sábado, 22 de abril de 2017

Oito prédios de Porto Alegre que você não pode deixar de conhecer

Eles estão no "Guia de Arquitetura", proposta de passeio por várias épocas.

Por Jéssica Rebeca Weber

O estilo moderno, com materiais aparentes, e a adaptação ao Morro Santa Tereza garantiram ao Condomínio Encosta do Poente um espaço no Guia de Arquitetura de Porto Alegre. Além do edifício em formato de escada, a publicação lançada pelos arquitetos Vlademir Roman e Rodrigo Poltosi no final de março inclui diversos prédios simbólicos para a Capital. As páginas do guia propõem um passeio pelos diferentes períodos da arquitetura da cidade.
— No cotidiano, as pessoas passam na frente de um prédio várias vezes e não o valorizam. Muito porque nem conhecem aquela história — observa Poltosi.
No livro, cem construções recebem uma análise breve de suas características e histórico. A ideia é atender não só a profissionais de arquitetura, mas turistas — por isso, está escrito em português, inglês e espanhol — e moradores da cidade. O retrato que sai mostra os mais diferentes estilos. Foi difícil limitar a uma centena, contam os autores, que partiram de 200 obras. Roman observa que o eclético, que predominou entre o final do século 19 e começo do século 20, é o que mais foi preservado. Prédios ricos em ornamentação como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), o Paço Municipal e o Palácio Piratini possuem características desse estilo.
Já os prédios do período colonial e imperial são mais raros de encontrar. Presidente do departamento do Rio Grande do Sul do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), Rafael Passos destaca:
— A gente não teve um bom começo na preservação do nosso patrimônio. O centro de Porto Alegre foi totalmente descaracterizado.
Passos defende a importância de um trabalho de educação da sociedade, pois muitos moradores não reconhecem o valor histórico e arquitetônico do imóvel que possuem.
— Ainda há aquele entendimento de que, como não tem 400 anos, não precisamos preservar. Mas as pessoas se esquecem que precisa passar pelos 40, 50, 100 anos para poder chegar aos 400 — destaca.





Foto: Montagem sobre fotos de Mateus Bruxel


















Anos 1820 - Um dos poucos prédios da arquitetura luso-brasileira que resistiram sem grandes alterações na cidade. O sobrado colonial foi construído nos anos 1820 e, a partir dos anos 1830, foi dividido e ocupado por várias famílias. Entre as características estão a incidência de beiral (última fileira de telhas que forma a aba do telhado), as janelas em verga de arco abatido (como um meio arco achatado) e, nas quinas do prédio, cunhais marcados. Atualmente, é sede do Porto Alegre em Cena.
Anos 1880 - Com mais de 12 mil m² de área e inaugurado em 1884, é distribuído em seis pavilhões ligados por um eixo de circulação. Tem um rígido padrão clássico, e, na avaliação dos autores do Guia, usa a arquitetura como forma de impor a razão sobre a loucura. É caracterizado pelos arcos plenos no térreo e basculantes, que permitiam a passagem de ar e luz, mas impediam a fuga dos pacientes.
Início Séc. 20 - O conjunto de 17 casas em fita, grudadas umas nas outras, é um testemunho das habitações populares típicas do início do século passado, em uma área que tinha constante ameaça de enchente antes da retificação do Arroio Dilúvio. São decoradas por um friso contínuo que reforça o sentido de conjunto na composição. Os imóveis ainda servem de residência e também abrigam atividades comerciais.
Anos 1900 - O Instituto Astronômico e Meteorológico inovou com elementos do art nouveau, inspirado por formas e estruturas naturais. Tem elementos fitomórficos, com características semelhantes às dos vegetais, e a estátua de Urânia, a musa da Astronomia. Ainda tem representadas, em alto relevo, as constelações do zodíaco e os símbolos dos oito planetas. Atualmente sedia o Observatório da UFRGS. Foi inaugurado em 1908.
Anos 1910 - Um exemplar do estilo eclético é o prédio encomendado em 1910 pela Cervejaria Bopp, onde hoje fica o Shopping Total. Possui fachada rica em elementos decorativos. Tem colunas de garrafas, figuras bávaras com canecas e esculturas que vão de um elefante à imagem do lendário Gambrinus, patrono não-oficial da cerveja.
Anos 1940 - O edifício de aspecto monumental foi construído entre 1944 e 1950 para a antiga rede de lojas e departamentos Mesbla. Tem composição clássica e características da Escola de Chicago, como o tijolo à vista. A esquina é o que mais chama atenção, com arredondamento negativo do corpo do prédio e base com esquina curva. Atualmente, o prédio é usado pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul.
Anos 1950 - É um marco do movimento moderno no Rio Grande do Sul. O térreo possui uma malha regular de pilares. Possui um grande plano de vidro e brises metálicos no corpo da edificação, sendo que as outras fachadas são cegas. Na parede voltada à Praça da Matriz, há uma escultura em bronze da deusa Têmis, guardiã dos juramentos dos homens e da lei. O projeto é de 1953.
Anos 2000 - Construída em um pequeno terreno, essa casa apresenta referências da arquitetura moderna brasileira e indica também relação com a arquitetura contemporânea europeia. A estrutura de concreto é utilizada como planos que se desdobram, de forma com que não dê para distinguir elementos estruturais, como colunas e vigas, e tem ainda acabamentos metálicos. O projeto é de 2004.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Será reinaugurada a Igreja São Domingos de Torres, a segunda mais antiga no Litoral do Estado

A Igreja São Domingos de Torres, bem tombado pelo patrimônio histórico e precioso elemento da memória histórica e religiosa do Rio Grande do Sul, passou por um importante processo de restauro. Após sete anos de obras, a Igreja será entregue à comunidade do município do Litoral Norte gaúcho.
A reinauguração está agendada pra o dia 8 de abril de 2017, às 10h30min, na rua Padre Lamonaco, nº 2, Morro do Farol. E às 15h30min serão realizadas as palestras “Igreja São Domingos de Torres – a viabilização do projeto de restauração através das leis de incentivo à Cultura”, ministrada pelos gestores culturais Lucia Silber e Manuel Dias, da Lahtu Sensu Administração Cultural e “Primórdios da Capela e Matriz de São Domingos das Torres – 1815 – 1856” com o jornalista Nelson Adams Filho, Coordenador do Centro de Estudos da História de Torres e Região, e demais membros da entidade.
Marco
A edificação da Capela de São Domingos, iniciada em 1820 e inaugurada em 24 de outubro de 1824, constitui-se na primeira igreja construída no trecho litorâneo entre Laguna (SC) e Osório (RS), sendo a segunda mais antiga no litoral do Estado. Localizada no Morro do Farol, é o marco inicial do núcleo urbano de Torres, pois foi a partir da igreja que a cidade se desenvolveu.
Erguida por prisioneiros de guerra, guarani-cristãos castelhanos, a edificação é representativa da arquitetura luso-brasileira com trato barroco. O prédio e sua decoração interna têm um estilo eclético, com alguns traços neoclássicos e mesmo neogóticos. Sua única torre foi erguida em 1898 pelo Padre José Lamônaco.
Encontram-se, em sua lateral direita, as fundações da segunda torre, que não foi concluída. Junto à igreja, está localizada a Casa n°1, que recebeu o Imperador D.Pedro I em sua passagem pelo local.
Em 1983, a Igreja Matriz de São Domingos, passou a integrar o patrimônio cultural do Estado, através da Portaria de Tombamento n°5/83.
Restauro
Em 2004, foi elaborado o projeto arquitetônico de restauro, assinado pelo arquiteto Edegar Bittencourt da Luz. Em dezembro de 2010, o projeto foi aprovado junto ao Pronac e, em abril de 2011, junto à LIC-RS. Desde então, uma equipe multidisciplinar liderada pelo Bispo Dom Jaime Kohl, da Mitra de Osório, que investiu os recursos necessários para a elaboração dos projetos, tem se empenhado incansavelmente na captação dos valores que vêm viabilizando as obras.
Estas iniciaram em 2010, com recursos do Fundo Nacional de Cultura R$ 300.000,00 e contrapartida da Prefeitura Municipal de Torres (R$75.613,50) e Mitra Diocesana de Osório (R$ 59.559,98).
Seguindo, em 2013, com o financiamento do Governo do Estado do Rio Grande do Sul por meio da lei de incentivo à cultura estadual, R$ 1.015.909,72, e do Governo Federal por meio da lei de incentivo à cultura nacional, R$ 819.450,55, patrocinados pelas empresas Tramontina (patrocinadora máster), Gerdau, CEEE, Banrisul, Randon, Casa Perini, Malharia Anselmi, entre outras.
O projeto tem execução da Arquium Construções e Restauro e gestão administrativa da Lahtu Sensu Administração Cultural. O custo total do projeto foi R$ 2.270.533,75.
Em 2008, a igreja foi interditada para o uso e visitação. Quando foi iniciada a restauração em 2010, o estado físico estava comprometido por infiltrações nas paredes e a torre e a fachada estavam num avançado grau de erosão pluvial e eólica.
Foram mantidos sua estrutura e estilo original. A equipe procedeu a colocação de reboco transpirável em cal e areia, além da requalificação dos elementos de vedação em esquadrias de madeira, restauradas ou novas. Além disso, a estrutura de forros e pisos foram substituídos por madeira de alta densidade.
Também foram restaurados os bens integrados (imagens de santos em madeira e mobiliário) além da pavimentação do adro e dos blocos de arenito em cantaria, com a pintura a base de cal. A etapa final da obra consistiu na dotação de infraestrutura de instalações hidráulicas, elétricas e proteção a incêndio e segurança, bem como na implantação do sistema de drenagem e escoamento das águas pluviais e de acessibilidade.
Dom Jaime comenta sobre a importância da preservação deste importante monumento histórico. “A revitalização da Igreja São Domingos vai restituir à comunidade do município e do Estado este valioso imóvel, referência da arquitetura neo-colonial brasileira. A comunidade torrense poderá voltar a frequentá-la para suas celebrações, e a visitação dos turistas será retomada.”







Após sete anos de obras, a Igreja será entregue à comunidade neste sábado (Foto: Divulgação)







A edificação da Capela de São Domingos foi iniciada em 1820 e inaugurada em 24 de outubro de 1824 (Foto: Divulgação)












(Foto: Divulgação)

sábado, 1 de abril de 2017

Enquanto Olímpico agoniza, vizinhança convive com abandono e sensação de insegurança

Assistindo ao Olímpico Monumental agonizar, a região que o abrigou e cresceu com o Grêmio também sofre. Desocupado há pouco mais de dois anos, o estádio parcialmente demolido colabora para a sensação de insegurança no limite dos bairros Azenha, Medianeira e Menino Deus. E deixa um sentimento de abandono, tanto em gremistas como em colorados.
— O Grêmio era a mola propulsora para o comércio, o entretenimento e até a autoestima no local. Era o coração do bairro — diz o professor Marcelo Xavier, 46 anos, vizinho do estádio desde que nasceu.
Sem jogos ou perspectivas para o começo de alguma obra no local há quatro anos, parte dos negócios — como o Bar Preliminar, tradicional ponto de encontro de torcedores — fechou as portas na região.
O funcionário público federal Mauro Ribeiro de Souza, 59 anos, avalia que o estádio alimentava o comércio e "dava vida ao bairro". Agora, com as ruas mais vazias, as placas de "vende-se" se multiplicam por residências e imóveis comerciais. E é difícil encontrar um vizinho que não se queixe de aumento da criminalidade.
— A gente sempre gostou de morar aqui — conta a dona de casa Carmen Regina Feijó, 60 anos, que colocou à venda a casa em que mora desde os cinco anos, na Rua José de Alencar. — Mas agora não tem mais segurança, (a região) ficou deserta. E a gente já tem uma certa idade.
Carmen costumava tomar chimarrão nas praças da rua, junto à rótula da Avenida Erico Verissimo. Pela insegurança e pela falta de cuidado, nunca mais se animou em frequentá-las. Na calçada da Praça Cid Pinheiro Cabral, a aposentada Vera Lucia Seben, 60 anos, atesta:
— Ninguém em sã consciência vem aqui.
Vera salienta que, antes, as áreas públicas tinham mais manutenção e capina. Ela também chama a atenção para a quantidade de moradores de rua e de usuários de drogas ao redor do "falecido" Olímpico.
— Tem lugares que tu nem te dá conta de que são praças, mas vê que tem pessoas "depositadas" lá — lamenta.
O lixo e a grama alta também saltam aos olhos. A respeito das áreas públicas, o secretário de Serviços Urbanos de Porto Alegre, Ramiro Rosário, lembra que o serviço de capina havia sido interrompido no começo do ano, mas que a empresa contratada emergencialmente está trabalhando para vencer os espaços que ainda não foram contemplados. Ele também admite que há uma dificuldade maior de manter limpas praças onde há muitos moradores de rua.
Em fevereiro, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) vistoriou a área do estádio e notificou o Grêmio pela quantidade de lixo exposto no terreno. Ainda de acordo com Rosário, o clube atendeu à solicitação e realizou a capina e serviço de limpeza na área de propriedade do clube.
Quem não fechou, está no vermelho
As cores da bandeira gremista seguem na fachada estreita e antiga do prédio na Avenida Carlos Barbosa, com o nome do estabelecimento: Restaurante Manjeronas. Mas, assim como o Olímpico, o negócio — situado no lado oposto da via — fechou, e o prédio sofre com o tempo e o vandalismo. O proprietário do imóvel, José Carlos da Silva, 70 anos, conta que o locatário entregou as chaves depois que o Grêmio foi para a Arena, na Zona Norte. O local está há um ano à venda — José não está conseguindo o valor que pede pela área.
O Preliminar também fechou as portas, na esquina da Avenida José de Alencar com a Rua Dona Cecília. O bar que durante mais de 10 anos dedicou finais de semana ao Grêmio tentou sobreviver no bairro — inclusive, foi transformado em minimercado na reta final. Mas as chaves foram devolvidas há um ano para a proprietária do imóvel. Ela está financiando uma reforma, na torcida para que, ajeitando o local, apareça alguém querendo alugar.
Diferentemente dos negócios que debandaram com a saída do Grêmio, um restaurante que foi aberto na Carlos Barbosa motivado pela promessa da construção de um grande empreendimento na área do Olímpico. A proprietária, que não quis se identificar, conta que o estabelecimento foi arrombado três vezes no último ano. Com a esperança de que as obras saiam do papel, ela permanece no local.
— Mas não tem perspectiva nenhuma. A sensação é de impotência total — relata. 




















Fotos: Anderson Fetter / Agencia RBS

domingo, 26 de março de 2017

Obra em igreja histórica de Cuiabá (MT) está parada por impasse com o Iphan

Iphan afirma que a reforma não está adequada ao projeto original. Telhado da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito pode ceder.

Uma reforma no telhado da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no Centro de Cuiabá, foi embargada em dezembro de 2016 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por não estar adequada ao previsto no projeto que havia sido autorizado pelo órgão. Um novo projeto foi feito e a igreja espera autorização para dar continuidade à obra.
A ideia da reforma no salão de festas, onde funciona a cozinha da igreja, surgiu diante da ameaça de o telhado ceder a qualquer momento. Por causa disso, o uso do local foi proibido, como afirma o pároco da igreja, Marco Antônio de Oliveira.
“Nós solicitamos a vistoria por parte de engenheiros e disseram que o telhado estava condenado e então interditaram o local por segurança”, contou.
O pároco informou que, no lugar das telhas tradicionais e do madeiramento, a paróquia escolheu uma estrutura metálica por ter maior durabilidade. No entanto, outro detalhe apontado pelo Iphan durante a fiscalização da obra foi a falta de um beiral no telhado.
“Houve uma visita do Iphan e [os técnicos] se assustaram quando viram a altura das vigas de metal. Também olharam o projeto original e viram que faltava o beiral externo”, disse o pároco.
Com a cozinha sem telhado, quando chove o local fica exposto à umidade. A preocupação é que as paredes antigas possam ser danificadas e a reforma fique mais cara. “Não estamos recebendo nenhum centavo de ajuda para a realização da obra. Só não entendemos porque esse projeto está demorando tanto”, avaliou o padre.
A obra foi iniciada em outubro de 2016, no entanto, no mês de dezembro do mesmo ano o Iphan mandou parar, pois a reforma estava “fugindo” do que estava previsto no projeto original, segundo a superintendente do Iphan, Amélia Hirata.
“Foi apresentado um projeto de reforma simplificada e quando foi feita a verificação notamos que algo estava sendo diferente do aquilo que foi aprovado pela unidade”, disse.
A possibilidade de manter a estrutura metálica está sendo avaliada. “Ele já foi analisado. Tem um parecer favorável por parte do Iphan. Agora precisamos do restante dos encaminhamentos que ainda estão tramitando na unidade”, disse a superintendente.
A superintendente informou que o órgão está aguardando o fim dos trâmites internos do processo. A expectativa é que tudo fique pronto antes da tradicional festa de São Benedito, realizada todos os anos no mês de junho.

Fonte original da notícia: G1 MT
Igreja Nossa Senhora do Rosário passa por uma pequena reforma no telhado. (Foto: Carlos Palmeira/ G1)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Como está a restauração da Igreja Nossa Senhora das Dores em Porto Alegre

No dia 26, aniversário de Porto Alegre, será apresentada estrutura que ficou quase meio século escondida em um sótão da construção.

A Igreja Nossa Senhora das Dores vai entregar um presente a Porto Alegre no dia 26, data do aniversário de 245 anos da cidade: a restauração do retábulo (estrutura afixada na parte posterior ou acima) do altar da capela suplementar, que ficou quase meio século escondido em um sótão, será apresentada à comunidade.
Nesta quinta-feira, em visita guiada à imprensa, os responsáveis pelo trabalho mostraram uma prévia da restauração. A estrutura, em homenagem a Santo Antônio Maria Claret, foi removida em 1968, após a transição da igreja de uma ordem religiosa para outra — dos Clarentianos para do Santíssimo Sacramento —, e encontrada em 2003, durante a revitalização da capela principal.
Especialista em bens integrados e responsável pelas restaurações, Susana Cardoso explica que o trabalho foi orientado por um critério preservacionista:
— Fazemos o mínimo de intervenção na obra original possível, preservando a originalidade.
Durante o preparo da capela suplementar para as intervenções, foi encontrada uma assinatura, que se supõe seja de alguém que trabalhou na remoção do retábulo original nos anos 1960. A partir daí, surgiu a ideia de assinar o projeto.
— Vamos colocar uma cápsula do tempo dentro do altar para que nosso trabalho fique registrado — conta Susana.
A restauração da igreja se iniciou em dezembro do ano passado e já teve o restauro do telhado concluído. Agora, falta a pintura do altar da capela principal, que tem 13 metros de altura, e está prevista para começar em julho. Essa fase do projeto também prevê a liberação de visitações às duas torres da igreja, que precisam de Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI) para serem iniciadas — o plano está em fase de readequação e deve ser liberado até o fim do ano. Com 63 metros de altura, as torres oferecem uma vista panorâmica do centro da cidade.
A restauração foi aprovada em 2015 pela Lei de Incentivo a Cultura (LIC-RS) e recebeu apoio da Braskem, que investiu R$ 1,6 milhão no projeto. Segundo Lucas Volpatto, arquiteto responsável pelas obras, será necessário captar ainda R$ 2,5 milhões para colocar em prática a construção de um museu de arte sacra no local, que tem um acervo com mais de 2 mil itens sobre a história da edificação ao longo dos séculos — será o primeiro museu de arte sacra da Capital.
— A realização desse museu vai mesclar a história da Igreja das Dores com a história de Porto Alegre, que se cruzam em diversos momentos — relata Volpatto.
A Igreja Nossa Senhora das Dores é famosa pela escadaria de 62 degraus e pelos mistérios que a cercam. A lenda conta que um escravo que participava da construção, iniciada em 1807, foi acusado injustamente de roubo e condenado à forca, montada em frente ao local. Sentindo-se injustiçado, o escravo teria amaldiçoado a construção antes de morrer, afirmando que seu patrão (um dos patrocinadores da obra) jamais a veria concluída. Acredite em lendas ou não, a igreja levou 97 anos para ser finalizada.















Fotos: Isadora Neumann/Agência RBS

quinta-feira, 16 de março de 2017

Um presente antecipado para revitalizar o centro de Porto Alegre

A rede Lebes vai restaurar o prédio da antiga Guaspari, que terá três andares de loja e atrações gastronômicas, com previsão de abrir até julho

Por: Marta Sfredo

O aniversário é só na próxima semana, mas Porto Alegre já ganhou um belo presente: a direção das lojas Lebes, comandada por Otelmo Drebes (último à direita da foto abaixo) comunicou ao prefeito Nelson Marchezan que investirá R$ 8 milhões para restaurar o prédio da antiga Guaspari — na Avenida Borges de Medeiros, junto ao Largo Glênio Peres —, listado como patrimônio histórico. A intenção é ter a megaloja pronta até o final de julho. 
Além de ocupar três andares com suas atividades, resgatando um endereço tradicional do comércio da cidade, a Lebes vai chamar parceiros para transformar a área em um mall no Centro: o quarto piso está destinado a um restaurante que servirá até mil refeições no almoço, e a cobertura, com vista para um dos cartões postais, a prefeitura antiga, terá um café com terraço, como em toda cidade de autoestima elevada.
A rede de varejo com origem em São Jerônimo negocia há quase um ano com investidores que adquiriram o imóvel. Vai alugar o espaço por 15 anos. Principal imagem da janela da sala do prefeito, hoje o prédio é um retrato do Centro: deteriorado, cercado de sem-teto e sujo.
– Esperamos que sirva de estímulo a outros empresários para que também colaborem nessa revitalização – disse Drebes à coluna. 
O projeto está contratado com Evandro Eifler, arquiteto da Livraria do Globo. Entre os aspectos que já estão definidos, estão partes da fachada cobertas de vegetação, combinando com a cor do logotipo da empresa (confira imagem principal). A operação da Lebes vai representar 60 empregos diretos e outros 300 indiretos. Sobre a visita ao prefeito, Debres afirmou:
– Não fomos pedir nada, fomos contar o que estamos fazendo, que é importante para a cidade. Vamos organizar, limpar e iluminar aquela áreas, contribuindo para a segurança.

Foto: Reprodução / Divulgação





Foto: Cesar Lopes / Divulgação,prefeitura

terça-feira, 14 de março de 2017

Restauração da Torre Medieval de Cádiz: Atentado ou preservação do patrimônio?


  • Traduzido por Joanna Helm

  • Em 2011, após o colapso parcial da Torre Medieval do Castelo de Matrera em Villamartin, Cádiz (datado do século IX dC), decidiu-se finalizar a restauração do projeto, com o objetivo de controlar o risco de colapso total e evitar assim, a destruição dos poucos itens que ainda restavam.
    O desafio da execução do projeto de restauração ficou à cargo do arquiteto espanhol Carlos Quevedo Rojas, cujo projeto foi aprovado pela Junta da Andaluzia em conformidade com a Lei Andaluz de Patrimônio Histórico, que proíbe tentativas de reconstrução mimética e  que exige o uso de materiais que se diferenciem dos materiais originais da obra.
    Segundo o arquiteto: "Esta intervenção pretende atingir três objetivos básicos:  consolidar estruturalmente os elementos emergentes em risco; diferenciar a intervenção adicionada ao item original (evitando as reconstruções miméticas que são proibidas por Lei) e recuperar o volume, textura e tonalidade que tinha a torre originalmente. Sendo, portanto, uma realidade aparentemente antagônica, a essência do projeto não se destina a ser, portanto, uma imagem do futuro, mas sim um reflexo de seu próprio passado, de sua própria origem ".
    A controversa restauração não só gerou uma ampla discussão internacional sobre a restauração do patrimônio, mas será levada para a Comissão da Cultura do Parlamento de Andaluzia pelo grupo  Izquierda Unida, para ver se este era o resultado esperado pelo Ministério da Cultura. Por outro lado, o edifício que antigamente recebia visitas esporádicas hoje tornou-se a nova atração turística da região.
    Por que essa restauração tem causado tanta controvérsia? É realmente um "atentado patrimonial", como chamaram os meios de comunicação? Você acha que poderia ter sido feito de melhor maneira?
    O que você acha? Veja os comentários nas redes sociais, e deixe a sua opinião no final do post.
    (Atualização) À princípio o artigo  se mencionava que a restauração utilizava uma técnica baseada na anastilose. Segundo o autor, em Matrera foram reutilizadas pedras (calcárias) existentes para a construção dos contrafortes e volumes de consolidação, mas não foi re-definida cada pedra no seu lugar original, então não é exatamente um anastilose.














    Crédito das imagens: do site Archdaily

    domingo, 26 de fevereiro de 2017

    Cidades sustentáveis

    Velocidade acelerada do crescimento urbano é um problema real que precisa ser abordado com planos e métricas quantificáveis

    Por Eduardo Athayde
    Diretor do Worldwatch Institute (WWI) no Brasil

    Quando a ONU realizou a primeira Conferência sobre o Meio Ambiente Humano (1972), em Estocolmo, as consequências da degradação ambiental para um planeta com 3 ,7 bilhões de habitantes foram destacadas. Em 1987, com 5 bilhões de habitantes, a ONU publicou o relatório intitulado Nosso Futuro Comum, afirmando que o desenvolvimento deve satisfazer às necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das futuras gerações. Hoje, com uma população de 7,3 bilhões de seres humanos, 59% vivendo em cidades, as discussões globais estão focadas no ambiente urbano. Viramos seres urbanos liderando uma economia planetária.
    Impactada pelo crescimento desenfreado, a civilização humana dedicou um encontro ao tema pela primeira vez na história, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Eco 92 (1992), no Rio, onde o conceito de ¿Desenvolvimento Sustentável¿ foi oficializado como senso comum. Entre a Eco 92 e a Rio+20 (2012), em apenas duas décadas, acrescentamos mais 1,6 bilhão de habitantes/consumidores e mais 50 trilhões de dólares em PIB, ao planeta. Como civilização, continuamos a crescer a um ritmo acelerado de 80 milhões de habitantes por ano.
    A velocidade do crescimento impacta a todos. Em 1804, atingimos o primeiro bilhão de seres humanos. Cento e trinta anos depois, em 1934, atingimos o segundo bilhão e, de lá para cá, aceleramos a um ritmo desenfreado, acrescentando ao planeta mais 5 bilhões de novos habitantes/consumidores em apenas oito décadas. Em 1900, cerca de 150 milhões de pessoas moravam em cidades. Em 2000, eram 2,8 bilhões. Desde 2008, mais de 50% da população da Terra vive amontoada em cidades, fazendo dos humanos uma ¿espécie urbana¿ cada vez mais imobilizada. No Brasil já somos 84% urbanos e, segundo o IBGE, seremos 90% em 2020. Hoje, a velocidade dos carros nas grandes cidades é igual à das carruagens, literalmente puxadas a ¿dois cavalos¿ de força, do início do século 20.
    O Acordo de Paris, assinado em dezembro de 2015 por 195 países, entrou em vigor em 4 de novembro de 2016, inclusive no Brasil, determinando a descarbonização da economia, uma imperiosa necessidade que, dentre muitos benefícios para pessoas, cidades e o planeta, implica um robusto e lucrativo negócio, com investimentos iniciais de US$ 100 bilhões/ano, começando pela eficiência energética. O novo presidente americano, Donald Trump, com a força que tem, terá que observar o que ensina o provérbio chinês: ¿Existe a sua verdade, a minha verdade, e a verdade verdadeira¿ – essa última move o mundo.
    Desregrado, o mundo faz rebrotar o modismo do ¿compliance¿, que nada mais é do que a busca da conformidade, governança baseada no respeito às regras, um dos pilares do desenvolvimento equilibrado, também chamado de sustentável. O novo relatório internacional do Worldwatch Institute, Cidades Podem Ser Sustentáveis? (452 páginas), publicado há 33 anos consecutivos em 20 idiomas, e cuja edição deste ano está sendo traduzida para o português, mostra, com fatos e dados, inclusive virtuais, iniciativas exitosas de cidades do mundo focadas no bem estar das pessoas, a chamada sustentabilidade de resultados, com projetos, orçamentos, prazos e entregas. Sem métricas quantificáveis, ficamos apenas no blá-blá-blá da sustentabilidade.
    Neste novo espaço de nuvens virtuais que conecta o dia a dia frenético de 3,7 bilhões de pessoas internetizadas (só o Facebook tem 1.2 bilhão de conexões) onde smartphones passaram a ser uma espécie de extensão digital do corpo humano, a ecologia interior das pessoas, das casas, das famílias, dos amigos e do trabalho reclama o seu espaço, buscando ambientes sadios e uma cultura da paz.


















    Só no Brasil, a população urbana já representa 85% do total de habitantes e, segundo o IBGE, seremos 90% em 2020
    - Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS








    Hoje, com uma população de 7,3 bilhões de seres humanos, as discussões globais estão focadas no ambiente urbano - Foto: SARAH DAWALIBI / AFP


















    Repercussões das mudanças climáticas atingem a fauna global e provocam protestos ao redor do mundoFoto: Sandy Huffaker / AFP