sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Incêndio destrói prédio da antiga Estação Ferroviária de Rio Pardo

A suspeita da Brigada Militar é que usuários de drogas, que frequentam o local, tenham ateado fogo no prédio










Foto: Letícia Mendes/Gazeta do Sul
Um incêndio atingiu e destruiu um prédio que pertence à antiga Estação Ferroviária de Rio Pardo na madrugada deste sábado, 18. Por volta das 4h55 da manhã, as chamas se espalharam pelo local. O prédio, que fica na Avenida General Osório, está atualmente desativado, pois se trata de um antigo depósito.
A suspeita da Brigada Militar é que usuários de drogas, que frequentam o local, tenham ateado fogo no prédio. O telhado acabou desabando com as chamas, ficando somente as paredes da Estação de pé. Os bombeiros utilizaram duas viaturas, uma principal e outra de apoio, e 15 mil litros de água para controlar as chamas. O trabalho dos combatentes terminou por volta das 7 horas. Ninguém ficou ferido.
Na foto abaixo, de 2015, é possível ver o prédio que foi atingido pelas chamas:










Foto: Rodrigo Assmann | Banco de Imagens













Imagens: do site

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Projac da Colônia

LUIZ HENRIQUE FITARELLI PASSOU MAIS DE UMA DÉCADA MONTANDO UM CENÁRIO PARA APRESENTAR UMA GRANDE COLEÇÃO DE OBJETOS ORIGINAIS DA COLONIZAÇÃO ITALIANA REUNIDOS AO LONGO DE UMA VIDA. PERFECCIONISTA, ELE AINDA NÃO SABE QUANDO SUA GRANDE OBRA ESTARÁ PRONTA.

Fitarelli está se sentindo pressionado. Ultimamente tem ouvido da mulher que, “ora, 12 anos já é tempo demais”. Meses atrás, a filha mais velha resolveu endossar o coro: vai se casar ainda em 2017 e não, não tem outra opção, a festa será na cantina. É melhor que fique logo pronta. Até a prefeitura não vê a hora para, enfim, poder divulgar a mais nova atração turística de Garibaldi, na serra gaúcha.
Só que Fitarelli não tem pressa. Ele diz que tem algumas coisas prontas, e mais um monte delas por terminar. Reclama que precisaria de uma rede de energia elétrica em sistema trifásico, porque a atual, de uma fase só, não dá conta do recado. Avisa que está vendo o trabalho de mais de uma década chegar bem perto do fim. Só que o fim é exatamente o detalhe que lhe falta: descobrir uma forma de fazer com que a obra que construiu ganhe vida própria – em outras palavras, que se sustente daqui para frente.
– Acredito que, dentro de pouco tempo, vou achar um caminho. Aí pretendo abrir ao público em breve. Só não posso prometer o quão breve, porque promessa é dívida. Mas estou trabalhando para que isso aconteça logo – responde ele às pressões, com forte sotaque italiano, desconversando sobre prazos.
O que há tanto tempo está em desenvolvimento e ainda de portas fechadas é o Museu Etnográfico da Imigração Italiana, idealizado e em construção por Luiz Henrique Fitarelli, 57 anos. Não há exagero em afirmar: trata-se da maior coleção de objetos do tempo dos colonos italianos que povoarama Serra no fim do século 19 – são mais de 8 mil peças reunidas. Isso já seria um feito e tanto. Só que Fitarelli, todos sabem, é um cara caprichoso. Não colocaria em qualquer lugar o acervo que selecionou ao longo da vida, desde quando tinha 12 anos. Então, imaginou um cenário de novela, onde cada item seria colocado em seu devido lugar, como se ainda estivesse em uso. E assim fez: um cenário de novela, a céu aberto. Um verdadeiro “Projac da colônia”.
Achou uma área rural distante 20 quilômetros de Garibaldi, cercada por árvores, às margens de um córrego. Uma paisagem bucólica, com um certo desnível no relevo. Colocou propositalmente uns pares de ovelhas e teve sorte quando apareceram por conta uns casais de quero-quero, dando ainda mais vida ao local. Projetou e ali ergueu ferraria, capela, casa com armazém, tanoaria, marcenaria, estrebaria e uma cantina – tudo construído a partir de técnicas utilizadas pelos imigrantes italianos e com os mesmos materiais, pedra e madeira. O trabalho é resultado de anos dedicados a incursões pelo interior dos municípios serranos e horas de observações atentas a cada detalhe das casas em que pedia licença e entrava. Buscou antigas construções à venda, escolheu tábua por tábua, caibro por caibro. Estava junto para ajudar a carregar e também ordenar o corte, onde e com que angulação cada material deveria ser encaixado. Tem na ponta da língua: só na cantina, são mais de 3,5 mil pedras e 20 metros cúbicos de madeira. Haja força no braço – e dinheiro no bolso.
– Não tenho estimativa de quanto já gastei nisso tudo. Foi algo que nunca me interessou muito saber. Mas foi bastante. Claro que muitas vezes consegui fazer compras a preços interessantes, até porque o pessoal não dava valor. E também teve coisas que saíram caro. Mas o custo disso não tem essa importância. O valor do acervo que está dentro destas construções é muito maior, porque é histórico – afirma Fitarelli.
O gosto por colecionar surgiu ainda quando criança, talvez motivado por um hábito tipicamente “gringo”: o de guardar qualquer coisa que pudesse vir a ser útil. Em tempos de dinheiro curto e distâncias longas, não era assim fácil ir até a cidade e comprar tudo novo em folha – então, guardavam-se pregos tortos, pedaços de ferros, tocos de madeira, latas, o que fosse. O acervo começou com pequenas peças pertencentes aos nonos – o ferreiro Tercílio Accorsi e o tanoeiro e agricultor Pedro Fitarelli, que repassavam ao neto os relatos da colonização contados pelos bisavós italianos. E só cresceu.
O jovem se formou em Veterinária e pôde, então, por conta própria, sustentar o “vício”, tornando o acervo cada vez mais sério. Viajava de camionete a trabalho, e voltava com a caçamba cheia de móveis e objetos. Parecia um frete andando pelas estradas de chão. Não demorou para que as peças começassem a se empilhar pelos cômodos da própria casa – e dos outros também.
Alguns móveis, aqueles que não tinham tanta relação com a imigração italiana, passaram a preencher um imóvel ao lado de onde Fitarelli mora – um sítio de gramado verde, flores e gatos correndo soltos, cravado bem próximo ao centro da cidade. Era o local onde o avô paterno vivia. Ali é a chamada Villa Fitarelli, que abriga um antiquário onde estão cristaleiras, enormes mesas de madeira maciça e uma infinidade de relíquias. Tudo à venda. Ao lado, foi criada uma oficina de restauro, onde os móveis danificados passam por reparos e outros novinhos são produzidos. À moda antiga, é evidente. O apreço pelo passado virou hobby. E também profissão – deixou a veterinária há quatros anos.
Para o museu, foram aqueles objetos de valor inestimável pela história que contam. Esses dias um especialista em acervos passou por lá e catalogou 1.170 peças relacionadas à produção de vinho. Entre elas, ferramentas utilizadas no processo da tanoaria e barris, que totalizam 300 unidades. Tudo foi pesado, medido, descrito e colocado organizadamente em uma prateleira. Há também os antigos materiais utilizados por marceneiros, como um banco de trabalho onde se posicionavam para cortar e trabalhar a madeira. Tem a coleção de plainas, de artigos de sapataria (profissão do pai), uma série de pilões e mais um punhado de coisas que os mais jovens não devem nem imaginar para que um dia serviram. Um destes objetos é um cortador de palha, vendida em formato quadrado, para a confecção manual de cigarrilhas.
É tanta coisa espalhada no interior das construções que ainda neste ano deve sair um longa-metragem sobre o trabalho de preservação feito por Fitarelli – os depoimentos e imagens foram gravados no museu e também na Itália, em lugares correlatos, como marcenarias, ferrarias e cantinas. A esta altura, pode-se dizer que rlr já está acostumado com as câmeras. Há algum tempo, abriu as portas do museu para a gravação de cenas da novela das seis Além do Tempo, da Rede Globo, exibida entre 2015 e 2016. Em 2015, o espaço serviu de palco para um comercial da Coca-Cola. Também se desenrolaram ali episódios da minissérie Decamerão: A Comédia do Sexo, criada por Jorge Furtado, e o documentário em curta-metragem Para Ficar na História, da RBS TV.
Com tanta demora para abrir o espaço ao público, parece que Fitarelli tenta manter a obra em sigilo. O problema é que criou um paraíso estético e histórico – e, bem, é difícil guardar lugares assim em segredo.
– Foram muitos anos de trabalho, mas tudo foi feito com prazer. Esta é a grande diferença.
A ideia não é ganhar dinheiro. Se eu quisesse ficar rico, eu não teria feito um museu. Se fiz, foi por satisfação. E faria mais uma vez. É gratificante receber o reconhecimento das pessoas pelo meu trabalho. Encontrar pessoas que admiram a preservação da história é o melhor pagamento que existe – afirma Fitarelli.
Mas não é o único. É por isso que, aos poucos, o colecionador conta estar recebendo alguns grupos de turistas. Ele mesmo guia as visitas na tentativa de criar uma metodologia para o passeio e também, claro, conferir como as coisas se comportam, como ele mesmo diz. Só depois de encontrar um formato e uma equipe para ajudá-lo é que irá abrir as portas do museu. Pretende, até lá, ter um restaurante no local e a cantina reformada, que será disponibilizada para a realização de eventos, como festas de casamento.
O comentário que corre em Garibaldi, no entanto, é que Fitarelli jamais abrirá o museu.
É ciumento demais, dizem, a boca pequena.
– É verdade. Mas como que eu não vou ser? É uma vida de trabalho. Eu busquei isso, sei a história de tudo o que tem aqui. Para onde eu olho, tem a minha mão. Eu que trouxe, que achei, que comprei, que transportei, que coloquei no lugar. Construí minha própria história contando e preservando esta belíssima história, que é a da saga da imigração italiana na esperança de melhorar a vida – ele explica.
Quando questionado pelos ansiosos, segue conjugando no futuro o aviso que há tempos está na página do museu na internet: “quando pronto para visitação comunicaremos via site”.























Fonte das imagens: do site - http://especiais.zh.clicrbs.com.br/especiais/zh-singular/garibaldi.html

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Jockey Clube de Porto Alegre

No último Docomemos, publicamos, na seção Edifícios em Risco, o caso do Jockey Clube de Porto Alegre (RS), conhecido como Palácio de Cristal e tombado pela Prefeitura desde 2008. Em resposta, recebemos dos arquitetos Flávio Kiefer e Lídia Fabrício, informações de que o edifício em questão está passando por ações emergenciais de proteção dos dois pavilhões citados.
Apesar de não ser um restauro completo do conjunto, Kiefer ressalta que com essas ações já se conquistou um Plano Diretor para o complexo, a transferência da Vila Hípica para o entorno da pista, foram feitas benfeitorias no Pavilhão Social e há uma política de sustentabilidade em marcha. “O mais importante, porém, é o reconhecimento do poder público e da direção do clube da necessidade de restauração de sua arquitetura”, segundo bem pontua o arquiteto.
Parabenizamos Flavio Kiefer e Lidia Fabrício pelo trabalho desenvolvido no Jockey Clube, agradecemos as informações e desejamos que todo o trabalho seja levado a um bom termo, fazendo com que a integridade do conjunto seja mantida.








Salão do Jockey Clube. Foto: Flávio Kiefer

Casa Vanna Venturi é tombada na Filadélfia

A pioneira Vanna Venturi House projetada por Robert Venturi para a sua mãe em Chestnut Hill, nos arredores da Filadélfia, foi oficialmente tombada pelo Philadelphia Register of Historic Places. Projetada em 1962 e construída entre 1963 e 1964, a casa é um dos ícones da arquitetura pós-moderna. Tendo passado pelas mãos de apenas dois proprietários quando adquirida meses atrás, a casa está hoje integralmente conservada. O atual proprietário está plenamente comprometido com sua preservação.

Fonte: http://docomomo.org.br/noticias/casa-vanna-venturi-e-tombada-na-filadelfia/
















Vanna Venturi House. Foto: Carol Highsmith

sábado, 14 de janeiro de 2017

"Stonehenge" descoberto está mudando visões de arqueólogos sobre história da Amazônia

Alguns pesquisadores agora afirmam que a maior floresta tropical do mundo era muito menos parecida com o "Éden" do que foi imaginado

Como capataz de uma fazenda de gado nos confins da Amazônia brasileira, Lailson Camelo da Silva estava derrubando árvores para transformar a floresta tropical em pasto quando se deparou com um arranjo bizarro de imensos blocos de granito.
— Não tinha ideia que estava descobrindo o Stonehenge da Amazônia — afirmou Silva, de 65 anos, em um dia muito quente de outubro enquanto admirava o sítio arqueológico ao norte do Equador. 
— Isso me faz pensar: que outros segredos sobre nosso passado ainda estão escondidos nas florestas do Brasil?
Após realizar um teste de radiocarbono e fazer medições durante o solstício de inverno, os pesquisadores do campo da arqueoastronomia determinaram que uma cultura indígena arrumou os megalitos em forma de observatório astronômico cerca de mil anos atrás, ou cinco séculos antes do início da conquista da América pelos europeus.
As descobertas, junto com outros achados arqueológicos no Brasil nos últimos anos – que incluem gigantescas esculturas de terra, vestígios de assentamentos fortificados e até mesmo complexas redes de estradas – estão mudando visões anteriores dos arqueólogos que acreditavam que a Amazônia havia sido relativamente intocada pelos humanos a não ser por pequenas tribos nômades.
Ao invés disso, alguns pesquisadores agora afirmam que a maior floresta tropical do mundo era muito menos parecida com o "Éden" do que foi imaginado, e que a Amazônia possuía uma população de até dez milhões de pessoas antes das epidemias e da matança em larga escala conduzida pelos colonizadores europeus.
No que hoje é o pouco povoado estado do Amapá, no norte do Brasil, as pedras do sol descobertas por da Silva perto de um rio chamado Rego Grande estão dando pistas sobre como os povos indígenas da Amazônia podem ter sido muito mais sofisticados do que acreditavam os arqueólogos no século XX.
— Estamos começando a remontar o quebra-cabeça da história humana na Bacia Amazônica e o que estamos encontrando no Amapá é absolutamente fascinante — afirma Mariana Cabral, arqueóloga da Universidade Federal de Minas Gerais que, junto com o marido, o também arqueólogo João Saldanha, vem estudando o sítio de Rego Grande há uma década.
No século XIX, o zoólogo suíço Emílio Goeldi viu os megalitos – pedras monumentais – em uma expedição pela fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Outros pesquisadores, entre eles a pioneira da arqueologia americana Betty Meggers, também encontraram esses sítios, mas afirmaram que a Amazônia era muito inóspita para abrigar assentamentos humanos complexos.
Foi apenas quando da Silva, o então capataz da fazenda, descobriu as pedras de Rego Grande enquanto desmatava a floresta nos anos 1990 que os estudiosos deram mais atenção aos achados. Da Silva diz que viu o sítio pela primeira vez quando estava caçando porcos selvagens por ali na adolescência durante os anos 1960, mas depois passou a evitar a área.
— No início, o lugar parecia sagrado, como se não devêssemos estar lá. Mas foi impossível não vê-lo durante os grandes desmatamentos dos anos 1990, quando a prioridade era queimar as árvores — conta da Silva, que agora é o guardião do sítio de Rego Grande. 
Cerca de dez anos atrás, depois de garantir fundos públicos para isolar as pedras, os arqueólogos brasileiros liderados por Mariana Cabral e João Saldanha começaram a escavar o sítio, que tem a forma de um círculo. Eles logo identificaram um pedaço do rio a 3,2 quilômetros de distância de onde os blocos de granito podem ter sido retirados.
Eles também encontraram urnas de cerâmica que sugerem que pelo menos parte do sítio de Rego Grande pode ter sido um cemitério; enquanto colegas do Instituto de Pesquisa Científica e Tecnológica do Amapá descobriram que uma das pedras altas parecia estar alinhada com o caminho do sol durante o solstício de inverno.
Depois de identificar outros pontos do sítio onde as pedras podem ter sido associadas com o movimento do sol no solstício, os pesquisadores começaram a montar uma teoria de que Rego Grande pode ter servido para várias funções cerimoniais e astronômicas conectadas com os ciclos da agricultura ou da caça.
Mariana Cabral diz que Rego Grande e uma série de outros sítios megalíticos menos elaborados descobertos no Amapá podem também ter sido usados como marcos para os caçadores e pescadores em uma paisagem que estava sendo transformada pelos povos da Amazônia milênios atrás.
Outros pesquisadores dizem que é necessária mais informação sobre Rego Grande para alçar o sítio ao reino de lugares pré-históricos claramente concebidos como observatórios astronômicos.
— Já vimos muitas afirmações parecidas, mas é preciso mais do que um círculo de pedras para ser um Stonehenge — diz Jovita Holbrook, pesquisadora de Astronomia Física e Cultural da Universidade do Cabo Ocidental da África do Sul, reforçando a necessidade de mais descobertas sobre as características de Rego Grande e de como o sítio era usado pelas pessoas que o construíram.
Por enquanto, Rego Grande, que os locais chamam de Stonehenge Amazônico, permanece enigmático. Fragmentos de cerâmica atravessam o solo como se estivessem oferecendo pistas tentadoras sobre o local, que dá a impressão de uma obra de arte conceitual contemporânea. Os pesquisadores ainda estão tentando determinar como o Rego Grande se encaixa nas visões, que não param de evoluir, da história humana na Amazônia.
John McKim Malville, físico solar da Universidade do Colorado que escreve extensamente sobre arqueoastronomia, enfatizou a maneira como o campo está se afastando do foco exclusivo nas funções astronômicas para olhar para interpretações mais holísticas, entre elas cerimônias e rituais de culturas antigas.
Nesse sentido o sítio de Calçoene oferece um vislumbre intrigante do passado da Amazônia.
— As pedras de Rego Grande são extraordinárias e sua irregularidade pode conter um sentido próprio, diferente de outros sítios megalíticos do resto do mundo — explica Malville, levantando a possibilidade de que Rego Grande reflita a importância do animismo – a atribuição de alma a entidades da natureza e a objetos inanimados – nas culturas da Amazônia.
— Podemos apenas especular o que essas pedras significam — afirma.
Por Simon Romero










Fotos: Dado Galdieri/The New York Times

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Nas alturas: bonde histórico é içado antes de ser levado para associação cultural na zona sul de Porto Alegre

Estrutura já foi usada como sede de uma igreja evangélica e atualmente abriga atividades artísticas

Por: Bárbara Müller



Desativado desde 1970, um bonde voltou às ruas de Porto Alegre na manhã desta quinta-feira. Desta vez sem energia elétrica, sua aparição foi em cima de um caminhão-guindaste, que transportou o ainda imponente veículo da Avenida Otto Niemeyer até a Rua Dr. Mário Totta, no bairro Tristeza, na zona sul da Capital. Instalado ao lado de um ateliê, a unidade original da companhia Carris já abrigou uma igreja evangélica e uma sala de arte, além de transportar os porto-alegrenses pelas ruas da cidade.
— Eu estou tremendo de nervosa, o coração está a mil — exclama a arquiteta e proprietária do "veículo" Ângela Ponsi, 44 anos, que acompanhava o processo de içamento do bonde desde às 8h com o celular a postos para registrar todo e qualquer movimento.
A estrutura foi levada para a Associação Recreativa Cultural e Esportiva (Adesbam). De acordo com Ângela, foi firmada uma parceria com a entidade para promover uma programação cultural no local e fomentar as atividades artísticas na Zona Sul. A ideia é receber o público e escolas da Capital a partir de uma agenda que ainda não tem data de divulgação. A decisão de mudar o bonde de local surgiu quando o valor do aluguel do terreno onde a estrutura estava começou a pesar no bolso.
— Hoje, estou realizando um sonho. Eu não queria vender, então busquei uma parceria que fosse manter a mesma proposta cultural e histórica que realizamos desde que adquirimos o bonde. Ele continuará sendo meu, só vai mudar de lugar. É amor antigo — brinca Ângela.


Desde outubro de 2016, a arquiteta estava em busca de transportadoras e de licenças da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) para fazer o deslocamento do veículo.

— É histórico! É a primeira vez que carregamos um bonde. Hoje em dia, é raro ver um na rua, né? — diz, orgulhoso, Rodrigo dos Santos, 34 anos, gerente da Breno Guindastes, empresa que trabalhou no içamento da estrutura. 


Templo religioso e artístico 

Foi amor à primeira vista quando Zilka Ponsi, 86 anos, hoje aposentada, e a filha Ângela depararam com o bonde de 13 metros de comprimento e 3 de largura antes que a estrutura virasse sucata. A relíquia amarelo-ocre pertence à família há 18 anos.
—A minha filha é apaixonada por coisas antigas e ela merecia muito, é muito lindo! O bonde ia ser vendido ao ferro velho, aí trouxemos lá do Lami — rememora dona Zilka, que pagou cerca de R$ 2 mil no negócio.
Antes de ser comprado, em 1998, o bonde era ponto de encontro de religiosos do bairro Lami. No local, funcionava uma igreja evangélica. Dona Zilka conta que o pastor quis vender porque queria construir um espaço maior para receber seus fiéis e não seria possível com a estrutura no terreno. Daquele tempo para cá, o veículo passou por uma restauração, mantendo a cor original e trocando apenas o piso. Fixado ao lado do ateliê da família, o espaço foi utilizado para saraus, apresentações de teatro e atividades artísticas.
— A mãe é pintora autodidata, tinha esse espaço de arte e recebia os amigos aqui. Em 2009, inauguramos o Atelier do Bonde, abrimos a área para visitação de escolas, realizamos oficinas, contação de histórias, noites de autógrafos. É um trabalho muito bonito que quero dar continuidade agora no novo espaço — comenta Ângela.
O custo da primeira restauração e dos içamentos do Lami até a Tristeza e da Avenida Otto Niemeyer até a Rua Dr. Mário Totta foi por meio de recurso próprio. Atualmente, a estrutura precisa de um retoque na pintura e alguns reparos para voltar a oferecer atividades à comunidade.
— Quero colocar bancos dentro do bonde. Nós temos um projeto de restauro e de paisagismo para a área onde ele ficará de agora em diante.
Ainda não há data para a inauguração do novo espaço e para o início das atividades abertas ao público. 







Imagens: Camila Domingues / Especial
 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Cidade de Goiás recebe Mercado Municipal e celebra 15 anos como Patrimônio Mundial

São vários os bons motivos para se morar ou conhecer a Cidade de Goiás (GO). Entre eles está o de a Cidade ostentar por 15 anos o título de Patrimônio Mundial, completados nesta quinta-feira, 15 de dezembro. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), atuante na preservação do conjunto arquitetônico, paisagístico e urbanístico do Centro Histórico de Goiás – protegido pelo órgão desde 1987, participou das festividades do marco histórico, e entregou à população o Mercado Municipal restaurado, pronto para ser reaberto. 

A cerimônia de inauguração do centro comercial de maior destaque do local, inaugurado em 1926, contou com a presença do governador de Goiás, Marconi Perillo, da presidente do Iphan, Kátia Bogéa, acompanhada pelo diretor do PAC Cidades Históricas, Robson de Almeida, pela superintendente do Iphan-GO, Salma Saddi, e pela prefeita da cidade de Goiás, Selma Bastos. 

O processo de restauração ocorreu de portas abertas, possibilitando a presença dos comerciantes e intensa participação da comunidade durante toda a obra. O governador Marconi Perillo agradeceu a parceria e o trabalho realizado pelo Iphan na cidade em Goiás e todo o Brasil. “Presto meu reconhecimento como governador de estado e como cidadão, muito obrigado ao Iphan e ao Ministério da Cultura pelo trabalho de preservação. Obrigado também à Unesco, por ter se lembrado naquela época de uma cidade encrustada no centro do Brasil, e ter nos feito a advertência, de que que foi difícil conquistar o título, mas que ainda mais difícil seria manter o patrimônio”, concluiu. 

Financiada com recursos do PAC Cidades Históricas, custando R$ 10 milhões, a restauração garantiu a revisão completa de todo o sistema elétrico e hidrossanitário do mercado. Entre outros benefícios estão implantação de sistema de proteção contra raios, sistema de proteção contra incêndio, sistema de gás canalizado, sanitários acessíveis e em capacidade de atendimento superior às normas nacionais.

“O Mercado Municipal de Goiás é um claro exemplo de que investir no Patrimônio Cultural Brasileiro é essencial para o fortalecimento das políticas públicas voltadas para o desenvolvimento socioeconômico do país, além de reforçar o sentimento de pertencimento dos brasileiros em relação aos bens culturais nacionais, tão valorizados pelo instituto desde sua criação, há quase 80 anos”, disse Kátia Bogéa. 

As intervenções duraram cerca de dois anos e preservaram as principais características do Mercado, mantendo os aspectos que o aproximam da arquitetura neoclássica, que era tendência no início do século XX, em Goiás.

Patrimônio Mundial há 15 anos
O conjunto arquitetônico, paisagístico e urbanístico do Centro Histórico de Goiás foi tombado pelo Iphan em 1978 e o reconhecimento  como Patrimônio Mundial, pela UNESCO, veio em 16 de dezembro de 2001. E para comemorar os 15 anos de Patrimônio da Humanidade, a Prefeitura de Goiás promove uma programação especial, com atividades que iniciam no dia 15 e vão até o dia 18 de dezembro. 

A cidade de Goiás é testemunha da ocupação e da colonização do Brasil Central nos séculos XVIII e XIX. As origens da cidade estão intimamente ligadas à história das bandeiras que partiram principalmente de São Paulo para explorar o interior do território brasileiro. 

A expansão para o oeste do Brasil exigiu a simplificação dos modelos arquitetônicos vigentes na época, devido à ausência de técnicos, arquitetos e mestres de ofícios na região. Goiás foi o primeiro núcleo urbano oficialmente reconhecido ao oeste da linha de demarcação do Tratado de Tordesilhas, que definiu originalmente as fronteiras da colônia portuguesa. O seu traçado urbano é um exemplo do desenvolvimento orgânico de uma cidade mineradora adaptada às condições do sítio. Apesar de modesta, tanto a arquitetura pública quanto a privada formam um conjunto harmonioso, graças ao coerente uso dos materiais locais e das técnicas aplicadas.

A cidade desenvolveu-se entre morros, ao longo do Rio Vermelho. A sua margem direita possui ocupação de caráter popular, onde se destacam as igrejas do Rosário, originalmente reservada aos escravos, de Santa Bárbara, de Nossa Senhora do Carmo e de Nossa Senhora da Abadia. Na sua margem esquerda encontram-se os edifícios oficiais mais representativos, como a Igreja Matriz de Santana (hoje Catedral), o Palácio do Governo (Conde dos Arcos), o Quartel do Vinte, a Casa de Fundição, a Casa de Câmara e Cadeia (hoje Museu das Bandeiras) e o Chafariz de Cauda.

PAC Cidades Históricas
O PAC Cidades Históricas está sendo implantado em 44 cidades de 20 estados da federação. O investimento em obras de restauração é de R$ 1,6 bilhão, destinado a 425 obras de restauração de edifícios e espaços públicos. Em Goiás, além do Mercado Municipal, já foram entregues as obras do Casarão da Escola de Artes Veiga Valle, da Ponte da Cambaúba e o Arquivo Diocesano Dom Tomás Balduíno, da Sede da Diocese de Goiás. Atualmente mais duas obras estão em andamento na cidade, a restauração do Cine Teatro São Joaquim e a sede da Prefeitura Municipal, com previsão de investimento de R$ 28 milhões. 


Fonte das Imagens: Site Iphan




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Fundação Iberê Camargo organiza força-tarefa para superar crise e aproximar-se do grande público

Redução de financiamento levou a instituição a restringir a programação

Por: Luiza Piffero


No meio da semana, a Fundação Iberê Camargo (FIC) é um enorme e sofisticado edifício com as luzes apagadas. O site está calado, sem indício de programação nem notícias publicadas desde 28 de agosto. São tão poucos sinais de vida que se multiplicaram rumores sobre o fechamento definitivo do prédio, que desde 23 de agosto funciona apenas dois dias por semana e com equipe reduzida.

Em dezembro, veio o primeiro esboço de uma reação: a FIC lançou uma campanha para receber doações do Imposto de Renda do público. Foi uma pista do novo objetivo da instituição: dialogar mais com a comunidade. O comunicado também trazia a notícia de que Justo Werlang agora é o diretor-presidente da FIC. Chamado para substituir Rodrigo Vontobel, o executivo assumiu em 7 de dezembro. Está à frente de uma força-tarefa de diretores e conselheiros que se mobiliza para angariar patrocínios, cortar custos e desenhar uma nova FIC.
Werlang recebeu ZH para duas conversas nas quais a incerteza deu o tom. Ficou claro que não há previsão para que a instituição volte a abrir seis dias por semana. Aliás, a possibilidade de a sede fechar as portas não foi efetivamente descartada. Também não foram divulgados dados financeiros de 2016, tampouco os patrocinadores atuais.
— Estamos buscando ampliar o número de patrocinadores no sentido de gerar sustentabilidade ao projeto — afirma Werlang. — Não podemos divulgar nomes porque esses contratos não estão fechados. Assim que tivermos fechado o volume de recursos necessários para abrir a instituição seis dias por semana, isso será feito.
Atualmente, apenas um dos três andares da FIC está ocupado com uma mostra, Iberê Camargo: Diálogos no tempo. A programação de 2016 ainda previa exposição sobre o espaço cultural Torreão, que foi adiada para 2017.
— A FIC era uma das poucas instituições no Brasil que trabalhavam com três anos de programação. As pessoas entendiam que a FIC era um paradigma, o que ocorreu foi uma alteração muito drástica no financiamento, que determinou a derrubada da programação. A instituição tinha programado exposições no Exterior inclusive, tudo caiu — explica Werlang, relacionando o momento da instituição à crise econômica.
Hoje, cerca de 75% do orçamento da FIC depende da Lei Rouanet, que teve seu pior ano desde 2008. O superintendente cultural Fábio Coutinho chama a atenção para o agravamento da crise econômica nacional:
— O Brasil de agora está pior do que o de agosto. Sabendo que vários museus estão fechando, pode sim haver uma interrupção. Mas não acredito que vá acontecer. Acho que já passamos do pior. Uma instituição como a FIC não tem nada para vender, não tem como fazer uma liquidação, nós precisamos que o país e o Estado estejam bem.
A Fundação quer se aproximar do público
Em 2016, a empresa Edelman Significa realizou um estudo que está servindo de base para o reposicionamento da Fundação Iberê Camargo (FIC). A instituição quer se distanciar da imagem elitista e tornar-se mais convidativa ao público. Nesse sentido, não falta experiência a Justo Werlang, que fez parte do conselho da 10ª Bienal do Mercosul e está na diretoria da Bienal de São Paulo.
— De tanto em tanto, é necessário que as instituições que dependem de recursos privados façam uma revisão. Se ela não é feita, pode acontecer o que aconteceu no Masp, na Bienal de SP, o que aconteceu em 2015 na Bienal do Mercosul e também na Iberê Camargo. As instituições na década de 1990 tinham um formato que, para a FIC, não serve mais — diz Werlang.
O reposicionamento vai na direção da democratização de acesso e da diversificação da programação, que pode ganhar dinamismo ao promover conversas entre artes visuais e artes cênicas, música e literatura, tornando a FIC um "espaço de convivência". Para facilitar o diálogo com a cidade, a FIC pretende contratar um curador-residente. Seu principal papel será detectar as necessidades do público.
— Por que recebemos muita gente na Noite dos Museus e menos durante uma exposição? Por que não aproveitar e fazer outros eventos do tipo? — questiona Werlang.
No último dia 10, a FIC deu um passo nessa direção, ao ceder espaço para a festa do aplicativo Onni. Foi uma tática para atrair público à sede, que poderá ser repetida inclusive como fonte alternativa de renda.
A força-tarefa da FIC também olha para o passado da instituição e considera resgatar ações antigas, como seminários e itinerâncias.
— Antes de abrirmos o prédio, de 1998 a 2006, a instituição tinha um programa de itinerâncias, outro no qual curadores do Instituto de Artes eram chamados para curadorias, outro de seminários anuais. As conversas com a cidade ocorreram talvez mais antes da construção da sede — pondera Werlang.
A nova FIC não quer só receber públicos diversos, mas expandir sua atuação para além do prédio da Fundação. Esse processo seria ligado a ações educativas, que por meio de parcerias poderiam promover a inserção social pela arte.
— Muitos chamam a FIC de museu. Isso é um equívoco. A Iberê Camargo é uma Fundação. Seu escopo de trabalho é muito maior do que esse pequeno departamento que tem acervo e área expositiva — afirma o diretor-presidente da FIC.
Programação de 2017 está alinhavada
Não há apenas uma instituição que materialize o modelo que a FIC quer incorporar, mas Werlang faz referência à 6ª Bienal do Mercosul, reconhecida pela ênfase no programa educativo. Quando perguntado se o programa educativo será prioridade da FIC em 2017, Werlang recua até a época em que a sede estava sendo construída, período no qual recebeu 5 mil visitas de estudantes e profissionais de arquitetura e construção. Depois recua mais ainda, até a criação do Atelier Livre de Porto Alegre proposta por Iberê Camargo, em 1960.
— A FIC tem a vocação de oferecer oportunidades. A educação é a prioridade. Isso acontece na medida em que a Iberê esteja junto da cidade, em vez de dar as costas para ela.
O plano anual de captação de recursos da Fundação para 2017, já aprovado pelo Ministério da Cultura (MinC), prevê cinco exposições e tem custo de R$ 6,5 milhões. Esse valor, caso seja captado por meio da Lei Rouanet, possibilitaria a realização das mostras e o pleno funcionamento da FIC, com o retorno de projetos interrompidos em 2015 e 2016 (Artista Convidado, Bolsa Iberê Camargo e o catálogo raisonné de Iberê). A primeira exposição é herdada de 2016 e foi remarcada para 16 de março: Torreão: O tempo é onde, o lugar é quando, com curadoria de André Severo. Como em todos os anos, uma nova exposição de Iberê está prevista, mas pela primeira vez com curadoria de um artista — Paulo Pasta. A abertura está marcada para 29 de abril.
Entre 23 de julho e 29 de outubro, viriam duas exposições apresentadas em 2016 no centro do país: a retrospectiva da obra gráfica de Millôr Fernandes, realizada no Instituto Moreira Salles, no Rio, e uma mostra sobre livros de artistas apresentada no Itaú Cultural, em São Paulo. O ano fecharia com uma mostra programada para 9 de novembro que propõe uma conversa entre as gravuras de Iberê e as gravuras de mais 39 artistas que participaram do Programa Artista Convidado do Ateliê de Gravura da Fundação.
Essa programação pode ser ampliada e modificada para entrar em consonância com o reposicionamento da Fundação.
Fachada do prédio que sedia a Fundação Ibeê Camargo sofre com a redução dos serviços de manutenção Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS





Empresário e colecionador Justo Werlang está à frente da força-tarefa contra a crise: Carlos Macedo / Agencia RBS