domingo, 17 de junho de 2018

Além de Roberto Marinho, veja outros colecionadores de arte que abriram suas casas ao público

Em diversas cidades, propriedades foram reformadas para se tornarem centros culturais

Uma coleção de arte particular pode ser o retrato do seu proprietário. Há os que guardam tudo em sua residência, os que doam as obras adquiridas para instituições já existentes e aqueles que constroem espaços específicos para os trabalhos. Quando decidem fazer isso na própria residência, a experiência se torna ainda mais pessoal. É o caso do Instituto Casa Roberto Marinho, inaugurado neste ano, na zona sul do Rio de Janeiro. Abaixo, veja outros colecionadores que transformaram suas casas em espaços para exibir sua coleção.

Instituto Moreira Salles 

(Rio de Janeiro, RJ)

A sede do Instituto Moreira Salles, na Gávea, no Rio de Janeiro, é uma mansão de 1948 que já foi o lar do embaixador Walther Moreira Salles. A construção moderna foi projetada por Olavo Redig de Campos e, assim como a Casa Roberto Marinho, tem jardins desenhados por Roberto Burle Marx. Atualmente, abriga exposições de arte contemporânea e de fotografia – especialidade do IMS, que possui 2 milhões de imagens –, café, cinema e reserva técnica com o acervo em música, literatura e outros. Veja mais em: ims.com.br
















Robert Polidori / Acervo IMS

Fundação Maria Luisa e Oscar Americano 

(São Paulo, SP)

Pouco conhecida, essa fundação ocupa um parque de 75 mil metros quadrados no Morumbi, em São Paulo. Além da área verde, com esculturas, a grande atração é a casa modernista onde viveu Oscar Americano – projetada por Oswaldo Arthur Bratke em 1950, está aberta ao público desde 1980. No local, está exposto o acervo da família, que inclui peças dos períodos colonial e imperial (desde mobiliário e prataria até pinturas do holandês Frans Post) e de artistas do século 20, como Portinari, Di Cavalcanti, Brecheret e Segall. Nos finais de semana, a fundação realiza atividades como recitais. Veja mais em: fundacaooscaramericano.org.br












Divulgação / Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Fundação Vera Chaves Barcellos 

(Viamão, RS) 

A artista plástica e colecionadora Vera Chaves Barcellos vive e trabalha em Viamão, onde também mantém a reserva técnica e o espaço expositivo da fundação que leva seu nome. A Sala dos Pomares, um prédio de 400 metros quadrados, recebe duas exposições de arte contemporânea por ano, além de diversas atividades paralelas. O acervo da fundação conta com mais de 2 mil obras de artistas jovens e consagrados do Brasil e do Exterior – entre eles, a produção da própria Vera e seus colegas do grupo Nervo Óptico e do Espaço N.O. Veja mais em: fvcb.com.br


















Omar Freitas / Agencia RBS

Centro de Arte Contemporânea de Inhotim 

(Brumadinho, MG)

Um dos maiores colecionadores de arte do mundo, o empresário siderúrgico Bernardo Paz transformou a sua fazenda no interior mineiro no maior museu de arte contemporânea do país. O terreno de 600 hectares virou uma reserva natural com pavilhões que exibem a coleção, com cerca de 500 obras, entre esculturas, gravuras e pinturas de artistas como Adriana Varejão, Cildo Meirelles, Tunga e Chris Burden. Veja mais em: inhotim.org.br


















Ricardo Chaves / Agencia RBS

Chácara do Céu 

(Rio de Janeiro, RJ)

A coleção do empresário Raymundo Ottoni de Castro Maya está dividida entre duas residências no Rio: a Chácara do Céu, em Santa Teresa, e o Museu do Açude, no Alto da Boa Vista. São cerca de 22 mil obras, entre pinturas, esculturas, azulejos, mobílias, pratarias e livros. O mais conhecido deles, o Museu da Chácara do Céu ocupa uma residência projetada por Wladimir Alves de Souza com traços modernos. Lá é possível ver exposições de peças da coleção, que inclui trabalhos de mestres brasileiros, orientais e europeus. Veja mais em: museuscastromaya.com.br


















Divulgação / Museu Chácara do Céu

Conheça a Casa Roberto Marinho, novo centro cultural que exibe uma das maiores coleções de arte do país

ZH visitou o casarão no bairro Cosme Velho, na zona sul do Rio de janeiro

Guignard, Pancetti, Portinari, Nery. Para a maioria de nós, esses são nomes fundamentais da arte brasileira. Para o jornalista e empresário Roberto Marinho (1904 – 2003), eram também amigos cujos ateliês frequentava, acompanhando a criação de obras que ajudariam a construir o modernismo no Brasil.

Foi a partir desse lugar privilegiado que o criador do Grupo Globo começou a compor sua coleção de arte, em 1939, quando tinha 35 anos. Ao invés de mirar grandes nomes, apostou em jovens promissores – aqueles sobrenomes do início deste texto e muitos outros que ajudou a projetar. Essa sua faceta de colecionador de arte e mecenas ganha visibilidade com o Instituto Casa Roberto Marinho, centro cultural inaugurado na residência onde o jornalista viveu, na zona sul do Rio de Janeiro. A bela mansão, no bairro Cosme Velho, tornou-se um lugar para ver arte moderna e abstracionismo informal, especialidades da sua coleção, que é considerada uma das 10 mais importantes do Brasil.

Desde a abertura, em 28 de abril, o espaço tem recebido, em média, 400 visitantes por dia. Quem chega deve circundar um canteiro de flores vermelhas, com estátuas e uma fonte, para chegar ao imponente casarão. A fachada rosa contrasta com o paredão verde da floresta da Tijuca, que emoldura o prédio como uma continuação do jardim. Em um dia claro, é possível enxergar o Cristo Redentor ao longe, acima do telhado.

Vale a pena demorar-se no jardim, um dos primeiros projetos privados do arquiteto paisagista Roberto Burle Marx (1909–1994). Ao som relaxante de uma queda d'água do Rio Carioca, que passa pela propriedade, o visitante é convidado a passear entre plantas tropicais e esculturas de artistas consagrados, como Pássaro (1969), em mármore carrara, de Bruno Giorgi, e Flexos 6 (2007), em metal, de Ascânio MMM.

A mansão foi construída em 1942, por encomenda do próprio Marinho, em estilo neocolonial inspirado no Solar de Megaípe, fazenda pernambucana do século 17. Marinho viveu lá de 1943 até a morte, em 2003, quando o local recebeu seu velório. Nessas seis décadas, a casa virou ponto de encontro da alta sociedade carioca, atraída por eventos que contavam com música, literatura, artes plásticas e teatro. Fotografias de arquivo mostram Dorival Caymmi, Amália Rodrigues e Pixinguinha fazendo shows na sala de estar e os atores Tônia Carrero e Paulo Autran apresentando uma peça nos jardins. Quando Marinho comprou duas pinturas para doar ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), uma de Modigliani e outra de Renoir, fez questão de organizar uma festa para apresentar as obras à sociedade carioca. Eram tantas recepções a personalidades ilustres do Exterior e políticos que a casa foi apelidada de "sede informal do Itamaraty". Entre os convidados, estavam os ex-presidentes da república Juscelino Kubitschek e José Sarney. 

Hoje restam poucos vestígios desse passado glamoroso: no salão principal, ficou um piano de cauda, agora sem os retratos de família em cima. Sumiram sofás, mesas e tapetes. Para ver a residência mobiliada e conhecer sua história, os visitantes fazem fila para um pequeno cinema, nos fundos do térreo, que exibe continuamente o documentário Casa, do diretor Antonio Carlos da Fontoura. Os famosos flamingos, que eram criados por Marinho e sua esposa Lily, também sumiram. Foram substituídos por carpas já que o fluxo de visitantes da casa aumentaria muito.


Ainda que um canto do jardim guarde uma escultura abstrata assinada pelo próprio Marinho, de maneira geral, a presença do proprietário é discreta na casa. Segundo o antropólogo e curador Lauro Cavalvanti, que dirige o instituto, os filhos do colecionador não queriam uma instituição memorialista:

– A família tomou essa decisão de não fazer um culto à personalidade dele. 

Quando pergunto se transformar a casa em instituto era uma vontade de Roberto Marinho, o diretor não sabe responder, mas lembra das várias vezes em que a coleção foi exibida. Ele mesmo foi o curador de algumas, por isso foi convidado a assumir o centro cultural.

– O Roberto tinha vontade que a coleção fosse vista, por isso emprestava bastante as obras. Mas não falava sobre o que viria depois da morte.

A missão de Cavalcanti foi priorizar a arte e criar um centro de referência do modernismo brasileiro.

– Os museus de arte moderna apresentam muitas exposições de arte contemporânea. Aqui nos propomos a ser um lugar onde se pode ver arte moderna de maneira contínua.

Entre 2014 e 2018, o curador acompanhou o projeto de transformar a casa em centro cultural, executado pelo arquiteto Glauco Campello. O terreno ganhou um anexo para reserva técnica e um pavilhão com livraria, café e sala para oficinas e cursos. Enquanto o primeiro piso da mansão sofreu poucas modificações, o segundo foi transformado em uma série de galerias – atualmente, nada indica que um dia foram biblioteca e quartos, exceto um discreto registro na varanda ligada ao antigo dormitório de Marinho. Um elevador foi implantado para melhorar a acessibilidade.

A obra foi financiada com recursos próprios da família Marinho, sem recorrer a incentivos fiscais, mas o orçamento não é divulgado.

– Foi feito um esforço grande para pôr esse centro de pé. Não se recorreu a isenção fiscal, em um período de crise. É nosso objetivo retomar compras, mas não pelos primeiros dois anos. Primeiro, vamos fazer uma coleção sólida – diz o diretor.

Segundo Cavalcanti, a prioridade agora é costurar parcerias com outras instituições. A próxima mostra, em dezembro, incluirá peças do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Outro objetivo é estabelecer contatos com instituições vizinhas para melhorar o bairro, que costumava abrigar o Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), hoje desativado. 
A coleção

A Coleção Roberto Marinho começou como uma aposta em artistas promissores da primeira metade do século 20, nomes como Portinari e Guignard, que assimilavam as vanguardas europeias ao mesmo tempo em que buscavam uma linguagem e temáticas distintamente brasileiras. Hoje, conta com 1.473 obras, entre pinturas, esculturas, gravuras e desenhos. Apesar de incluir estrangeiros, como Chagall, De Chirico e Léger, o foco do acervo é o modernismo brasileiro, especialmente o dos anos 1930 e 1940, e o abstracionismo informal – movimento das décadas de 1950 e 1960, composto por nomes como Antonio Bandeira, Iberê Camargo, Manabu Mabe e Tomie Ohtake.

Para adquirir as obras, Marinho contava com a ajuda de especialistas, mas era dele a palavra final. Quando a coleção ficou grande para as paredes da casa, passou a ser guardada em um local específico e era frequentemente emprestada para instituições. Entre 1984 e 2014, foram organizadas doze mostras da coleção em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Buenos Aires e Lisboa.


Atualmente, duas exposições estão em cartaz no casarão e poderão ser visitadas até o início de dezembro. Em uma pequena galeria do térreo, 10 Contemporâneos – A Casa reúne gravuras inéditas sobre o tema "casa". Encomendadas a 10 artistas contemporâneos (nomes do primeiro escalão, como Daniel Senise e Anna Bella Geiger), passaram a integrar a coleção Roberto Marinho. Mostras assim, em que artistas de hoje dialogam com o instituto e seu acervo, devem ser comuns na instituição. No jardim, também há novas obras, encomendadas especificamente para o local, como a instalação de Carlos Vergara que conversa com um conjunto de bambus e a escultura Mulher Nova 3 (2017), de Raul Mourão, que se move com o vento, apesar de ser de aço e ter 350 metros de altura.

Ocupando todo o segundo andar, está a exposição principal: 10 Modernos – Destaques da Coleção. Cavalcanti selecionou 124 obras dos artistas que melhor representam o acervo de Roberto Marinho e são também expoentes do modernismo brasileiro dos anos 1930 e 1940: Di Cavalcanti, Alberto Guignard, Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Djanira, Burle Marx, Milton Dacosta, José Pancetti, Lasar Segall e Ismael Nery.

Como a coleção foi constituída a partir do gosto pessoal de Marinho, é inevitável se perguntar, por exemplo, o que lhe teria cativado em obras tão diferentes quanto um vaso de flores pintado por Portinari em 1950 e a soturna tela A Barca, do mesmo artista, de 1941. Ou por que preferiu adquirir três telas com o mesmo tema pintadas por Tarsila do Amaral. 

São paisagens com casas em montanhas, como O Touro (Paisagem com Touro), uma raridade de 1925 que o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) solicitou para sua retrospectiva da artista.

– Esse quadro iria para o MoMA, mas não queríamos desfalcar a exposição na abertura da casa. É uma pintura emblemática da primeira fase da Tarsila, uma das 10 obras mais importantes da pintora – explica o curador.

Quatro telas revelam que o Burle Marx pintor tinha muito em comum com o Burle Marx paisagista: as formas humanas são arredondadas como os canteiros do jardim; nas naturezas-mortas, o fascínio pelas plantas é expresso nas folhas verdes exuberantes, que protagonizam os quadros. De Guignard, há uma sala inteira.

Ismael Nery é o artista com mais trabalhos na coleção: são 70, na maioria, desenhos. Obras com uma figura bissexual ou o encontro de Cristo e Lênin mostram como o artista se debruçava sobre temáticas à frente do seu tempo – e, segundo o curador, recebia incentivos de Marinho por isso.

Com 29 obras de Pancetti, Marinho era um dos principais colecionadores do artista no país e costumava expor suas obras em uma sala específica. As marinhas, gênero pelo qual o artista é mais conhecido, estão alinhadas em uma parede, como se costuradas num mesmo horizonte. E um quadro recebe destaque: Boneco (1939), que Marinho recebeu de presente do artista e amigo, era o seu favorito. Ao olhar para a figura, o empresário fazia uma viagem introspectiva à própria infância. Apresentado junto a um texto seu, o quadro torna-se mais íntimo do que qualquer objeto pessoal que poderia estar exposto.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/artes/noticia/2018/06/conheca-a-casa-roberto-marinho-novo-centro-cultural-que-exibe-uma-das-maiores-colecoes-de-arte-do-pais-cjig63g6n0gp501qoiscwber4.html



















Recanto do colecionador: jardins e fonte recebem o visitante. Em décadas passadas, mansão de Marinho era apelidada de “sede informal do Itamaraty”
Roberto Teixeira / Divulgação Casa Roberto Marinho


















Jardim: obras de Carlos Vergara e Ascânio MMM foram instaladas do lado de fora da mansão
Jaime Acioli / Divulgação Casa Roberto Marinho


















Dorival Caymmi tocou na casa em 1948
Arno Kikoler / Acervo Roberto Marinho


















Paulo Autran (à esq.), Marinho (paletó branco) e Tônia Carrero (a última à dir.) posam após apresentar peça na casa em 1949
Arno Kikoler / Acervo Roberto Marinho


















O arquiteto e antropólogo Lauro Cavalcanti está a frente do Instituto
Roberto Teixeira / Divulgação Casa Roberto Marinho


















Exposição "Modernos 10", em cartaz até dezembro, tem pinturas de Burle Marx, que também projetou o jardim da casa
Divulgação / Casa Roberto Marinho

























Escultura de aço "Mulher Nova 3"
Jaime Acioli / Divulgação Casa Roberto Marinho




















"O Touro (Paisagem com Touro)" (1925), de Tarsila do Amaral, é um dos destaques da coleção
Jaime Acioli / Divulgação Coleção Roberto Marinho





















"Rio de Janeiro" (1926), de Ismael Nery
Jaime Acioli / Divulgação Coleção Roberto Marinho

























"Boneco" de José Pancetti, 1939, já foi apontado por Roberto Marinho como o seu quadro preferido
Jaime Acioli / Divulgação Coleção Roberto Marinho

Do Olímpico a casarões do Centro Histórico, Porto Alegre vê ruínas proliferarem

Imbróglios judiciais, proprietários sem recursos ou interesse e omissões do poder público são pano de fundo para uma Capital com cara de abandono

Seja para qual for o lado que o porto-alegrense se desloque, é grande a chance de ele deparar com edificações cujo estado de precariedade varia do abandono ao estágio final, de ruínas. Partindo do Centro Histórico, a poucos metros uma da outra, duas delas entopem a Rua Riachuelo, uma das principais artérias do bairro: a Confeitaria Rocco — que chega aos 105 anos somando mais de 20 de abandono — e a antiga Casa Azul, cujo risco de desabamento fez com que a calçada em frente fosse interditada há três semanas. Subindo pela Avenida Independência, casarões que abrigavam casas noturnas se tornaram portas cerradas, e pichações se espalham como uma infecção em curso. Já em direção ao sul da cidade, o Estádio Olímpico se tornou um enorme hematoma, com cada vez menos vida no seu entorno. Até dentro dos parques, há surpresas desagradáveis como os restos mortais do Café do Lago, na Redenção, hoje resumido a um deque pouco confiável e a um buraco escuro.

Por trás das fachadas depredadas, se multiplicam histórias de imbróglios judiciais, proprietários sem capacidade financeira (ou interesse) de resolver o problema e omissões ou mesmo ações infelizes do poder público que passam ao largo dos principais prejudicados: os cidadãos, que acabam influenciados pelo estado de abandono da cidade.

— Não importa que os prédios não sejam públicos. Quando eles entram em estado de degradação, a questão deixa de ser de direito privado. O direito à cidade é de todos, e a propriedade envolve uma responsabilidade. Quanto mais abandono estiver no entorno, mais as pessoas absorvem uma mensagem de "virem-se!" — declara Betânia Alfonsin, diretora do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico e professora de Direito Urbanístico da Faculdade do Ministério Público.

Leila Mattar, professora de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS, dedicou seu mestrado e doutorado a uma das regiões que percorreram todo o ciclo de apogeu, decadência e abandono: a Rua Voluntários da Pátria. De um bairro-cidade às margens do Guaíba, no final do século 19, a via foi descaracterizada pela vizinhança com a Avenida da Legalidade e da Democracia e sucumbiu. Leila alerta para um dos principais fatores na degradação da saúde de uma região:

— A demora é crucial. Quando uma região perde o uso, os imóveis ali perdem a sua finalidade inicial e são substituídos por usos marginais. Quanto mais tempo se passa entre uma região perder a sua vocação e ganhar uma nova, menor a chance de ela se recuperar.

A quase autópsia que Leila faz da Rua Voluntários da Pátria é uma doença em curso na Azenha, onde o que resta do Olímpico aguarda por uma solução entre o Grêmio e a construtora OAS, responsável pela nova casa do clube no bairro Humaitá. Usada como moeda de troca pelo clube para uma eventual compra do novo estádio, a entrega das chaves do Olímpico não tem data para ocorrer. Algo com que João e Marcelo dos Santos, pai e filho, sequer se preocuparam ao mudar a metalúrgica da família para os fundos do estádio, em 2013, último ano do Grêmio na região.

— Fui aos coquetéis realizados pela construtora e não existia essa preocupação de não ser demolido. Aliás, a única preocupação era se a implosão iria causar algum risco. Nas apresentações, tudo era muito bonito — declara João.

Passados quase cinco anos, as únicas portas abertas nos fundos do estádio são as da metalúrgica Qualiserv e de um minimercado — este, segundo o proprietário Antônio Viesseri, assaltado pela última vez há 20 dias. Um a um, os postes de rua deixaram de funcionar e nunca foram consertados. João se obrigou a comprar refletores para assegurar iluminação ao menos na fachada da empresa. Depois de fazer por conta a capina da rua, João cogita pintar o meio-fio. Todos os materiais do estádio que podiam ser furtados e revendidos se foram. 

Respiro em meio ao caos 

De volta a Porto Alegre há 15 dias, depois de uma temporada em Londres, o professor Benamy Turkienicz, coordenador do Núcleo de Tecnologia Urbana da UFRGS, conta uma experiência que viveu no Exterior:

— Uma inspetora da administração do distrito onde eu vivia pediu autorização para entrar na minha residência e verificar uma denúncia. O meu vizinho de trás teria deixado um fio solto nos fundos do prédio — conta Turkienicz. — Quando você tem a quem recorrer quando acontece esse tipo de problema e aquele órgão tem a obrigação e um prazo para te dar retorno, você denuncia. Me preocupa chegarmos ao ponto em que a cidade está, tão degrada que ninguém reclama mais.

O professor, no entanto, demonstra otimismo com iniciativas pontuais em Porto Alegre como o Quarto Distrito, no bairro Floresta, cujo plano de revitalização — o Masterplan — ele coordenou. Prestes a se reunir com a gerência de Relações Internacionais da prefeitura, na sexta-feira, para debater os rumos do projeto, Turkienicz enxerga na região os primeiros remédios de uma revitalização bem sucedida. Como o engajamento da comunidade, nos novos bares e espaços de convivência, e a "reconvenção funcional" dos espaços da região.

— Quando uma região perde a sua vocação, você precisa estudar novas rapidamente e se basear no que há perto dali. Por exemplo, o aeroporto. Essa mesma Fraport, empresa que passou a administrar o Salgado Filho, costuma ter interesse em empreendimentos no entorno dele. Em Frankfurt, ela tem um hospital perto do aeroporto por onde circulam mais de 80 mil pessoas por ano. Por que não algo assim? Quando o poder público não tem recursos, ele precisa ser facilitador, buscar financiadores e incentivar a participação popular, inclusive nas ideias.

Professora de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS, Cibele Figueira faz coro. Mais do que chamar a população a ter ideias, sugere que ela comece com um olhar mais carinhoso para espaços que já pertencem ao poder público.

— Tenho uma aluna que realizou um projeto incrível na Cidade Baixa ao longo da José do Patrocínio de fora a fora. Envolvia o Largo Zumbi dos Palmares, aquele terreno do DEP próximo à Rua da República e terminava lá nos fundos da EPTC. Três terrenos enormes e públicos. É esse tipo de ideia que precisa florescer. Precisamos sonhar mais alto.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/porto-alegre/noticia/2018/06/do-olimpico-a-casaroes-do-centro-historico-porto-alegre-ve-ruinas-proliferarem-cjiglhuh60gwe01qozji92w5m.html


















O que resta do Estádio Olímpico aguarda solução entre o Grêmio e a OASRobinson Estrásulas / Agencia RBS


















Casa Azul fez Riachuelo ser interditada
Robinson Estrásulas / Agencia RBS


















Antes um dos mais charmosos endereços da Capital, Café do Lago virou só restos da estrutura
Robinson Estrásulas / Agencia RBS



















Confeitaria Rocco: mais de 20 anos de abandono
Robinson Estrásulas / Agencia RBS



Construções deterioradas na Avenida Independência
Robinson Estrásulas / Agencia RBS

terça-feira, 12 de junho de 2018

Antigo Engenho Marés em Bayeux, PB, é tombado pelo Patrimônio Histórico

Conjunto arquitetônico fica dentro de condomínio horizontal às margens da BR-230.
O conjunto arquitetônico do antigo engenho das Marés, localizado na cidade de Bayeux, às margens da BR-230, foi tombado pelo Conselho de Proteção dos Bens Históricos Culturais (Conpec). O tombamento foi aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep) e publicado no Diário Oficial do Estado da Paraíba na terça-feira (5).
Ainda de acordo com a publicação, os prédios tombados estão inseridos na poligonal de preservação rigorosa. A recomendação da relatora do tombamento, a conselheira Nahya Maria Lyra Cajú, representante da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) quanto a ser assegurado o acesso de todos ao bem, como forma de promover a sua conservação.
Os prédios do antigo engenho pertencem a uma empresa privada e integram uma área onde foi construído um condomínio horizontal. A Alphaville Urbanismo, responsável pelo condomínio, esclareceu por meio de nota que o tombamento foi pedido pelos antigos proprietários da área de maneira voluntária em 2005, antes do acordo comercial para construção do residencial horizontal.
“A empresa ressalta que o Alphaville Paraíba foi planejado para coexistir de forma harmônica com o bem tombado. Por isso, adotou providências junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Iphaep no sentido de adotar os cuidados necessários para minimizar eventuais impactos sobre o espaço protegido”, informou a nota.
Ainda de acordo com a Alphaville Urbanismo, o projeto deve valorizar a visitação do público, em conformidade com regramento a ser definido pelo Iphan e Iphaep em parceria com os proprietários da área em consonância com a legislação vigente.
O registro oficial do tombamento foi definido no final do ano de 2017. Existe um planejamento para requalificação e restauração da área, fato que vai permitir a restauração do patrimônio arquitetônico protegido pelo tombamento.
“É possível afirmar que o empreendimento [o condomínio] não está situado na área delimitada do tombamento e que esse reconhecimento histórico não prejudicará a construção dos residenciais”, afirmou a Alphaville em nota.

















Conjunto arquitetônico do antigo Engenho Marés, na região da Grande João Pessoa, foi tombado pelo Iphaep (Foto: Construtora Civil/Divulgação)

















Prédios do antigo Engenho Marés passaram por revitalização (Foto: Construtora Civil/Divulgação)
















Antigo Engenho Marés integra área onde foi construído uma condomínio residencial horizontal (Foto: Reprodução/Construturacivil.com.br)

terça-feira, 5 de junho de 2018

Cuiabá (MT) recebe MISC e praças revitalizadas

Resultado de uma série de investimentos no Patrimônio Cultural de Cuiabá, a capital mato-grossense recebe, nos dias 05 e 06 de junho, a conclusão de três obras que pretendem valorizar e movimentar o seu centro histórico: a restauração do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (MISC) e as requalificações urbanas das praças do Largo da Feirinha da Mandioca e do Senhor dos Passos. Inseridas no programa Agora, é Avançar, do Governo Federal, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as obras foram executadas pela Prefeitura Municipal.
No dia 05, os cuiabanos poderão conhecer o resultado da restauração do edifício que abriga o MISC e que agora possui plenas condições para ser utilizado enquanto espaço para atividades sociais e culturais, além de local de pesquisa sobre a história de Cuiabá, valorizando a diversidade e a memória da cidade e do Mato Grosso. Foram cerca de R$732 mil investidos na obra, que resolveu patologias e problemas de conservação, readequou o uso dos espaços e ainda realizou serviços diversos, como cobertura e pintura.
Já no dia 06, serão entregues as obras das praças Largo Feirinha da Mandioca e Senhor dos Passos, também no centro histórico de Cuiabá, e importantes pontos de convívio social e comércio local. Iniciadas ainda no começo de 2018, as duas intervenções somam investimentos de mais de R$352 mil e tiveram como foco a execução de melhorias urbanísticas, como novo mobiliário, paisagismo, calçamento, iluminação, acessibilidade e mobilidade, privilegiando o uso dos pedestres.
As solenidades de entrega das obras serão realizadas com a participação da população e apresentações culturais, contando com a presença do diretor do Departamento de Projetos Especiais do Iphan, Robson de Almeida; da superintendente do Iphan em Mato Grosso, Amelia Hirata; do prefeito municipal Emanuel Pinheiro; entre outras autoridades locais.
Investimentos no Patrimônio Cultural
Tanto o MISC quanto as praças são parte do conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Cuiabá tombado como Patrimônio Cultural Brasileiro, desde 1993. Elas estão entres as ações que vem sendo executadas pela Prefeitura Municipal, com recursos do Governo Federal, por meio do programa Agora, é Avançar.  O projeto, focado na retomada de obras em todo o país, pretende concluir milhares de empreendimentos até o fim de 2018, incluindo 61 obras conduzidas pelo Ministério da Cultura, por meio do Iphan, dentro daquelas já pré-selecionadas pelo PAC Cidades Históricas, visando o desenvolvimento das cidades históricas brasileiras. No escopo dos programas, também estão em execução outras nove ações na cidade, além da restauração da casa Barão de Melgaço, atual sede do Instituto Histórico e Geográfico do Mato Grosso (IHGMT) e da Academia Mato-Grossense de Letras (AML), concluída em maio de 2017.
Serviço:
Entrega da obra do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá
Data: 05 de junho, 19h
Local: Rua Voluntários da Pátria, 79, esquina com Rua Engenheiro Ricardo Franco, Centro – Cuiabá/MT

Entrega das obras das praças do Largo Feirinha da Mandioca e Senhor dos Passos
Data: 06 de junho, 08h
Local: Praça Largo Feirinha da Mandioca - Rua Pedro Celestino, com Rua Engenheiro Ricardo Franco, Centro-Norte – Cuiabá/MT
          Praça Senhor dos Passos – Rua Tenente Coronel Duarte, com Rua Voluntários da Pátria, Centro-Norte – Cuiabá/MT

Mais informações para a imprensa
Assessoria de Comunicação Iphan
Fernanda Pereira – fernanda.pereira@iphan.gov.br
Déborah Gouthier - deborah.gouthier@iphan.gov.br
(61) 2024-5533 - (21) 2233-6334

















Imagens: do site

domingo, 27 de maio de 2018

BAUHAUS - UM SÉCULO DE EXPLOSÃO METEÓRICA DO DESIGN

Um movimento, uma escola, um estilo... O que foi esta escola alemã fundada na depressão após a Primeira Guerra mundial, que se tornaria o maior fenômeno da arquitetura e design do século XX? Bauhaus foi a primeira escola de design no mundo e disseminou o que hoje parece natural: a combinação de beleza e funcionalidade. Uma viagem pela história da Bauhaus é estilo, modernidade e ideologia, que pode estar em sua sala de estar...

BAUHAUS (casa da construção) é a inversão do termo HAUSBAU (construção da casa). Este neologismo, criado por Walter Gropious (1883-1969), foi destinado a dar nome a uma escola, ou mais, um programa que criara em 1919. Gropious fazia referência à Bauhütte, loja ou centro das corporações de construtores na Idade Média. A Idade Média via na catedral uma união entre a vida e a arte e com a mesma proposta de Gropius em 1919,isto é, de divulgar boas novas. Gropius fundou a Bauhaus, que possuía princípios fundamentais:
“Assim foi fundada a Bauhaus. Seu escopo científico era concretizar uma arquitetura moderna que, como a natureza humana, abrangesse a vida em sua totalidade. Seu trabalho se concentrava principalmente naquilo que hoje se tornou uma necessidade imperativa, ou seja impedir a escravização do homem pela máquina, preservando da anarquia mecânica o produto de massa e o lar, insuflando-lhes novamente sentido prático e vida. Isto significa o desenvolvimento de objetos e construções projetados expressamente para a produção industrial. Nosso alvo era o de eliminar as desvantagens da máquina, sem sacrificar nenhuma de suas vantagens reais (GROPIUS; WALTER, 2001, p30)”
Em 1923, a proposta da Bauhaus foi divulgada em uma vasta exposição, cuja proposta podia ser resumida em “Arte e técnica, uma nova unidade”. Esta exposição foi chamada de “Staatliches Bauhaus”. A Bauhaus foi dividida em dois setores de ensino: a Academia de Arte Pictórica e a Academia de Artes e Ofícios. O principal objetivo era acumular um maior número de pessoas em pouco espaço, provendo moradias para os sobreviventes de guerra em 1932. Neste ano, nenhum outro país construiu mais moradias populares erguidas com dinheiro proveniente de impostos em sua maioria.
A Bauhaus tinha como princípio não somente propor uma nova estética, mas também de promover uma mudança social com modernidade e inteligência de projetos e recursos. A Escola era norteada por três princípios:
1. Direcionamento da nova arquitetura para os trabalhadores; 2. Rejeição a todos os objetos e adereços burgueses; 3. Retorno aos princípios básicos da arquitetura ocidental, definindo uma forma clássica de moradia social racional.
A mentalidade racionalista da época preconizava a máxima “A forma segue a função”, segundo a qual o ornamento não tinha mais lugar à funcionalidade do objeto. Assim propôs Adolf Loos, em 1908, no livro “Ornamento e Crime”, onde a honestidade da forma é a meta da criação. Assim, dá-se ênfase à forma (Gestalt) e formação da forma (Gestaltung); Ocorre uma supremacia da arquitetura sobre o design. A cidade era considerada como um sistema de comunicação intersubjetiva, onde tudo está em função dos espaços habitáveis, assim também os objetos. Tudo estava centrado na arquitetura como método de construção do maior ao menor dos objetos. Para viver civilizadamente deveria haver uma racionalidade das grandes às pequenas coisas.


A Bauhaus estabeleceu uma interligação com todo tipo de arte, até as consideradas “inferiores”, como cerâmica, tecelagem e marcenaria e preconizava o uso de desenhos autênticos e texturas inovadoras. O uso de novos materiais pré-fabricados e móveis em aço, sempre funcionais foi uma marca da Bauhaus, que marcava seus projetos com simplificação de volumes, geometrização das formas e predomínio de linhas retas. As paredes deveriam ser lisas, geralmente brancas, abolindo a decoração, que era vista como burguesa. Utilizavam-se ainda cores neutras como bege, cinza e preto na composição de ambientes. As coberturas deveriam ser planas, transformadas em terraços quando possível. Coberturas e fachadas possuíam linhas horizontais, sendo frequente fachadas em vidro. As janelas eram amplas, em fita muitas vezes e havia uma tendência a abolir paredes internas.


Seguindo a arquitetura, os objetos deveriam possuir uma qualidade de material e funcionalidade associada a harmonia em sua forma. A inovação dos objetos aliando vanguardas artísticas não era uma novidade, mas a Bauhaus levou ao ponto de elaborar objetos como obras artísticas que seriam reproduzidas por serem elementos de educação estética da sociedade. Tudo era analisado, observado e desenhado, podendo ser transformado em projeto. A Bauhaus, com todas estas inovações na arquitetura e design, bem como no ensino de novos arquitetos, fundou a “Era Funcionalista”, propondo durante 14 anos uma nova cultura ao homem e seu ambiente e partilhava com a República Alemã um desejo de renovação. Antes do fechamento da Escola por Adolf Hitler em 1933 a Escola passou por diferentes diretores e três fases que foram marcadas por diferentes características e propostas.
A primeira fase da Bauhaus ocorreu de 1919 a 1923, logo após sua criação, na época de Weimar. Nesta época, seu pai espiritual Gropius escreve em seu manifesto de fundação, estabelecendo que a meta de toda atividade plástica é a construção e a decoração e estas são as tarefas mais nobres das artes. A arte deveria, assim, integrar-se à arquitetura. A produção artesanal foi vangloriada e a Escola foi um catalisador de atitudes inteiramente novas em relação à existência. Repudiava-se o espírito acadêmico e, já na sua criação, a Bauhaus valorizava um método pedagógico não convencional. Durante esta fase a evidência da importância arte foi marcada e nomes ilustres da arte foram professores da Escola na época como Wassily Kandisnky e Paul Klee.

A segunda fase da Bauhaus ocorreu de 1923 a 1928 e, em 1926, a escola se estabelece em Dessau. A escola leva ao apogeu a valorização das necessidades humanas e estabelece o funcionalismo, a estética “clean” e funcional. A escola foi coordenada por Hannes Meyer (1889-1954) que, apesar de arquiteto, valorizou o conforto e evidenciou o design industrial na Bauhaus. O construtivismo do húngaro Lazlo Maholy-Nagy também dominou a Escola nesta fase, contribuindo para que arte e tecnologia convivessem harmonicamente sem traumas. O artesanato se prestava a fazer modelos para fabricação industrial. A pesquisa deveria ser rentável e as oficinas de ferro e vidro tornam-se ateliers de produção. Em 1927 Hennes Meyer funda sua Escola de Arquitetura, que foi dirigida por ele mesmo até 1930.
A terceira fase da Bauhaus ocorreu de 1928 a 1933 e foi marcada por modificações que Meyer fez no currículo da Escola, acrescentando aulas de psicologia, economia, sociologia, biologia e marxismo. Com isso, foi fechada a oficina de teatro e foram reorganizadas todas as outras oficinas da Escola. As antigas características da Escola desapareceram e esta passou a ser mais científica e politizada, pois as oficinas eram usadas como foco de atividades políticas de estudantes marxistas, fazendo, assim com que a Escola sofresse pressões do governo e da cidade onde estava situada. Muitos artistas importantes deixaram a Bauhaus nesta época dentre eles Schlemmer, Klee, Mohogy-Nagy. Meyer acabou deixando a Bauhaus em 1930 por pressões políticas, deixando a Escola aos cuidados de Mies van der Rohe (1886-1969). Assim, se segue uma fase marcada pela tentativa do arquiteto Mies de salvar a Bauhaus do extremismo marxista de Hannes Meyer, ou recuperar seu projeto inicial, conciliando forma, função e espiritualidade, através de uma rigorosa preocupação com a arquitetura. Mies foi o criador da frase “menos é mais” e foi o último diretor da Escola, famoso por usar muito vidro e aço em seus arranha-céus. Neste período todos os gêneros artísticos e de artesanato foram deixados em segundo plano, não caracterizando mais a antiga Escola que unificava todas as artes. A Bauhaus era, nesta época, era uma escola superior de arquitetura e design. Em 1932 a Bauhaus foi obrigada a mudar para Berlim, por motivos políticos novamente, continuando seus trabalhos em uma condição adversa.

Em 1933 a Escola sofria graves pressões do governo e acabou sendo fechada por Hitler, porem no decorrer das décadas seguintes, a Escola tornou-se o aspecto central da atividade configurativa, tornando-se uma “Escola da Vida” devido a sua filosofia construtiva em comum, que era pregada em seus métodos. Esta identidade comum e vida comunitária integral fizeram que o fervor missionário da Escola se espalhasse pelo mundo rapidamente em seu tempo. A Bauhaus marcou o modernismo na arquitetura e no design e seus próprios métodos de ensino deveriam estar relacionados às propostas de mudanças nas artes e no design propostas pela Escola. A Bauhaus de Weimar é uma das melhores Universidades da Alemanha atualmente, ensinando arquitetura e diversos ramos de arte, como design, música, dentre outros. Vemos cerca de cem anos depois da fundação da Bauhaus, sua filosofia de criação e tendências nas linhas funcionais e limpas dos produtos da Apple desde o primeiro logo do MacOS até a mais recente linha de produtos de alta tecnologia da empresa. Vemos marcas da Bauhaus em cidades planejadas como Brasília e em outras obras de muitos arquitetos ilustres como o brasileiro Oscar Niemeyer. A Bauhaus ainda está nas mobílias de Florence Knoll, que acrescentou um toque americano ao design da Bauhaus e produziu as maiores e mais respeitadas mobílias que já existiram. A Cidade Branca de Tel Aviv também e uma marca da Bauhaus no mundo e seguem muitas outras, impossíveis de serem enumeradas.
A Bauhaus nasceu, mudou muito, foi fechada, reabriu e continua ditando tendências e propondo um design que não envelheceu. Propôs mudanças em conceitos sociais através da arquitetura, arte e funcionalismo de suas obras, que motivaram um século a pensar sobre o conceito de comunidade e espaço. Terminando esta viagem pela inovação e ousadia, ficamos com as duas principais metas da Bauhaus, ícones de uma era:
“Por um lado deveria atingir, pela integração de todas as artes e manufaturas debaixo do primado da arquitetura, uma nova síntese estética. Por outro deveria atingir, pela execução de produção estética, as necessidades das camadas mais amplas da população, obtendo uma síntese social” (BÜRDEK, 2010, p33)
Marina Baitello

Fonte: http://lounge.obviousmag.org/resumindo_e_substituindo_o_mundo/2014/08/bauhaus---um-seculo-de-explosao-meteorica-do-design-1.html




























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