terça-feira, 13 de outubro de 2009

Cidades: Percepção, memória e esquecimento

O homem, para se orientar, ou em busca de referência, precisa ler o ambiente em que se encontra.E isto ajuda na percepção que o usuário tem do espaço ao seu redor, e esta leitura, dependendo se é fácil ou difícil, nos mostra o quão legível é o espaço, e a relação que o habitante tem com ele.
Na nova realidade que começa a se impor, o ser humano está deixando de assumir o estatuto de extraterritorialidade e o mundo material deixando de ser um dado intangível.A arquitetura, o espaço urbano, o lugar, tornam-se mais permeáveis a ação do homem, e estes estão expostos à realidade de suas ações, bem como de seus medos e desejos.E. Hall exemplifica bem isto, ao dizer que “o homem e suas ações constituem um sistema inter-relacionado”. É um erro agir como se os homens fossem uma coisa e a sua casa, a rua, seu bairro, sua cidade, fossem algo diferente (1). Ao considerarmos qualquer análise sobre a percepção do homem no espaço que habita, temos que levar em conta todos os fatores que influenciam essa percepção. Para Kevin Lynch, a imagem è formada pelo conjunto de renovações experimentadas ao observar e viver em determinado ambiente. E essas imagens resultam desta relação. Porém, o sentido que o observador dá para o que vê pode variar de pessoa para pessoa e estas diferenças dependem de suas características individuais, mas também das caraceterísticas sociais e culturais (2). E esta sobreposição de imagens individuais gera a imagem publica da cidade e também a memória coletiva.
Os ambientes construídos pelos homens através dos tempos guardam a memória das idéias, das pràticas sociais e sistemas de representação dos indivíduos que ali convivem. Porém é impossível querer manter integralmente a memória materializada na produção cultural. O processo de ativação da memória dos indivíduos, implícito na ação de preservação do patrimônio cultural, corresponde a programar o esquecimento e controlar seletivamente aquilo que considera importante. Em uma analise de tombamento ou requalificação de projetos arquitetônicos, por exemplo, temos que voltar a atenção para os elementos que serão mantidos e ficarão como legado.
Segundo Walter Benjamim, a memória é constituída de impressões, de experiências e sua importância e significado especial estão no fato de que ela é o que nós retemos e o que dá a nossa dimensão de sentido no mundo.A arquitetura e os lugares da cidade constituem o cenário onde nossas lembranças se situam e, na medida que essa arquitetura e esse lugar fazem alusão a significados simbólicos, evocam narrativas relacionadas às nossa vida, e assim, a maneira com entendemos nossa experiência no espaço, converte-se em nossa realidade e nos dá sentido ao mundo físico (3).
Como mostra Maria Alice Rezende Carvalho, “uma praça de grandes manifestações, uma esquina boêmia, um píer na praia, um café centenário, um edifício histórico, são fundamentos de uma cidade análoga, que se repõe insistentemente, mesmo que a cidade real se altere” (4).Portanto, o conjunto de recordações que emergem da cidade nos reporta para a memória urbana, que é a realidade que marca nossa própria fugacidade na história, ao mesmo tempo em que anuncia a possibilidade de transcendermos nossa temporalidade individual.
Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, discorre a respeito das imagens que emergem do “fundo poético do espaço da casa”, afirmando que “é exatamente porque as lembranças das antigas moradas são revividas com o devaneio que as moradas do passado são imperecíveis dentro de nós”.Afirma ainda que “todo o espaço realmente habitado traz a essência da noção de casa”, e a preciosidade está na proteção que a casa oferece ao sonhador, na paz de se poder descansar, permitindo que esse devaneios produzam “valores que marcam o homem em sua profundidade”, Um espaço feliz é um lugar que provoca, pacifica e gera uma sensação de acolhimento, instiga a troca e o conhecimento e desperta uma ligação afetiva em quem nele vive, pela memória que persiste nas pedras, solidificando imagens, identidades e signos (5).
Na visão de Bachelard, a lembrança tem função primordial no espaço, atribuindo-lhe a condição de âncora da memória: “o inconsciente permanece nos locais. As lembranças são imóveis, tanto mais sólidas quanto mais bem espacializadas”. Todos os espaços com os quais estabelecemos uma relação de intimidade adquirem “valores oníricos consoantes”. São justamente as lembranças localizadas na região da intimidade que nos dão o sentido de valorização dos aposentos, praças, ruas, edifícios e paisagens que constituem patrimônios da história da humanidade, de uma determinada sociedade ou das histórias íntimas e individuais. Os devaneios suscitados pelas lembranças convidam-nos à imaginação e provocam transformações nas profundezas do ser. A ausência de possibilidade de devanear gera, ao contrário, o estreitamento da imaginação e a acomodação em relação à realidade. Em outras palavras: a ausência do sonho, do devaneio, impede a construção de utopias. É neste sentido, e não como tentativa de um resgate de um tempo perdido ou de uma cultura já morta, que a preservação da arquitetura e dos ambientes urbanos adquire importância (5).
Em uma linha mais contemporânea, Aldo Rossi em “A Arquitetura da Cidade”, apresenta uma teoria geral da cidade, fundamentada na análise da cidade histórica.Em contraposição ao urbanismo “arrasa – quarteirão”, surge à noção de lugar ou genius loci – conceito teórico – filosófico que e refere a um campo perceptivo resultante, na definição de Rossi, da “relação singular e, ao mesmo tempo, universal, entre certa situação local e as construções existentes naquele local” (6). Já Kenneth Frampton desenvolve a teoria do lugar em contraposição a idéia de totalidade, norteadora das idéias de proposição da cidade modernista. Para Frampton, o espaço não deve ser tratado como algo abstrato, mas como o lugar de habitação dos homens. Formula então a proposta de um regionalismo crítico, onde a questão do lugar é pensada a partir de suas significações e referências históricas, geográficas e culturais (7).
O ser humano sempre teve uma "necessidade pelo passado", e os traços do passado da cidade - suas ruínas - são, simultaneamente, sinais de um passado imaginado que tem o poder de nos reconfortar, como sinônimo de uma proximidade; sinais de um passado artístico; marca de uma continuidade e de um finalismo. Os monumentos históricos funcionam então como representações ou ícones de um passado atemporal, uma criação artística do passado e simbólica do presente, dentro de um sentido de eternidade.A relação que o indivíduo mantém com o espaço que o cerca, é o que mais influencia na sua forma de uso, significação e valorização.E nossa memória, constituída de impressões, de experiências, é o que nós retemos e o que nos dá a exata dimensão do que percebemos e sentimos através do nosso lugar no mundo.

Eder Santos Carvalho
Encruzilhada do Sul, Outubro de 2009

Notas:
1
HALL, Edward. “A dimensão oculta”. Apud ELALI, Gleice Azambuja. Psicologia e arquitetura: em busca do locus interdisciplinar.
2
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Traduzido por Jefferson Luiz Camargo. São Paulo, Martins Fontes, 1997, p. 51.
3
Ver, a esse respeito, AGGIO, Sandra Mara, Cidade e Memória em Walter Benjamim in revista Caramelo , n◦ 8, São Paulo: FAU-USP, nov./95, pp. 153 – 162.
4
CARVALHO, Maria Alice Rezende de, Quatro Vezes Cidade, Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994, p. 96.
5
BACHELARD, Gaston, A Poética do Espaço, São Paulo: Martins Fontes, 1993, pp.25 e 26.
6
ROSSI, Aldo, A Arquitetura da Cidade, São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 185.
7
FRAMPTON, Kenneth, História Crítica de la Arquitetura Moderna, Barcelona: Ed. G. Gilli, 1981.

Bibliografia:

Ortegosa, Sandra Mara - Cidade e memória: do urbanismo “arrasa-quarteirão” à questão do lugar – Artigo – Portal Vitrúvius – Setembro 2009
Almeida, Eneida de e Bogéa, Marta – Esquecer para preservar – Artigo – Portal Vitrúvius – Dezembro 2007
Scocuglia, Jovanka Baracuhy C., Chaves, Carolina e Lins, Juliana – Percepção e memória da cidade: o Ponto de Cem Réis – Artigo – Portal Vitrúvius – Janeiro 2006

Restauro da Vila Santa Thereza em Bagé - RS

Segue o link para ver as reportagens da AU e Projeto Design.
http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/183/restauro-na-vila-santa-thereza-flavio-kiefer-bage-rs-2004-141166-1.asp

http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/revitalizacao-restauro-flavio-kiefer-vila-santa-thereza-17-09-2009.html
Boa Leitura!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

CAOS DA METRÓPOLE AMERICANA

No livro Tristes Trópicos, o filósofo francês Claude Lévi-Strauss diz em uma passagem do livro que as cidades americanas vivem febrilmente uma doença crônica: “eternamente jovens, jamais são saudáveis, porém”.Segundo ele, para as cidades européias a passagem dos anos constitui uma promoção, para as americanas, é uma decadência.
Particularmente acho que Lévi-Strauss tem razão.A maioria das cidades americanas (e quando digo americanas, não me refiro somente às cidades norte-americanas, mas a todas as cidades da América), não são apenas construídas recentemente, mas construídas para se renovarem com a mesma rapidez com que foram erguidas, ou mal erguidas.Quando surge um novo bairro, ás vezes nem sequer são bairros, são brilhantes demais, novos demais, alegres demais.Assim que passa a euforia, a festa termina e os novos bairros fenecem, as fachadas descascam, a chuva e a fuligem das fábricas traçam os sulcos e o estilo sai de moda.Muitas vezes, esses bairros ou até mesmo cidades inteiras não são sequer planejados, expandindo seus tentáculos para todos os lados, ocupando terrenos inadequados e áreas de risco.
O modo como é ou foi construído um bom número de cidades, como La Paz na Bolívia, implica na impossibilidade de alterações positivas futuras, conseqüentemente isso acaba gerando problemas como falta de moradias, adensamento de bairros, agravamento da exclusão social – marginalização, violência e desestruturação de pautas de convivência, gerando uma cidade dividida entre o setor formal (bairros) e o informal (favelas).
O que acaba gerando o exposto acima é provocado pelo fenômeno da globalização, pelo fato de que temos hoje a confluência de uma crescente dependência do movimento de capitais entre os países e um constante incremento de novas tecnologias.O que era local, de apropriação do habitante local, se internacionaliza, adquire e incrementa novas culturas, muitas vezes distante de sua realidade, e isso reflete no modo de vida e organização das cidades.
Podemos também verificar uma tendência para a exacerbação dos conflitos, dificuldade de coexistência entre as diversas camadas e classes da população, isto porque um setor, ao ver o outro invadindo o seu, acaba reagindo, muitas vezes com violência.Enumerei alguns dos principais problemas das cidades contemporâneas da América, mas há outros tantos – apropriação de espaços públicos por parte da população mais pobre, construções irregulares, condomínios que ao invés de promover a integração dos habitantes, acaba fazendo o papel ao contrário.
Soluções? Penso que não só arquitetos e urbanistas, mas toda a sociedade deveria interagir com o poder público na busca de soluções urbanas inovadoras, capazes de tornar nossas cidades um espaço melhor para viver.Buscar parcerias internacionais, acordos com Ongs e indústrias.Procurar também aprender com o modelo europeu, não que as cidades européias não tenham problemas, mas estão hoje em um nível superior ao nosso.Então, ao juntarmos essas soluções, podemos quem sabe tornar nossas cidades mais humanas.

Eder Santos Carvalho
Encruzilhada do Sul, Agosto de 2009

Bibliografia:
- Jáuregui, Jorge Mário- Megacidades, exclusão e mundialização.Do ponto de vista da América Latina – Artigo – Portal Vitrúvius – Abril 2002
- Ultramari, Clóvis – Guerras, desastres, pobreza, mas também resiliências urbanas – Artigo – Portal Vitrúvius – Agosto 2006
- Strauss, Claude Lévi – Tristes Trópicos – Companhia das Letras – São Paulo – 4º ed. – 2001

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A contribuição Açoriana na Formação do Povo Encruzilhadense

A chegada efetiva dos açorianos no Rio Grande do Sul foi entre 1752 e 1754, tendo em vista o povoamento das chamadas Missões Orientais, território cedido pela Espanha a Portugal, pelo Tratado de Madri, em troca da Colônia de Sacramento. Na Capitania de São Pedro do Rio Grande, os imigrantes açorianos se estabeleceram inicialmente em Viamão, dispersando-se a seguir para Rio Pardo, Santo Amaro e Taquari.
De Rio Pardo, chegaram até Encruzilhada por volta de 1810, que nessa época era habitada por tropeiros e soldados portugueses aqui instalados para defender o Forte Jesus Maria José do ataque dos espanhóis. A partir dessa data, começa efetivamente o desenvolvimento da malha urbana do município, com a nítida influência dos traçados portugueses, traçados que se fazem de acordo com a topografia, com ruas retas, mas não tão retas assim, pois nem sempre são paralelas ou ortogonais umas em relação às outras.
Essa influência no urbanismo se estende também aos prédios. A Igreja, situada em um ponto central, de preferência o mais alto, tem uma arquitetura simples, se comparada à arquitetura religiosa do centro do país. É interessante notar que na maioria das cidades que recebem imigrantes açorianos, a igreja se configura como o ponto central da cidade, e a partir dela, se organiza toda a malha urbana da cidade. A influência açoriana marcou presença também nos prédios públicos e residências.Arquitetura que hoje, ainda que precariamente, é preservada.
Os açorianos deixaram um legado que vai além da arquitetura e do urbanismo. Deixaram marcas acentuadas na estrutura social do povo encruzilhadense, com a língua usada em todos os recantos do município, os usos e costumes do povo, as brincadeiras infantis, as canções de ninar, os festejos populares e as festas religiosas.
Eder Santos Carvalho
Encruzilhada do Sul, 23 de Julho de 2009
Bibliografia consultada
Memória Encruzilhadense - Humberto Castro Fossa – Vol.3. Alice Therezinha Campos Moreira, Dione Teixeira Borges Moreira (org.). Porto Alegre. Evangraf - 2008
BARROSO, Vera Lucia Maciel (org.). Presença açoriana em Santo Antonio da Patrulha e no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST, 1993.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

APEAÇABENSES

Em 1943, quase passamos a ser chamados apeaçabenses, em vez de encruzilhadenses, pois, naquele ano, o governo Vargas entendeu que não deveria haver no país duas ou mais localidades com a mesma denominação.Em vista disso, não iria existir mais de uma Encruzilhada no território brasileiro.
Por essa razão, os burocratas federais resolveram que tal nome só poderia ficar com um município baiano, sob o argumento de que a referida comuna vinha com esta denominação desde o século XVI e, para a nossa Encruzilhada escolheram, arbitrariamente, o nome de Apeaçaba.
A alfadada escolha, como não deveria deixar de ser, causou indignação entre a população local e levou o prefeito municipal, Cel. Honório Carvalho, a travar um batalha com o conselho Nacional de Geografia, luta essa iniciada com um memorial enviado ao Conselho Regional e seguido de telegramas endereçados ao embaixador Macedo Soares e ao nosso conterrâneo ministro Pedro Mibielli, solicitando a interferência desses ilustres homens públicos, no sentido de que fosse mantido o nome de Encruzilhada para este município, nome vindo do tempo em que aqui acampavam os contingentes luso – brasileiros que vigiavam e combatiam os invasores castelhanos.
Com a finalidade de resolver o impasse e não descontentar baianos e gaúchos, o Dr. Leite de Castro, então secretário do Conselho Nacional de Geografia, sugeriu o nome de Encruzilhada do Sul para o nosso município, uma vez que o homônimo nortista não seria de forma alguma mudado.Para nos livrarmos do patromínico apeçabense, o negócio foi aceitar a denominação de Encruzilhada do Sul como se entende lendo o telegrama enviado àquela autoridade pelo Cel. Honório Carvalho: “resposta telegrama vossência informo aceitamos nome Encruzilhada do Sul”.
Assim, a 1º de janeiro de 1944, no antigo salão nobre da atual prefeitura, em sessão solene presidida pelo juiz de direito da Comarca, Dr. Pedro Marques da Rocha, com a presença de autoridades e pessoas gradas, depois de cantado o hino Nacional seguido pro vibrante salva de palmas, o magistrado com “voz clara e pausada”, em nome do governo do estado, confirmou para este torrão histórico, tão cheio de glórias, o nome de Encruzilhada do Sul.
Humberto Castro Fossa - Historiador
Jornal 19 de julho, 10 de julho de 1951
Texto extraído do livro:
Memória Encruzilhadense - Humberto Castro Fossa – Vol.3. Alice Therezinha Campos Moreira, Dione Teixeira Borges Moreira (org.). Porto Alegre. Evangraf - 2008

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Capela dos Índios em Encruzilhada do Sul

O historiador, Dr. Alcides de Freitas Cruz, em um trabalho sobre Encruzilhada, publicado no anuário da Província do Rio Grande do Sul (1901), do Dr. Graciano Azambuja, afirmou, depois de ter examinado aqui antigos documentos, inventários e registros paroquiais, que os primitivos habitantes do nosso município procediam das ilhas dos Açores, da Vila de Laguna, da São Paulo e de Rio Pardo.Assinalou, também, o autor, que um contingente indígena das Missões foi trazido para cá provavelmente no início do século XIX.Na realidade, esses guaranis faziam parte de um contingente maior que, após a Guerra Guaranítica, veio com o general português Gomes Freire de Andrade para Rio Pardo. Parte deles seguiu para Cachoeira, e a leva mais importante ficado em Rio Pardo foram transferidos para Encruzilhada e aqui assentados na Aldeia Velha, local situado hoje no perímetro urbano, junto ás atuais ruas 4 de Dezembro e Ernesto Dorneles.
É bom esclarecer que este aldeamento não se constituiu em uma redução jesuítica aos moldes das que formaram no século XVII os Sete Povos das Missões. Aqui não tivemos a presença dos padres da Companhia de Jesus. Os aldeados, na parte religiosa, eram assistidos pelos padres da freguesia. Só não sabemos é se os índios daqui eram sujeitos ás mesmas restrições impostas a seus irmãos na Aldeia dos Anjos, onde, além de serem proibidos de falar o idioma nativo, tiveram seus nomes trocados por nomes portugueses como nos seguintes exemplos anotados pela professora Ana Cristina Oliveira Álvares na obra Os índios da Aldeia dos Anjos. O índio Cababayu passou a ser chamado Dionísio Pereira; Poti ficou sendo Miguel de Sousa, Tiripá foi “rebatizado” como Estanislau Goularte, e assim por diante.
Mal fechados em Encruzilhada, os índios trataram logo de erguer uma capela na Aldeia Velha, onde colocaram seus santos de madeira e um sino que, segundo o historiador oriental Uruguay Veja Castilhos, com quem conversamos a respeito, teria vindo das missões argentinas. Esta hoje, no Museu Municipal, junto á Biblioteca Público. Nele esta gravada a seguinte inscrição: Ano de 1766 – Apostoles S. Pero.
Abaixo da capela, no correr da Rua 4 de Dezembro, os índios tinham seu cemitério. Anos atrás, em escavações feitas no local, foram encontradas ossadas humanas.
Com o passar do tempo, esses indígenas foram se dispersando. Lá pelo ano de 1890 já restavam poucos. Entre esses ficou uma velha índia muito conhecida na vila pelo apelido de Chica Pancha, a qual, segundo se sabe, foi a última guardadora dos santos de madeira, do sino e das alfaias da capela. Ela faleceu aqui a 6 de fevereiro de 1893, portanto há cem anos. Seu passamento foi registrado pelo jornal local A Encruzilhada, dois dias depois, com os seguintes termos: “Anteontem foi sepultado o corpo da china velha Francisca, vulgarmente conhecida por China Pancha”.
Com isto, comprova-se ter existido no passado mais um templo em Encruzilhada. Tivemos, assim, fora a atual Matriz, a Capela de Santa Bárbara, a Capela do Cemitério, próxima a atual Praça Barão do Guarai, e a Capela dos índios Missioneiros, na Aldeia Velha.
Humberto Castro Fossa - Historiador
Caminhos, Boletim da Paróquia de Santa Bárbara, maio de 1993
Texto extraído do livro:
Memória Encruzilhadense - Humberto Castro Fossa – Vol.3. Alice Therezinha Campos Moreira, Dione Teixeira Borges Moreira (org.). Porto Alegre. Evangraf - 2008
Eder Santos Carvalho
Encruzilhada do Sul, 06 de Julho de 2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

EDSON DA CUNHA MAHFUZ - ENSAIO SOBRE A RAZÃO COMPOSITIVA - 1995

Neste livro, Edson Mahfuz procura entender o processo de projeto – constesta o conceito do todo em arquitetura, procurando distinguir o momento em que a obra é unitária, quando está realizada e o outro momento, o da obra ao ser feita, onde uma coleção de partes devem ser conciliadas.
O tema central é o fazer da arquitetura e não o seu resultado.O autor nos propõe crer que a obra de arquitetura é uma organização de partes que estão pré-existentes ao todo.Mahfuz nos leva a entender que: “a noção de que a arquitetura procede do todo para as partes deriva da ilusão de que o todo existe previamente às partes. Só pode existir um todo após as operações de projeto e construção estarem concluídas”.
O texto contém estudos parcias como a classificação em tipos de processo projetuais que separa projetos inovativos, tipológicos, miméticos e normativos.Examina também conceitos de totalidade e de ordem.Em todos os campos do conhecimento onde o conceito de totalidade aparece, ele é entendido como algo composto por partes.Porém a relação entre as partes e o todo não é examinada a fundo.
O ponto principal do livro é investigar a natureza das relações existentes e possíveis entre as partes e o todo no âmbito da composição arquitetônica.Para isso, não é suficiente analisar o objeto concluído, mas discutir em detalhes o processo projetual.
È possível dizer que a composição de um objeto consiste na criação de um todo através de suas partes.A hipótese de trabalho do estudo é que, na composição arquitetônica, o sentido de progressão é das partes para o todo, e não o contrário.
O livro discute as relações e tamanhos das partes.O foco do estudo é determinar qual a natureza da relação que existe entre as partes e o todo durante o processo de criação ou composição.O termo composição é usado no sentido genérico de arranjo entre as partes para se chegar ao todo.

Eder Santos Carvalho
Encruzilhada do Sul, 01 de junho de 2009

ARQUITETURA LATINO – AMERICANA

Ao tentarmos entender e discutir a arquitetura latina – americana hoje devemos atentar para a realidade da globalização.Uma tarefa que se torna indispensável frente ao transtorno derivado da aceleração e da futilidade da informação que se produz e circula no mundo.Informação esta que se origina em uma visão deslocada da arquitetura, voltada para sua própria capacidade de simbolismo na época do hipercapitalismo.
As causa advindas desse processo predatório da globalização é a compreensão errônea do significado da era da informação e dos meios que estão à nossa disposição.Fatores que fazem com que jovens arquitetos estejam mais obstinados em produzir a própria imagem pessoal do que fazer arquitetura adaptada para a realidade atual.Hoje temos uma internacionalização da arquitetura, processo que desencadeia o desejo de projetar edificações que se alçam a nível internacional, resultando na chamada “arquitetura do espetáculo”, arquitetura para ser vista, para alçar o projetista a níveis dogmáticos, e não para gerar conforto e segurança ao usuário.
A arquitetura mundial se encontra numa crise de idéias, em uma falta de capacidade para gerar projetos que encarnem o ideal de progresso.E essa incapacidade deve servir de motivação para rechaçar e fugir desses devaneios arquitetônicos, produzindo uma arquitetura que respeite e valorize o local onde está inserida.
O chamado “Projeto Moderno” vai chegando ao fim, devido ao avanço da tecnologia digital e pelos fatores que definem num nível mais amplo o contexto presente.Devemos então trazer à tona o debate sobre a arquitetura latino-americana, seus desafios de responder as questões atuais neste mundo de transição e regido por certas estrelas da arquitetura mundial, o chamado “star sistem contemporâneo”.Estrelas que desembarcam em qualquer parte do globo e “despejam” seus projetos, sem levar em conta a realidade do lugar.
Diante da sua posição na arquitetura atual, o maior desafio para a arquitetura latina –americana é levar a cabo ações e projetos que definam sua atividade arquitetônica no século 21.O resultado já podemos ver em alguns locais, obras de grande excelência construtiva, riqueza expressiva e sensual, onde se interpretam e reelaboram os fundamentos da linguagem moderna e contemporânea.
Arquiteturas regionais que se assentam sobre seu local de origem, fincando num trabalho sério dão frutos e logram reconhecimento mundial. É o caso, por exemplo, da arquitetura chilena da última década, produzida por uma geração que teve condições econômicas e culturais favoráveis, onde pode então desenvolver uma arquitetura de marca pessoal.Uma arquitetura concentrada em sua própria razão de ser e capaz de fazer persistir seus valores além do efêmero e do homogeneizado.
A situação atual nos leva para um momento histórico que parece representar uma ruptura violenta com os parâmetros da história mais recentes, mas que na verdade é o início de um processo que nos torna mais conscientes da existência e da necessidade de elaborar outros modos de síntese e de relações com o cenário mundial.Diante desse quadro, a arquitetura latino-americana se encontra diante da superação da tentação das superestruturas que impõem uma forma de violência arquitetônica, e que pode provocar nas gerações mais jovens uma perda de identidade devido a um novo e desmedido estilo internacional.
Diante dessa violência falsamente compreendida como progresso, é preciso buscar novas formas de projetar, enfatizando a realidade local e mantenha o espírito do tempo.Jovens arquitetos que vem seu trabalho apenas como alavanca para chegar ao olimpo global nada podem acrescentar a arquitetura de seu país. É preciso buscar a sensatez pragmática e a coerência nos projetos.Construir a partir do social e do público, trazendo respostas para as questões locais.
A América trouxe o apogeu do movimento moderno, movimento que cobrou vida própria e deu lições a Europa, através da energia e idéias com os aquis trouxe a concepção de uma nova arquitetura.Hoje os magos da arquitetura, com sua visão cosmológica tentam doutrinar as futuras gerações com modelos egocêntricos.Frente a essa sedução pelo globalizado, deve o arquiteto buscar, a partir da ação local, uma resistência crítica e alternativa a imposição das doutrinas arquitetônicas contemporâneas.

Texto baseado no artigo “Energia de Reação”, de Fredy Massad e Alice Guerrero Yeste Revista AU – n 172
Eder Santos Carvalho
Encruzilhada do Sul, 01 de junho de 2009