quarta-feira, 7 de junho de 2017

Niemeyer eterno: obras do arquiteto viram patrimônio histórico nacional

Prédios públicos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo passam a ser preservados pelo Iphan


O Ministério da Cultura determinou o tombamento de 27 obras públicas projetadas pelo arquiteto e urbanistas Oscar Niemeyer (1907-2012). Passam a fazer parte do patrimônio histórico brasileiro o Palácio do Planalto, o Palácio da Alvorada, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, o Itamaraty, o Museu de Arte Contemporânea em Niterói, o Sambódromo do Rio de Janeiro, o Conjunto do Parque Ibirapuera em São Paulo e a Casa de Chá em Belo Horizonte. Agora a preservação de todas essas edificações fica a cargo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Constitui patrimônio histórico elementos “cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”. Segundo o Iphan, a medida representa uma consolidação do processo iniciado pelo próprio Niemeyer em 2007.
A decisão ratifica a importância de Oscar Niemeyer para a Arquitetura, brasileira e mundial. Seus traços sinuosos agregaram poesia à arquitetura. Ele ensinou ao mundo que a beleza é leve. “É o arquiteto que construiu a obra mais diversa em toda a história da civilização humana, com sua presença inscrita em todos os continentes”, afirma o arquiteto e urbanista Cláudio Queiroz, professor da UnB e parceiro de Nimeyer em diversos projetos. “As colunas criadas por Niemeyer, a exemplo do Palácio Alvorada, são os feitos arquitetônicos mais importantes desde as colunas gregas, o primeiro grande tratado do Ocidente”.

“Niemeyer é indiscutivelmente a grande referência da arquitetura brasileira, está acima de qualquer crítica. Embora não seja perfeita, é uma obra soberba”, avalia o professor José Carlos Córdova Coutinho, um dos principais pesquisadores da obra de Niemeyer no Brasil. “Eles sempre perseguiu, confessadamente, surpresa, emoção, encantamento. Sua obra é espetacular, pois entende a arquitetura como espetáculo”.

CONFIRA A LISTA COMPLETA DAS OBRAS TOMBADAS COMO PATRIMÔNIO HISTÓRICO


  • Praça dos Três Poderes
  • Congresso Nacional
  • Conjunto do Palácio da Alvorada
  • Palácio do Planalto
  • Supremo Tribunal Federal
  • Ministérios e anexos
  • Quartel General do Exército
  • Palácio Jaburu
  • Palácio da Justiça
  • Palácio Itamaraty e anexos
  • Museu da Cidade
  • Espaço Lúcio Costa
  • Panteão da Liberdade e Democracia
  • Teatro Nacional
  • Memorial JK
  • Memorial dos Povos Indígenas
  • Conjunto Cultural Funarte
  • Espaço Oscar Niemeyer
  • Conjunto Cultural da República
  • Edifício do Touring Club do Brasil
  • Casa de Chá
  • Pombal
  • Capela Nossa Senhora de Fátima
  • Casa das Canoas (Rio de Janeiro)
  • Conjunto da Passarela do Samba (Sambódromo da Marques de Sapucaí)
  • Museu de Arte Contemporânea – MAC (Niterói)
  • Conjuntos do Parque do Ibirapuera (São Paulo), especificamente: a Grande Marquise, o Palácio das Nações (Pavilhão Manoel da Nóbrega), o Palácio dos Estados (Pavilhão Francisco Matarazzo Sobrinho), o Palácio das Indústrias (Pavilhão Armando de Arruda Pereira), o Palácio de Exposições ou das Artes (Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, também conhecido como “Oca”) e o Palácio da Agricultura



















Congresso Nacional e Palácio do Planalto (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)
















Museu de Arte Contemporânea em Niterói (RJ)


















Pavilhão Gov. Lucas Nogueira Garcez (Oca) no Parque Ibirapuera, em São Paulo

domingo, 4 de junho de 2017

Nos Passos de Dom Pedro I

A PARTIR DA CARTA ESCRITA PELO IMPERADOR À SUA MULHER, DONA LEOPOLDINA, E NA COMPANHIA DE DOIS PESQUISADORES, ZH REFAZ O ITINERÁRIO DA COMITIVA IMPERIAL PELO LITORAL NORTE, EM DEZEMBRO DE 1826. FOI A ÚNICA VISITA DE PEDRO AO RIO GRANDE DO SUL – E ESTÁ REPLETA DE MITOS

 A crise conjugal entre Dom Pedro I e Dona Leopoldina fez bem à História. O imperador, durante sua passagem pelo sul do Brasil rumo à Guerra da Cisplatina, em 1826, escreveu uma carta a sua mulher com a nítida preocupação de lhe dar satisfações. Leopoldina estava doente no Rio, delirando após um aborto ainda hoje controverso – seria resultante de uma suposta agressão do marido?
Graças a esse documento aparentemente motivado por uma desavença matrimonial, hoje podemos saber detalhes de seu périplo por localidades como as atuais Torres, Arroio do Sal e Santo Antônio da Patrulha. Quase dois séculos depois, Zero Hora refaz os passos iniciais do monarca em sua única visita ao Rio Grande do Sul – Pedro I veio tendo como destino final a cidade de Rio Grande, mas não participou da guerra em razão do estado de saúde da imperatriz, que morreria justamente quando ele estava por estas plagas.
A comitiva imperial foi de Florianópolis a Rio Grande, de barco, a pé ou a cavalo, em uma jornada de 37 dias. Na correspondência íntima, Pedro I detalhou o caminho pelo litoral norte gaúcho. É esse o percurso que ZH reproduziu, ao lado do jornalista e acadêmico de História Nelson Adams Filho, autor do livro A Viagem Maluca de Dom Pedro I pelo Sul do Brasil, e do historiador Rodrigo Trespach, que escreveu sobre a imigração alemã, o Litoral Norte e a II Guerra Mundial. Os dois pesquisadores amparam-se na carta, em outros documentos e na história oral para dar respostas e deixar perguntas no ar. Por exemplo: é inexato o período total em que Pedro esteve no Litoral Norte. Trespach faz algumas considerações, tentando dimensionar melhor o tempo e alinhá-lo ao espaço:
– Na vinda, ele ficou do dia 5 de dezembro (em Torres) ao dia 6 (em Santo Antônio da Patrulha). Chegou a Viamão no dia 7. O imperador voava no cavalo! Na volta, Dom Pedro estava em Tramandaí no dia 24 e em Torres no dia 25. Quanto tempo permaneceu em Torres? Sabe-se que, no dia 31, ele estava em Florianópolis. Talvez tenha ficado em Torres mais dois ou três dias.
O tempo e o espaço não são as únicas curiosidades, dúvidas e contestações dos pesquisadores.
– Sabemos que Dom Pedro I tinha grande apetite sexual. Costumava chamar mulheres na rua para satisfazer seus desejos. Quem garante que ele não deixou descendentes no nosso litoral? – especula Trespach, comentando o contexto que aparece como o pano de fundo histórico de Novo Mundo, a atual novela das seis da TV Globo, em que o imperador é interpretado pelo ator Caio Castro.
Com faro de jornalista que passou por diversas redações, como as de O Globo e Folha de S. Paulo, Nelson Adams Filho se deu conta da fragilidade do que vinha sendo contado a respeito da passagem por Torres e Santo Antônio da Patrulha, lugares onde o monarca teria pernoitado. Não há, segundo ele, “prova concreta e coerente das histórias narradas, que parecem uma compilação de fatos distintos e contraditórios, senão inverídicos”. Mas é a história oficial, a que ficou.
 5/12/1826, A CHEGADA
Qual a percepção do imperador ao chegar ao Estado? Eis suas próprias palavras: “Sempre areia e mar. Enquanto nos dias anteriores só avistávamos uma praia esbranquiçada que se confundia com o céu na linha do horizonte, hoje, ao menos, deparamos dois montes denominados Torres, porque realmente avançam mar adentro, como duas torres arredondadas”. No município gaúcho, a artista plástica Cibele Souto Amade pintou uma tela que busca retratar a cena.
Em A Viagem Maluca de Dom Pedro I pelo Sul do Brasil, Adams Filho escreve: “Às 5h e três quartos do dia 5 de dezembro, uma terça-feira, Dom Pedro montou a cavalo, deixou a barraca de sapé na Sesmaria dos Rodrigues, atual Passo de Torres (SC), e saiu do mato em direção à praia, onde chegou 15 minutos depois. Portanto, a referida barraca – que certamente era de serventia a pescadores – ficava perto da beira-mar. Às 6h30min, ele encontrou ‘um oficial do Batalhão de São Paulo que vinha com ofícios’, conforme descreve no itinerário. Era o tenente-coronel Francisco de Paula Soares Gusmão, comandante do Baluarte. Meia hora depois, a comitiva chegou às margens do Mampituba. Às 8h, Dom Pedro chegava ‘às Torres’, lavou-se, comeu e foi à ‘Estância do Pacheco’. ‘Ali dormimos’, relatou o imperador”.
No descampado de algo como 10 quilômetros, hoje pontilhado por alguns casebres de madeira, ninguém sabe de uma família Pacheco. Venderam a propriedade? O sobrenome mudou em razão de casamentos nos quais o nome do pai era outro?
Adams Filho conta:
– No livro Batizados e Casamentos da Paróquia de Domingos das Torres, de Marco Antônio Velho Pereira, existe o registro de número 113 que aponta o batizado de Joaquina, em 30 de maio de 1830. Os avós maternos são Manoel Pacheco e Maria Cardoso de Jesus, ambos procedentes de Laguna e pais de Ana Cardoso de Jesus.
A conclusão a que o pesquisador chega é de que Dom Pedro I pernoitou na propriedade de Manoel Pacheco dos Santos, morador da chamada Estância do Meio (atualmente em Arroio do Sal). Por isso, o imperador falava em “estância do Pacheco”, hoje uma vasta área em Arroio do Sal.
A história oficial conta que Dom Pedro foi recebido com pompa e circunstância em Torres e Santo Antônio da Patrulha. Teria sido disparada uma salva de 101 tiros de canhão quando do seu ingresso no Estado, em Torres, no ensolarado 5 de dezembro de 1826. Ali, teria visitado colonos alemães recém chegados. Depois, dormiu na casa do Alferes Manuel Ferreira Porto Filho. A casa ainda está lá, em Torres, como ponto turístico, que atrai curiosos, e é habitada por Maria Vitorino, uma senhora de idade que vive reclusa. Os dois pesquisadores refutam a tese dos tiros de canhão. Diz Adams Filho:
– Eram quatro os canhões. É de se supor que os tiros fossem divididos, cabendo 25 a cada canhão. Computado o tempo mínimo de quatro a cinco minutos entre o disparo e a recarga, são pelo menos duas horas disparando. Imagine o que isso representaria de barulho para a pacata Torres, com não mais de 1,2 mil almas.
COM OS ALEMÃES EM TORRES
Em seu livro O Lavrador e o Sapateiro (EdiPUCRS, 2013), Trespach apresenta a transcrição de uma carta (“inédita na historiografia brasileira”) do colono alemão Valentin Knopf, escrita em 1º de dezembro de 1827.
– Trata-­se da única carta encontrada até agora em que um imigrante alemão faz um relato a seus parentes na Alemanha sobre a colonização em Três Forquilhas, onde a leva de colonos protestantes (luteranos e calvinistas) havia sido assentada em 1º de agosto de 1827. A chegada a Torres ocorreu em 17 de novembro de 1826. Knopf faz relato pormenorizado da vida e da situação do Vale do Três Forquilhas. Em certa altura da carta, informa que, quando o imperador esteve de passagem por aqui, deu graciosamente a cada pai de família 4 mil réis.
A carta de Knopf talvez seja o único documento conhecido e público que ateste a visita do imperador. O “por aqui” de Knopf, de acordo com Trespach, “refere-se a Torres, pois o imperador, de fato, passou por ali em 5 de dezembro de 1826, quando os alemães ainda estavam aguardando a distribuição dos lotes”.
No relato de Dom Pedro à imperatriz, não há menções aos colonos alemães, que estavam por lá havia 18 dias. Mas as evidências indicam que, sim, o encontro seria plausível.
– A vinda dos imigrantes alemães ao Brasil,­ colonos e soldados mercenários, era um projeto coordenado pessoalmente pelo imperador. E a esposa, dona Leopoldina, era austríaca, de língua alemã como os colonos. Teria sido natural que Dom Pedro fosse ver pessoalmente os imigrantes, como havia feito muitas vezes quando da chegada dos navios de estrangeiros ao Rio de Janeiro. Por outro lado, uma testemunha ocular da História, o tenente-coronel Francisco de Paula Soares Gusmão, comandante do Presídio das Torres e Inspetor da Colônia Alemã, relata o encontro com o imperador e as salvas de canhão, mas não faz referência ao encontro com os alemães – diz o historiador. – É difícil acreditar que Paula Soares tenha deixado de mencionar um encontro com os colonos, que tinham vindo ao Brasil por meio de um projeto de Pedro. Nem mesmo o visconde de São Leopoldo, que se encontrou com o imperador em 25 de dezembro, relatou que Dom Pedro teria se encontrado com os colonos.
Os pesquisadores especulam, então, que o dito encontro com os colonos só pode ter ocorrido no retorno de Dom Pedro, no Natal de 1826.
– Na chegada, Dom Pedro teve pouco tempo para para visitar o arranchamento dos alemães,­ não mais do que quatro ou cinco horas,­ e ainda entregar dinheiro a cada uma das famílias, conforme descreveu o colono Knopf – diz Trespach.
De acordo com a carta do imperador, ele dormiu “numa barraca de sapê abandonada” junto ao Arroio Grande (que hoje não existe mais), em área do futuro município do Passo de Torres (SC) e que era, na época, a Sesmaria dos Rodrigues. Avistou Paula Soares­ e seguiu adiante para transpor o rio e chegar ao Baluarte Ipiranga, em Torres. Seu primeiro ato quando chegou foi se banhar e tomar café da manhã.
– Essa ação teria durado cerca de duas horas. O imperador estaria livre às 10h30min. Nada há relatado em sua carta, apenas que almoçou e às 14h15min montou a cavalo e se dirigiu à Estância do Pacheco, onde pernoitou. Com ele estavam, entre outros, o fiel companheiro Chalaça (conselheiro Francisco Gomes Pinto) e o Marquês do Alegrete – conta Trespach.
Era Chalaça quem fazia as vezes de alcoviteiro para o imperador. Se nesse intervalo entre 10h30min e 14h15min houve alguma urgência sexual a resolver, natural que não estivesse relatada na carta a Dona Leopoldina.
Trespach e Adams Filho também debruçam-se sobre uma passagem da carta em que o imperador diz que, ao chegar a Torres, “lavamo-nos”.
– Banho era coisa rara. Tomava-se semestralmente. Acreditava-se que a camada de gordura sobre a pele evitava doenças – conta o historiador. – Ele certamente estava com a farda toda suja. Estava cavalgando havia seis dias e dormira naquela noite numa cabana de sapê abandonada. Seria natural que passasse direto pelos colonos em direção ao Baluarte do Ipiranga, uma paragem mais adequada. E ainda havia pressa em chegar à capital e inteirar-­se sobre os acontecimentos da Guerra Cisplatina, motivo de sua viagem ao Sul.
A VISITA QUE PODE NÃO TER ACONTECIDO
Às 5h15min de quinta-feira, 6 de dezembro, Dom Pedro I e comitiva já cavalgavam à beira-mar depois de terem deixado a Estância do Pacheco. Foram duas horas e 45 minutos até o “Sítio do Ignacinho”, que, perto do mar, era uma pequena choupana próximo à Lagoa dos Quadros, hoje município de Capão da Canoa. A choupana era cuidada por um preto velho. Tudo pertencia a Santo Antônio da Patrulha, um dos quatro primeiros municípios gaúchos, com Rio Pardo, Viamão e Rio Grande.
Em Santo Antônio da Patrulha, Dom Pedro I teria sido recebido por grande comitiva e depois dormido nas casa do médico Marcos Cristino Fioravanti. À noite, diz o relato usualmente feito na cidade, serviram-lhe jantar, e ele bebeu água do chafariz, ficando preocupado com o abastecimento de água da cidade e autorizando a construção de uma fonte, hoje ponto histórico. A casa é sede do Museu Antropológico Caldas Júnior e guarda relíquias da passagem do imperador.
– Pedro I não passou pela cidade nem dormiu ali em sua viagem de ida até Porto Alegre. A passagem pode ter ocorrido, com um tempo exíguo,­ em seu retorno de Rio Grande a Torres – diz Trespach. – Boa parte das histórias que contam pode não ser verdade. O documento de próprio punho do imperador, endereçado à imperatriz, contradiz muito do que já foi contado sobre sua passagem pelo Litoral Norte.
Na carta a Dona Leopoldina, Dom Pedro diz que saiu de Tramandaí às 13h30min, chegando à Estância do Peixoto, nas proximidades de Santo Antônio da Patrulha, às 16h45min e ficando ali mesmo. No dia seguinte, às 5h30min, seguiu viagem até Porto Alegre. Nem mesmo uma suposta missa teria ocorrido naquele momento de passagem por Santo Antônio da Patrulha na ida até a atual capital gaúcha.
Ao contrário da Estância do Pacheco, a Estância do Peixoto, no território de Santo Antônio, é mais conhecida hoje. Na verdade, eram duas estâncias com esse nome, ambas distantes do núcleo urbano. A primeira mais a leste e junto à Lagoa dos Barros, a 20 quilômetros da barra do Tramandaí e pertencente a Francisco Silveira Peixoto, parte da família Peixoto com a qual o médico Fioravanti tinha parentesco. A outra, a oeste, ficava em um curral onde se guardava, vendia e separava gado utilizado pelos tropeiros.
A MORTE DA IMPERATRIZ
Com assinatura do imperador, a carta a Dona Leopoldina é datada de 8 de dezembro daquele ano e foi escrita em Porto Alegre. Dom Pedro se diz “esposo amante e saudoso” e relata a viagem à mulher. Quem descobriu a relíquia foi o historiador Fernando Lauck, que a mantém no Museu Imperial, em Petrópolis (RJ).
Dona Leopoldina morreu sem ler a carta. Pereceu em 11 de dezembro, depois de agonizar 10 dias. Dom Pedro estava em Porto Alegre e soube quase uma semana depois, no dia 17, em Rio Grande. Tratou de retornar. No dia 23, estava em Porto Alegre, e, dois dias depois, chegava novamente a Torres, para, a partir dali, voltar ao Rio de Janeiro.
– Nenhum documento pessoal até hoje foi encontrado sobre o itinerário de Dom Pedro entre Rio Grande e Torres. Alguns documentos da época afirmam que Pedro sequer retornou à Capital, seguindo diretamente até Santa Catarina, por terra, via Torres. Foi em Torres, dia 25 de dezembro, ao receber do Marquês de Quixeramobim as cartas da Corte, que Dom Pedro soube da situação delicada no Rio de Janeiro – diz Trespach.
E qual seria essa situação delicada?
– Corriam boatos de que a imperatriz teria sido envenenada por Domitila de Castro, a Marquesa de Santos e amante do imperador. A casa de Domitila tinha sido apedrejada e ameaçada de invasão. Pelas ruas, pessoas protestavam e choravam a morte da imperatriz – diz o historiador, sublinhando que dona Leopoldina, uma mulher culta e generosa, era muito benquista pela corte e pela população.
Dona Leopoldina sequer recebeu a carta do marido. Havia o estafeta encarregado, mas o tempo era curto, e, a 1,5 mil quilômetros, ela era acometida de alucinações desde o dia 6. Pouco dormia. Os médicos estavam atônitos. Esgotavam todos os recursos da é poca. Pelas ruas do Rio, dos escravos às autoridades, as pessoas rezavam. Gostavam da imperatriz, vista como uma estadista que defendera a independência brasileira. Em 7 de dezembro, Dom Pedro acordou cedo. Estava em Santo Antônio da Patrulha. Tinha ainda 80 quilômetros pela frente. Não sabia da precária saúde de sua mulher. Não havia telégrafos, e ele não tinha acesso a navios. Chegou a Viamão e cavalgou mais uma hora rumo a Porto Alegre, ainda tendo metade do seu trajeto pelo Sul até Rio Grande, palco da guerra. Em Porto Alegre, chegou às 19h15min. No dia seguinte, 8 de dezembro, escreveu a carta para a imperatriz, a mesma carta que hoje clareia os caminhos do tempo e elucida fatos históricos.
TEXTO
Léo Gerchmann
leo.gerchmann@zerohora.com.br
IMAGENS
Carlos Macedo
carlos.macedo@zerohora.com.br
EDIÇÃO
Ticiano Osório
ticiano.osorio@zerohora.com.br
DESIGN
Amanda Souza
amanda.souza@zerohora.com.br
Paola Gandolfo
paola.gandolfo@zerohora.com.br










O jornalista Nelson Adams Filho com a tela pintada por Cibele Souto Amade que imagina a chegada de Dom Pedro I a Torres










EM ARROIO DO SAL, O DESCAMPADO ONDE TERIA EXISTIDO A ESTÂNCIA DO PACHECO, LOCAL DE POUSO DE DOM PEDRO I APÓS A CHEGADA A TORRES
















PREOCUPADO COM O ABASTECIMENTO DE ÁGUA, O IMPERADOR AUTORIZOU CONSTRUIR A FONTE QUE VIROU PONTO TURÍSTICO DE SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA
















A CASA QUE PERTENCEU AO ALFERES MANUEL FERREIRA PORTO FILHO, ONDE, SEGUNDO A HISTÓRIA OFICIAL, O IMPERADOR DORMIU EM TORRES

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Prefeitura e Espaço Histórico resgatam marco de antiga civilização de Agudos

'Cruzeiro de Tupá' estava prestes a desabar, no antigo cemitério de São Domingos de Tupá, a localidade que desapareceu no século passado.


Um cruzeiro de madeira, considerado o último resquício da existência de São Domingos do Tupá, antiga civilização que despareceu no século XX, foi retirado no último dia 16 de maio por uma equipe do Espaço Histórico Plínio Machado Cardia, acompanhada pelo prefeito de Agudos, Altair Francisco Silva, pela primeira dama Elisângela Bianchi Silva e pela secretária de Planejamento e jornalista Bete Lucas.
A retirada da cruz e reportagem sobre o seu resgate foi realizada pelo jornalista Aurélio Alonso e aqui descrita. "Escorada em cipó, não houve dificuldade para que quatro homens removessem a enorme cruz que vai passar por restauração. Após esse trabalho minucioso, a prefeitura deverá decidir qual será a destinação. Não sobrou nada do que foi São Domingos do Tupá, a não ser restos do antigo cemitério".
No local ainda há restos de túmulos em meio a uma mata, circundada por canavial. "A cruz vai ficar sob cuidados do museu, onde será providenciada a restauração. O Conselho Municipal de Cultura e Turismo vai analisar qual será a destinação. O cruzeiro é um patrimônio cultural e histórico do município", explicou o prefeito.
De acordo com ele, foi o primeiro povoado dentro dos limites do município de Agudos e também importante para a formação de toda a região. "Há 200 anos já tínhamos uma população que ficou esquecida e agora está vindo à tona com essa história sendo resgatada", declarou o prefeito.
Altair contou que tomou conhecimento da história da localidade após uma reportagem publicada por um jornal da cidade. "Também pretendemos desenvolver um plano de turismo, onde será possível trazer alunos e professores para disseminar mais essa informação", declarou.
A diretora do Espaço Histórico Plínio Cardia, Marilena Cardia, explicou que o cruzeiro será restaurado. Após esse trabalho será repassado à prefeitura que vai dar a palavra final para saber com quem vai ficar a relíquia. "Se ficar comigo, vai para o museu", declarou. Atualmente, o Espaço Histórico já guarda uma estátua de São Benedito de terra-cota e um altar de madeira.
"Com a descoberta deste cruzeiro veio completar a história dessa localidade. É o fechamento da história de Tupá", ressaltou Marilena Cardia. O cruzeiro foi removido com facilidade, colocado em uma caminhonete e transportado até uma marcenaria de Agudos, onde passará por restauração completa.
A localidade teria sido em 1719, antigo retiro da Fazenda Jesuíta com ranchos para ponto de apoio dos bandeirantes.
Em 1852, São Domingos foi sede do 12º Quarteirão Eleitoral de Botucatu, o segundo maior da época, com 44 votantes.
A igreja do lugarejo em 1856 foi elevada à condição de paróquia. Pela Lei Provincial nº 27 de 1858 o lugar teve a condição de freguesia, sob o nome São Domingos.
Nos registros históricos constam que 1859 o local foi sede eleitoral, onde dispunha de oito quarteirões, com 178 eleitores qualificados.
O declínio começa a partir de 1873, quando ocorre a emancipação política e religiosa de Santa Cruz do Rio Pardo. O Decreto Estadual 9.775, de 30 de novembro de 1938, extinguiu a localidade e seu território integrado a Agudos.
 

Altair, Elisângela, Aurélio, Maria Helena, Bete e funcionários do Espaço Histórico (Foto: José Mauricio Garijo)










Cruz de madeira é um dos últimos resquícios de São Domingos de Tupá (Foto: José Mauricio Garijo)

Lendas de Fernando de Noronha podem virar Patrimônio Imaterial

“Dois gigantes viveram um romance proibido em Fernando de Noronha, por castigo os órgãos genitais do casal foram petrificados: o pênis do homem virou o Morro do Pico e os seios da mulher foram transformados no Morro Dois Irmãos (fotos)”. Essa é a Lenda do Pecado, uma das dez conhecidas na ilha, as lendas de Noronha podem virar transformadas em Patrimônio Imaterial, título outorgado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A defesa do projeto foi feita pela pesquisadora Marieta Borges, na sede do instituto no Recife, nessa segunda-feira (22).

“Caso as lendas sejam consideradas Patrimônio Imaterial, esta será a primeira vez no Brasil que o Iphan reconhecerá um conjunto de lendas com importância para uma localidade, que é a ilha”, falou Marieta Borges. A pesquisadora, responsável pelo resgate da história de Noronha há mais de 40 anos, já registrou as lendas em dois livros.

As lendas e os fatos pitorescos de Fernando de Noronha foram tema do enredo da Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro, no ano de 1995. Na época a apresentadora da Rede Globo Angélica encarnou a Alamoa, uma linda mulher loura que seduzia os homens em noites de lua cheia, fazia sexo e depois matava o parceiro. O resgate dessas histórias foi relatado no encontro com  os técnicos do Iphan,  a superintende regional do instituto, Renata Borba, e a representante do Ministério da Cultura no Nordeste, Maria do Céu.

“Eu já havia feito um pedido para que as lendas fossem consideradas Patrimônio Imaterial, mas o processo não andou.  Agora a representante do Minc, Maria do Céu, resolveu encampar o projeto e organizou a reunião”, contou Marieta Borges. “Esse é um projeto importante, a reunião foi muito produtiva, a Administração da Ilha vai dar as informações e nós vamos encaminhar o processo”, disse Maria do Céu.

Palestra
Nesta terça-feira (23), a historiadora Marieta Borges dá início a uma série de palestras para os profissionais da Administração de Fernando de Noronha, no Recife. A ideia  é capacitar os profissionais com informações históricas. Nos eventos serãos sorteados livros “Fernando de Noronha – Cinco Séculos de História”, da autoria de Marieta.


 





















A historiadora Marieta Borges defendeu o projeto (Foto: Divulgação)


























Angélica no desfile em 1995 (Foto: reprodução livro Fernando de Noronha – Cinco Séculos de História)