israel ou pelos palestinos atrapalhava a venda", diz Adolfo Roitman, Diretor do Santuário do Livro do Museu de Israel.

Por fim o arcebispo colocou um anúncio no Wall Street Journal diminuindo o preço e o arqueólogo Yigael Yadin os comprou secretamente para o Estado de Israel por 250.000 dólares (825.000 reais), uma compra que o primeiro-ministro israelense Moshe Sharett anunciou em fevereiro de 1955.













O Museu de Israel desvela fragmento desconhecido dos Rollos do Mar Morrido



















Fragmento do 'Gênesis apócrifo', que pode ser visto pela primeira vez desde sua descoberta em 1947 no Santuário do Livro de Jerusalém.