segunda-feira, 1 de maio de 2023

Em Cachoeira do Sul, a tafona da memória


Tombada como Patrimônio Histórico do município e do Rio Grande do Sul, fazenda estará aberta à visitação a partir de 27 de maio

Por Tau Golin
Jornalista e historiador

Quando se chega na Fazenda da Tafona, se ingressa em uma especialíssima plataforma do tempo. A memória humana do lugar se alarga por 12 mil anos. Encontra-se com populações paleoindígenas de caçadores-coletores, povos pampianos, etnias Guarani e Jê meridional, semeadores das primeiras lavouras, inventores da erva-mate. Territórios de uso e pertencimento que o colonizador primeiro reconheceu na forma tutelada e depois escriturou como propriedade. Nos séculos 17 e 18, na forma de estância e capela dos missioneiros de povos jesuíticos-indígenas, destinados aos usos coletivos e das famílias extensas. Mapas antiguíssimos plotam a estância do Povo de São Lourenço e a capela consagrada a São Miguel nas terras do Piquiri, afluente do Baixo Jacuí. Depois, o espaço foi abrangido pelas disputas das crises desencadeadas pelos tratados de Madri (1750) e Santo Ildefonso (1777), na segunda metade dos Setecentos, até que a Guerra da Conquista das Missões (1801) estabeleceu sobre ele o domínio luso-brasileiro.

A escrituração privada das terras do Baixo Jacuí se deu mediante a doação pelo Estado da cota de sesmaria de campo aos povoadores ainda durante o período de fronteiras conflituosas e em demarcação nas últimas décadas dos Setecentos. Essa forma de intrusão implicou na produção e na composição social dos habitantes. O cotista se estabeleceu como senhor, latifundiário que incorporou ao trabalho de sua propriedade a força de trabalho dos livres, os agregados, os serviçais, as parcerias de posteiros e a terrível engrenagem da escravidão.

A fazenda São José ainda preserva a sua Atafona, engenho de farinha de mandioca e polvilho, de goma e tapioca do século 19. Suas engrenagens realimentam o imaginário do mundo real em que o Rio Grande se assenta, a espacialidade que ainda se encontra na névoa da laudação identitária sulina, nas práticas da convivência social, na proclamação dos direitos. Está ali o mundo escravocrata, o negro supliciado, as famílias de cativos arranchadas, os grilhões em nossas consciências, o compasso dos bois tafoneiros na memória perversa do ufanismo.

A Fazenda da Tafona é o semióforo para imergir no mundo escravocrata, que moldou a oligarquia através da mais bárbara forma de exploração do trabalho e desumana organização social. Seu espaço estimula a imaginação. As engrenagens do engenho são condutos para entender a senzala, o suplício das atividades, a realidade como barbárie, os humanos escravizados consumidos como a lenha que gerava o fogo que desidratava a mandioca moída e a transforma em farinha. Aperta nosso passado como prensa a mandioca ralada, cuja calda fermentada decantava o polvilho e a goma, magias alvas da invenção produtivas para escrever nossa história.

A exemplo de muitos latifúndios formados na Colônia e no Império, as sucessivas heranças retalharam a fazenda São José em diversas propriedades. Poderia ter sido preservado somente o aspecto poético e aprazível de um ambiente rural-bucólico que já não depende mais de sua produtividade. Entretanto, por capricho do destino, dedicação, consciência afetiva e republicana das últimas gerações, a sede e a tafona foram preservadas e transformadas nesse lugar que nos mergulha no passado para compreender o presente e desafiar o futuro. O esforço contemporâneo para manter a Fazenda da Tafona como lugar de memória pela materialidade das engrenagens e pela documentação histórica preserva também a sensibilidade humana e a responsabilidade histórica das pessoas envolvidas no projeto. Fazer uma imersão nela, compreender seu espectro histórico e social, eleva e potencializa a consciência para entender e preparar-se para “lidar” com os entulhos da escravidão que insistem em sobreviver no capitalismo.

Fazer uma imersão na Fazenda da Tafona é alargar o conhecimento da nossa história e a possibilidade de sensibilização sob paradigmas humanos que podem incidir em nosso tempo. Essa possibilidade está ofertada ao público com o seu tombamento como patrimônio histórico de Cachoeira do Sul e do Estado do Rio Grande do Sul, e o seu espaço passa a ser aberto à visitação a partir de 27 de maio.

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Fé na estrada: um passeio pelas capelas da região de Forqueta, em Caxias do Sul

O nome é Roteiros de Fé, mas não precisa ser um peregrino para fazer um passeio pelas capelas históricas de Forqueta, que permite testemunhar a importância da religiosidade dos imigrantes italianos que chegaram à região no final do século 19. Pode ser a capela mais antiga de Caxias do Sul, erguida em 1880 , ou uma das mais recentes, da década de 1970, o certo é que no seu entorno vão estar recortes da vida simples que ainda é vivida a alguns quilômetros do centro urbano, convite quase irresistível a desacelerar num dia em que nos permitimos o merecido descanso.

A iniciativa de elaborar quatro breves roteiros pelas localidades que circundam o bairro mais italiano de Caxias foi da Varsóvia Educação e Cultura, do produtor cultural Robinson Cabral, que no final do ano passado lançou a websérie documental “Capelas de Forqueta”, em parceria com o Ponto de Cultura Costurando Sonhos. Com duração média de 15 minutos, os vídeos mostram 14 capelas pertencentes à Paróquia de Santo Antônio, e a apresentação é ilustrada com relatos de moradores sobre a história, as características e os costumes de cada uma dessas comunidades que tem nelas mais do que um espaço para professar a fé, mas também para reforçar seus vínculos sociais. Afinal, é ao redor das capelas centenárias que estão os campos de futebol, as canchas de bocha, os cemitérios, parquinhos infantis e os salões onde são organizados os almoços, festas e bailes, nos quais muitas vezes se arrecada o dinheiro necessário para a manutenção dos espaços religiosos.

A partir desta imersão, Robison e equipe criaram as sugestões de roteiros que se pode fazer em poucas horas, propícios para um dia de verão. São caminhos para ser percorridos de carro ou de bicicleta, sozinho ou em família, preferencialmente sem pressa para melhor apreciar não apenas os templos, mas também belezas escondidas no caminho de um a outro, que podem ser um antigo capitel à beira da estrada, um casarão abandonado distante na paisagem, ou uma casa simples de onde sai a fumaça do fogão a lenha – mesmo num dia quente de verão.

EDIFICAÇÕES CENTENÁRIAS

Um destes roteiros leva à capela mais antiga de Caxias, construída em São Virgílio da 2ª Légua em 1880 –apenas cinco anos após a chegada dos primeiros italianos. A oito quilômetros de Forqueta e a 12 quilômetros da área central do município, a edificação conserva suas características originais, com pedras argamassadas em barro e belos vitrais, e mira a localidade de seu ponto mais alto, oferecendo uma deslumbrante vista 360º. Uma noite por mês é celebrada uma missa na capela, e nessas ocasiões é possível ver também como a parte interna do espaço é preservada com devoção.

Erguida apenas seis anos depois de São Vigílio, a capela de São Martinho da 2ª Légua, de 1896, remete a um cenário de novela de época, com a vantagem de que ali vive uma comunidade de verdade, que gosta de celebrar a vida em encontros que têm como prato principal a fortaia, delícia típica da culinária italiana. O cardápio das festas comunitárias, no entanto vai além: tem sopa de agnoline, risoto, costela de porco, galeto e churrasco com maionese, tudo isso regado a vinho colonial ou suco de uva.

Na sequência deste percurso sugerido ficam as capelas de Menino Deus, de 1890, e de São João Batista, de 1925. Separadas por 3 quilômetros, ambas são remotas e acessíveis apenas por uma estrada de chão que deve ser percorrida com cuidado redobrado, devido às curvas mais acentuadas e também ao tráfego de animais. Uma placa de madeira faz o alerta: “cuidado com as galinhas na pista”. A capela do Menino Deus tem como peculiaridade estar construída em parte sobre o território caxiense e outra parte sobre Farroupilha. O limite entre os municípios é indicado por uma placa, instalada entre a igreja e o cemitério.

Já em frente à capela de São João Batista, uma cruz em pedra pintada de branco tem inscrita a frase “A paz é possível”. Nos fundos da capela está a cancha de bocha, onde o quadro negro revela, escrito com giz de cera, os placares das disputas entre as equipes das diversas comunidades que ali se encontram para o hobby mais tradicional da colônia, principalmente entre os homens.

É curioso notar como as capelas de Forqueta podem estar tão distantes no tempo e ao mesmo tempo tão próximas da geografia urbana. Para viajar mais de um século na história do município, não é preciso rodar mais do que 10 quilômetros ou 20 minutos e nem perder o sinal de internet. Trata-se um pedaço de história de Caxias do Sul que não precisa ser conservado num museu, pois ainda tem nos moradores dessas comunidades os seus zelosos curadores.

Outras capelas pelo caminho

Confira a seguir as demais capelas que estão documentadas na websérie As Capelas de Forqueta e que também integram os Roteiros de Fé sugeridos pelas equipes da Varsóvia Educação e Cultura e Ponto de Cultura Costurando Sonhos. A série está disponível no YouTube, no canal da Varsóvia, e também em https://sites.google.com/view/ascapelasdeforqueta, onde também é possível acessar fotos, ficha técnica e as músicas que compõem a trilha original da série, compostas pelo acordeonista Rafa De Boni. O projeto conta com financiamento da Lei de Incentivo à Cultura de Caxias do Sul (LIC Municipal).

Capela de Nossa Senhora de Loreto

É a maior localidade da região depois da sede de Forqueta. Datada de 1885, essa capela sofreu grandes alterações em sua arquitetura. O campanário, erguido totalmente em ferro, é o grande atrativo.

Capela de São Valentim

Cercada por vales e montanhas, a comunidade faz divisa com o município de Arroio do Ouro. O templo foi erguido em 1910.

Capela de São Cristóvão

A comunidade de São Cristóvão surgiu de uma dissidência entre os moradores de Santo Antônio do Cerro da Glória. Uma das mais recentes da região, a igreja foi construída em 1971.

Capela de Sto. Antônio do Cerro da Glória

Igreja e campanário foram construídos em madeira no ano de 1901. Chama a atenção em seu interior a imagem de Nossa Senhora da Glória, cuja devoção é herança portuguesa.

Capela de Nossa Senhora de Salete

Construída em 15 de agosto de 1945, foi reformada em 1985. Chamam a atenção o amplo salão de festas comunitário e a bela praça, que conta com três placas comemorativas. Pertence hoje ao município de Farroupilha.

Capela de São Peregrino

É a capela mais jovem e mais urbana de todas. Sua construção data de 1987. Localizada na região do Tirol, tem características que a diferem das outras, como não possuir um salão de festas e nem diretoria. As decisões são tomadas pela Paróquia de Santo Antônio da Forqueta. A tradição se iniciou em torno de um capitel que havia no local.

Capela Santos Anjos

Em 1885 foi organizada a capela de Santos Anjos. Inicialmente feita em madeira, sendo então erguido a seu lado um campanário de pedra. Foi reconstruída em alvenaria em 1949. Possui belos vitrais, é cercada por jardim, campo de futebol e pelo salão paroquial. Situada em local alto, domina um dos mais belos vales da região. Destaca-se pelo porte e arquitetura mais moderna.

Capela de São Roque

A igreja de São Roque foi construída em 1898. É a única de toda região cujo campanário fica na própria igreja, na parte frontal, acima da porta de entrada. Em um nicho, na parede frontal externa, há uma imagem de Santa Bárbara, a quem os moradores rezam para protegê-los dos temporais. Próximo à igreja, um capitel guarda a imagem de Santo Antônio.

Capela de Nossa Senhora das Graças

A comunidade de Nossa Senhora das Graças difere das demais. Todas ficam próximas umas das outras, no mesmo lado da RS-122, uma das estradas de acesso a Caxias do Sul. Nossa Senhora das Graças fica do lado oposto. Sua igreja foi fundada em 1958.

Capela de São José da Linha Feijó

A comunidade de São José da Linha Feijó, conhecida como Arranca Toco, foi fundada em 1935 e ainda não tem seu próprio templo. Os moradores contam com um salão de festa e uma raia para jogo de bocha. No interior do salão existe uma imagem de São José. É diante dela que são realizadas as celebrações religiosas.

Roteiros sugeridos (por proximidade geográfica ou afinidade histórica)

Roteiro 1

Capelas de São Vigílio, São Martinho, Menino Deus e São João

Roteiro 2

Nª Srª de Loreto, São Valentim, São Cristóvão e Cerro da Glória

Roteiro 3

Santos Anjos, São Roque e Nª Srª da Salete

Roteiro 4

São Peregrino, Nª Srª das Graças e São José de Linha Feijó











Capela de São Vigílio da 2ª Légua é a mais antiga de Caxias do Sul, construída em 1880 - Porthus Junior / Agencia RBS




Capela de São João Batista, de 1925 - Porthus Junior / Agencia RBS

Capela de São Martinho, erguida em 1886 - Porthus Junior / Agencia RBS

Capela de São Valentim - Varsóvia Educação e Cultura / Divulgação
Capela de Nossa Senhora de Salete, de 1945 - Saimon Fortuna / Divulgação

Capela de São Roque - Varsóvia Educação e Cultura / Divulgação

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Tesouro judeu da Segunda Guerra Mundial é encontrado durante reforma de casa na Polônia

Acredita-se que donos da casa, que provavelmente morreram no Holocausto, tenham escondido artefatos à época do conflito.

Por Associated Press

As autoridades da Polônia anunciaram na quarta-feira (11) a descoberta de quase 400 objetos que datam da Segunda Guerra Mundial durante a reforma de uma casa na cidade de Lódz, região central do país. Acredita-se que, à época do conflito, os donos da casa eram judeus e tenham escondido os artefatos.

Entre os achados estão menorás e chanuquiás (comumente utilizados em celebrações judaicas), talheres e itens de uso diário.

Krzysztof Hejmanowski, um inspetor da construtora Warbud, cuja equipe encontrou o tesouro, disse que os itens estavam embrulhados em jornais e guardados em uma caixa de madeira. As autoridades disseram que os objetos recuperados serão transferidos para o Museu de Arqueologia da cidade.

O endereço onde os objetos foram encontrados, na Rua Polnocna, 23, ficava fora do perímetro do Gueto de Litzmannstadt, que era na região. Os alemães nazistas estabeleceram o bairro em Lódz em fevereiro de 1940 e, até agosto de 1944, a vizinhança abrigou cerca de 200 mil judeus de toda a Europa. A maioria morreu lá ou em campos de concentração.

Uma funcionária da Administração Municipal de Investimentos, Małgorzata Loeffler, disse que os itens e sua história despertam “emoção e profunda reflexão sobre o fato de que não estamos sozinhos, que deixamos algo para trás”.

Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/01/12/tesouro-judeu-da-segunda-guerra-mundial-e-encontrado-durante-reforma-de-casa-na-polonia.ghtml



Krzysztof Hejmanowski (esquerda), inspetor da construtora Warbud, e Bartlomiej Gwozdz (direita), arqueólogo, posam para uma fotografia com objetos da Segunda Guerra Mundial, em Lódz, Polônia, quarta-feira, 11 de janeiro de 2023 — Foto: AP Photo/Rafal Niedzielski

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Símbolo de Marechal Deodoro (AL), Igreja do Bonfim é entregue restaurada à comunidade

Iphan investiu R$ 2 milhões na restauração do templo. Intervenções revelaram elementos artísticos que estavam ocultos antes dos trabalhos.

Primeira igreja em uma cidade permeada por templos, a Igreja do Senhor do Bonfim acompanha toda a história de Marechal Deodoro (AL). Situado no primeiro núcleo de povoamento urbano da cidade, o bairro de Taperaguá, o templo será entregue à população neste sábado (10), às 10h. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia federal vinculada à Secretaria Especial da Cultura e ao Ministério do Turismo, investiu cerca de R$ 2 milhões nas obras.

Muitas descobertas vieram à tona ao longo da execução dos trabalhos. Durante a limpeza e remoção da camada aparente de tinta, descobriu-se uma pintura no estilo barroco-rococó que adorna o forro. Com edificações em perspectivas nas extremidades, a obra traz ao centro uma imagem de Jesus Cristo. A qualidade artística ilusionista da pintura a coloca entre uma das mais impressionantes da região Nordeste. Fiéis e visitantes agora podem apreciar esta obra de arte, bem como conhecer outros elementos resgatados pelo restauro, como o piso de tijolos do altar; e pinturas no contorno de toda a nave, nas paredes laterais, ao fundo do altar principal, entre outros.

A obra contemplou intervenções na fachada, nos pisos e na cobertura, além da substituição total da rede elétrica, instalação do sistema de para-raios e construção de banheiro com acessibilidade. Completam os serviços a restauração dos bens integrados e elementos artísticos, como altar, tribuna, púlpito e outros.

Embora não se conheça a data de construção do templo, sabe-se que as terras onde se ergueu foram doadas em 1755 para patrimônio religioso dedicado ao culto do Senhor do Bonfim. Ponto de tradicionais procissões, as celebrações da igreja são iniciadas com festas dos mastros e se espalham pelo pátio externo do templo, o adro de maior dimensão da cidade. Entre outras atividades, quermesses e apresentações de bandas de música orquestral e de pífanos integram os festejos.

Espaço incontornável do cotidiano deodorense, o Largo de Taperaguá marca referências culturais e afetivas na memória dos moradores. Casas coloridas contornam o vasto largo que se estende à frente da igreja: o visitante que chega a Marechal Deodoro (AL) é logo cativado por essa paisagem singular, típica do Brasil colonial.

A arquitetura do templo apresenta influência barroca, marca da passagem dos jesuítas na região. Além do reconhecimento histórico, toda a vida que preenche a Igreja do Bonfim torna dinâmica e viva a comunidade que frequenta o templo. Os frequentadores da igreja são tantos que o imóvel não consegue abarcá-los: em muitas das atividades litúrgicas, o largo defronte à igreja converte-se em uma grande assembleia para acomodar o expressivo número de fiéis.

Não há registro de que a igreja tenha deixado de ser utilizada nenhuma vez, mesmo em meio aos danos e problemas que o tempo e a ausência de restauro trouxeram. Os deodorenses sempre fizeram questão de ocupar esse monumento religioso e cuidar dele. Trata-se de um espaço sagrado de acolhimento e identidade.

Não faltam celebrações no calendário de atividades da igreja: a Festa do Padroeiro, em 06 de janeiro, e a Festa das Dores de Nossa Senhora, entre 12 e 18 de agosto, são exemplos de datas que agitam o local.

“O restauro da Igreja do Bonfim sanou problemas do imóvel com excelentes soluções técnicas. Além disso, o templo volta para a comunidade com uma série de descobertas artísticas que ocorreram ao longo dos trabalhos. Tais elementos resgatam a história de Marechal Deodoro e criam novas camadas de sentido para o bem cultural. A obra é fruto da conservação do Patrimônio Cultural por parte da comunidade, do Iphan, e de todas as instituições envolvidas”, destaca a superintendente do Iphan-AL, Melissa Mota.

Investimentos em Marechal Deodoro

O templo integra o conjunto arquitetônico e urbanístico de Marechal Deodoro, tombado pelo Iphan em 2006 por sua importância histórica e paisagística. O local foi inscrito em dois Livros do Tombo: o Histórico e o Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.

Nos últimos anos, o Instituto investiu aproximadamente R$ 10 milhões no Patrimônio Cultural da cidade. O Iphan promove atualmente o restauro da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição e o embutimento de fiação aérea no largo defronte a ela. Em 2021, o Instituto entregou restauradas a Igreja de Nossa Senhora dos Homens Pretos e a sede da Filarmônica mais antiga da cidade, a Santa Cecília. Além disso, o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, concedeu verbas para transformar em biblioteca a Igreja de Nossa Senhora do Amparo em biblioteca, em pleno uso pela população.

Tais monumentos reforçam a sensação de pertencimento do cidadão deodorense à cidade, bem como impulsionam o turismo local: cuidar desses bens é tarefa compartilhada entre instituições públicas, cidadãos e sociedade como um todo.

Crédito das imagens: Melissa Mota

Mais informações para a imprensa:
Assessoria de Comunicação Iphan
Daniela Reis
(61) 2024-5516





terça-feira, 6 de setembro de 2022

Os mistérios da maior cidade subterrânea já descoberta no mundo

A antiga cidade de Elengubu, hoje conhecida como Derinkuyu, foi habitada de forma quase constante por milhares de anos, trocando de mãos, dos frígios para os persas e depois para os cristãos, na Era Bizantina. Até que foi finalmente abandonada nos anos 1920 pelos gregos capadócios, que fugiram em massa para a Grécia após a derrota na Guerra Greco-Turca de 1919-1922.
Uma enorme cidade subterrânea, que permaneceu ativa por milhares de anos quase sem interrupções, repousa a mais de 85 metros de profundidade, abaixo das famosas "chaminés de fadas" da Capadócia, na Turquia.

Rajadas de vento violentas erguem o solo no ar enquanto passeio pelo Vale do Amor da Capadócia. Colinas com tons de amarelo e rosa tingem o panorama marcado por profundos cânions vermelhos e formações rochosas que parecem grandes chaminés e surgem à distância.

O local é seco, quente e o vento é forte. Mas a beleza é avassaladora.

Milênios atrás, este volátil ambiente vulcânico esculpiu naturalmente os pináculos à minha volta, até que eles atingissem seus formatos cônicos parecidos com cogumelos, que agora atraem milhões de visitantes para caminhar ou andar de balão nesta região central da Anatólia.

Mas, abaixo da frágil superfície da Capadócia, encontra-se outra maravilha, também de proporções gigantescas, que passou séculos escondida: uma cidade subterrânea que podia abrigar por meses até 20 mil habitantes de cada vez.

A antiga cidade de Elengubu, hoje conhecida como Derinkuyu, fica a mais de 85 metros abaixo da superfície e inclui 18 níveis de túneis. É a maior cidade subterrânea escavada do mundo.

Ela foi habitada de forma quase constante por milhares de anos, trocando de mãos, dos frígios para os persas e depois para os cristãos, na Era Bizantina. Até que foi finalmente abandonada nos anos 1920 pelos gregos capadócios, que fugiram em massa para a Grécia após a derrota na Guerra Greco-Turca de 1919-1922.

Os salões da cidade espalham-se por centenas de quilômetros embaixo da terra, mas acredita-se que mais de 200 pequenas cidades subterrâneas separadas, que também foram descobertas na região, possam estar conectadas a esses túneis, criando uma enorme rede subterrânea.

Aves arqueólogas

Segundo Suleman, meu guia, Derinkuyu foi "redescoberta" apenas em 1963 por um morador local anônimo que estava perdendo suas galinhas. Enquanto ele reformava sua casa, as aves desapareciam em uma pequena fenda criada durante a reforma e nunca mais eram vistas.

O cidadão turco decidiu investigar o que estava acontecendo e, depois de cavar um pouco, ele desenterrou uma passagem escura. Foi a primeira de mais de 600 entradas para a cidade subterrânea de Derinkuyu que foram encontradas em casas particulares.

As escavações então começaram imediatamente. Elas revelaram uma emaranhada rede de moradias subterrâneas, espaços de armazenagem de alimentos secos, estábulos, escolas, vinícolas e até uma capela. Uma civilização inteira se escondia com segurança embaixo da terra.

A cidade das cavernas logo atraiu milhares de turistas turcos menos claustrofóbicos, até que, em 1985, a região foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco

Os responsáveis pela construção

A data exata da construção da cidade segue indefinida. Mas a referência mais antiga a Derinkuyu parece estar no livro Anábase, do historiador grego Xenofonte de Atenas, escrito em cerca de 370 a.C.

Nele, Xenofonte menciona o povo anatólio, que morava em casas escavadas no subterrâneo da Capadócia ou perto dela, e não nas cavernas mais populares ao longo dos rochedos, bem conhecidas na região.

Segundo Andrea De Giorgi, professor de estudos clássicos da Universidade do Estado da Flórida, nos Estados Unidos, a Capadócia é excepcionalmente adequada para este tipo de construção subterrânea, devido à falta de água no solo e às suas rochas maleáveis, que podem ser facilmente moldadas.

"A geomorfologia da região convida para escavar espaços subterrâneos", afirma ele. O professor explica que o tufo - a rocha do local - teria sido escavado com relativa facilidade, usando ferramentas simples, como pás e picaretas.

O mesmo material piroclástico foi moldado naturalmente nas chaminés de fadas e nos pináculos que brotam da terra acima do solo.

Mas definir quem construiu Derinkuyu permanece um mistério, ao menos parcialmente.

As bases da extensa rede de cavernas subterrâneas costumam ser atribuídas aos hititas, "que podem ter escavado os primeiros níveis na rocha quando foram atacados pelos frígios, perto do ano 1200 a.C.", segundo A. Bertini, especialista em moradias em cavernas no Mediterrâneo, no seu estudo sobre a arquitetura regional em cavernas.

Fortalecendo esta hipótese, foram encontrados artefatos hititas no interior de Derinkuyu.

Mas a maior parte da cidade provavelmente foi construída pelos frígios, que eram arquitetos muito habilidosos na Idade do Ferro e tinham os meios para construir instalações subterrâneas.

"Os frígios formaram um dos impérios mais importantes da antiga Anatólia", ensina De Giorgi. "Eles se desenvolveram ao longo da Anatólia ocidental por volta do final do primeiro milênio a.C. e costumavam transformar formações rochosas em monumentos e criar notáveis fachadas cortadas na rocha. Seu misterioso reino incluía a maior parte da Anatólia ocidental e central, incluindo a região de Derinkuyu."

No início, Derinkuyu provavelmente era usada para armazenar mercadorias, mas seu propósito principal era servir de abrigo temporário contra invasores estrangeiros. A Capadócia sofreu um fluxo constante de impérios dominadores ao longo dos séculos.

"A sucessão de impérios e seu impacto sobre o panorama da Anatólia explicam o motivo de recorrer a abrigos subterrâneos como Derinkuyu", segundo De Giorgi. "Mas foi na época dos ataques islâmicos [ao Império Bizantino, predominantemente cristão, no século 7°] que essas moradias foram mais utilizadas."

Mais informações e link da reportagem no site: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/09/06/os-misterios-da-maior-cidade-subterranea-ja-descoberta-no-mundo.ghtml


















Fonte das imagens: do Site G1

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Tronco fossilizado com mais de 200 milhões de anos é encontrado no interior do RS durante obra em rodovia

Material tem cerca quatro metros de comprimento, um metro de diâmetro e com peso estimado em sete toneladas


Uma obra de asfaltamento em uma rodovia resultou na descoberta de um tronco fossilizado com idade que ultrapassa os 200 milhões de anos. O fato ocorreu no distrito de Vale Vêneto, em São João do Polêsine, na região central do Rio Grande do Sul.

No mês passado, trabalhadores faziam atividades de asfaltamento da VRS-823. Como de praxe, uma equipe ambiental foi acionada para indicar pontos ambientalmente sensíveis antes do início das obras.

Durante a avaliação, os profissionais notaram que fósseis de troncos afloravam no eixo da rodovia. Assim, teve início o trabalho para retirar a peça do local.

– Quando iniciei a escavação do material, percebi que ele era muito maior do que imaginei. Então, com o apoio logístico da empresa que está fazendo a obra, começamos a escavação – explica José Darival Ferreira, biólogo, supervisor ambiental e paleontólogo da SD Engenharia e Consultoria, uma empresa que presta serviços ao Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer).

Os trabalhadores encontraram um tronco de uma árvore fossilizada que tem cerca quatro metros de comprimento, um metro de diâmetro e com peso estimado em sete toneladas.

– Comparando com outros estratos semelhantes, a idade estimada é de uns 240 milhões de anos – afirma o paleontólogo.

Os trabalhadores utilizaram uma retroescavadeira e um braço mecânico para colocar as peças no caminhão e transportá-las. Por fim, o tronco foi depositado de maneira definitiva no Centro de Apoio a Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), para fins de pesquisa e visitação turística.

Com arquitetura medieval europeia, castelo em Pedras Altas abrirá portas para visitantes e historiadores


Construção pertenceu à família de Assis Brasil, político que nomeia avenidas em cidades gaúchas, e foi cenário da Revolução de 1923

Um pacato município gaúcho, isolado por estradas de chão batido, abriga um centenário castelo de estilo europeu que mudou a história do Rio Grande do Sul. Os seis andares de amplos aposentos foram lar de Joaquim Francisco de Assis Brasil, político gaúcho de influência nacional cujo sobrenome batizou avenidas. Após viver dias de abandono, o castelo inaugurado em 1913, foi comprado em março deste ano por uma família de advogados empenhada em reabrir as portas a turistas e historiadores ávidos por um acervo raríssimo.

Os 44 cômodos, 12 quartos e cinco banheiros concentram antigos móveis, livros, fotografias, diários e cartas retratam a vida de poderosos da Primeira República, época do início do século 20. A hipnotizante biblioteca particular, considerada uma das mais raras do Brasil, reúne mais de 15 mil livros, incluindo títulos de colecionadores, como um exemplar de 1782 da Enciclopédia, dos franceses Diderot e d'Alembert.

A joia rara está encravada em uma granja de 300 hectares na pequena Pedras Altas, cidade de menos de 2 mil habitantes da Região Sul. O castelo, inspirado em palácios medievais europeus, foi construído para abrigar com conforto a esposa de Assis Brasil, Lydia Pereira Felício de São Mamede, descendente da nobreza de Portugal. Estudado, viajado e poliglota, Assis Brasil foi um rico estancieiro e político que articulou a Revolução de 1923, movimento que culminou em 1 mil gaúchos mortos (leia mais abaixo). O conflito foi finalizado com um acordo de paz assinado na sala de estar do castelo.

Até março deste ano, a granja estava sob posse dos 20 descendentes de Assis Brasil, que discordavam sob o destino a ser dado ao castelo - revitalizar, sob custo milionário, ou vender o patrimônio. Do dissenso, surgiu o abandono: o mofo cresceu nas paredes, a pintura do teto caiu sobre móveis, cortinas ficaram puídas, fotografias desbotaram, objetos foram saqueados e as pesadas portas de ferro fecharam-se ao público nos últimos anos.

O cenário mudou quando um dos herdeiros comunicou ao advogado de Santa Maria Luiz Carlos Segat, 56 anos, que a granja estava à venda. Segat e os três filhos buscavam uma propriedade para plantar soja e viram na oferta uma oportunidade. O terreno foi adquirido no nome dos filhos de Luiz Carlos, os advogados Rafael, 36, Gabriela, 33, e Kamilla, 30.

O advogado não quis tornar público o valor da transação, mas as obras de revitalização interna foram estimadas em R$ 10 milhões. O valor será obtido com verbas públicas da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e com patrocínio de empresas por meio da Lei Rouanet, algo comum para construções históricas. Um convênio foi fechado com um supermercado de Santa Maria, e a família deseja abrir pousada e restaurante para sediar eventos e casamentos.

Antes da compra, Luiz Carlos Segat sequer sabia quem era Assis Brasil e a importância da granja. Ao pesquisar sobre o assunto, encantou-se com o valor simbólico do local e criou a Associação Cultural do Castelo de Pedras Altas, da qual é presidente. Tornou-se um aficionado e, hoje, reconta a história da granja com riqueza de detalhes enquanto leva a reportagem de GZH a um passeio na propriedade. Se a família possui um castelo milionário com arquitetura medieval, Luiz Carlos descreve uma infância pobre, filho de uma faxineira e de um pedreiro. Formou-se como técnico em agropecuária e diplomou-se em Direito apenas aos 38 anos.

— Olha como é a vida. Eu gostava muito de estudar e sonhava em comprar uma enciclopédia, daquelas que vendiam na porta de casa. Hoje, chego aqui e tenho a primeira enciclopédia escrita no mundo — diz Luiz Carlos, enquanto embarga a voz e segura as lágrimas nos olhos.

— Veja como é a lei do retorno. Nunca imaginei que teríamos isso na família — completa.

Neta de Assis Brasil, a pecuarista Lydia Costa Pereira de Assis Brasil, 68, viveu 20 anos no castelo, entre 1998 e 2018. Ao longo dos anos, recebeu turistas interessados em conhecer os aposentos da família, mas explica que a multiplicidade de herdeiros impedia um consenso quanto ao destino do castelo. Parte dos descendentes desejava a venda da propriedade e outro grupo pretendia buscar verbas para revitalizar a construção. O interesse dos Segat em atender a ambos os desejos resolveu o impasse familiar.

— A casa é um mergulho no passado. Isso encanta as pessoas. O castelo é uma preciosidade. Todo mundo saiu feliz porque foi vendido para alguém que quer restaurar. Os Segat agora são responsáveis por preservar o patrimônio — pontua.

História transborda

Apesar do aspecto de abandono, o castelo transborda itens históricos. Há um carro presenteado a Assis Brasil por Henry Ford, poltronas e mesa onde foi assinado o acordo de paz que terminou com a Revolução de 1923, um biombo de madeira com assinaturas de figuras como Machado de Assis e Barão de Rio Branco, além de objetos de época. A restauração da estrutura interna deve levar um ano, mas o acervo pode exigir mais tempo. A ideia é abrir para visitação externa em setembro e para entrada interna até dezembro de 2023.

A secretária estadual da Cultura do Rio Grande do Sul, Beatriz Araújo, admira o castelo há anos e afirma que a revitalização é acompanhada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) para assegurar a preservação do acervo. Araújo diz que o governo está empolgado com a reabertura do local e que o Piratini dispõe de R$ 70 milhões por ano para financiar projetos de cultura, o que inclui restauração de patrimônio. O castelo, portanto, pode receber aporte de verbas se a família Segat inscrever um projeto em edital.

— A Secretaria acompanha o processo e dá suporte técnico à família, além de oferecer o sistema de fomento à cultura. O castelo é um ativo muito importante para a região, mas chegou a um estado de deterioração muito grave. Quando reabrir, trará um resultado para a região. Pedras Altas é a cidade do castelo, mas é evidente que outros municípios poderão agregar valor. Só que o turismo não se faz só com um ativo, é preciso trabalhar o entorno — diz Araújo.

Em Pedras Altas, a expectativa para um aumento de turistas após a reabertura do castelo é alta. Durante a visita de GZH à cidade nesta semana, as ruas estavam vazias, sem pessoas ou carros. O único barulho ouvido era o das folhas das árvores sob o vento gelado. Natural de Porto Alegre, a artesã Silmara Abreu, 46 anos, dona de uma loja de artesanato próxima ao castelo, diz que o município é tranquilo e que a população se beneficiaria de uma nova atração.

— Se o castelo abrir para turismo, seria muito bom para nós, moradores e comerciantes. A gente vive em uma cidade pequena. Eu trabalho com artesanato. A pessoa que for no castelo depois pode passar aqui na loja — diz a artesã.

O prefeito de Pedras Altas, Volnei da Silva Oliveira (PT), projeta um futuro repleto de visitantes, o que traria maior arrecadação de impostos. Questionado, ele não informou nenhuma medida da prefeitura para auxiliar na reforma do castelo ou melhorar a infraestrutura turística do município. A prefeitura também não inscreveu nenhum projeto no programa Avançar, do Piratini, que destinará R$ 131 milhões para o turismo.

— Vai ser um momento importante para Pedras Altas. Estamos mal de pousada e de hotel, e a ideia do (Luiz Carlos) Segat é abrir uma pousada. Vai ser uma grande ajuda para o município, vai chamar muitas pessoas na cidade, é importante até para arrecadar recurso. Hoje, nossa dificuldade é não termos acesso asfáltico - diz o prefeito.

UFPel atuará no restauro

A importância do acervo é tão grande que a família Segat firmará um convênio com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) para pesquisadores restaurarem parte dos itens do castelo. A professora de Museologia Noris Leal comandará uma equipe de 15 servidores e alunos dos cursos de Museologia e de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis na empreitada. Desde março, o grupo cataloga o inventário - em breve, iniciará o restauro de obras de arte, móveis, fotografias e documentos.

— O acervo é um dos mais ricos do Brasil, não só pela biblioteca, mas por tudo o que existe no castelo. É um acervo inexplorado que conta muito da história política do Brasil República. Quando estiver aberto à pesquisa, promoverá fontes até então não utilizadas. É importante não só para a história do Rio Grande do Sul, mas também do Brasil. O Assis Brasil foi um dos líderes da revolução de 1923, então há correspondências falando sobre a situação política, relatórios e diários — explica a museóloga.

A disponibilização do acervo para pesquisadores não deve desvelar novidades impactantes que alterem livros didáticos, mas poderá trazer novos detalhes acerca da Revolução de 1923 e da vida de Assis Brasil, diz Fábio Kuhn, professor de História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do livro Breve História do Rio Grande do Sul (Editora Leitura Xxi).

— Alguma grande novidade talvez não traga, mas a correspondência de Assis Brasil com diversas autoridades permite revelar detalhes desconhecidos. A historiografia se vale muito da correspondência privada para entender as atitudes dos homens públicos. Se esse castelo estivesse na Europa ou nos Estados Unidos, já teria uma fundação que o teria reformado, seria um museu com cobrança de ingressos e o arquivo estaria disponível a pesquisadores — diz Kuhn.

Para os herdeiros de Assis Brasil, se o castelo mudou de dono, ficarão para sempre as memórias da avó Lydia e o legado do avô que mudou a história do Rio Grande do Sul:

— Vovó Lydia era maravilhosa, culta e bondosa. Saiu da Europa, veio a Pedras Altas e fez projetos sociais, ajudou a criar o hospital da cidade. O Assis Brasil não perdia um segundo da vida, para ele tudo tinha um fundamento e uma razão de ser. Ele queria demonstrar que, com tecnologia e investimento, uma pequena propriedade poderia produzir o que se produzia em uma légua. Deixou o legado de uma vida bem vivida, de que a gente deve ter um ideal e seguir esse ideal — conta a neta Lydia.

Quem foi Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938)

Advogado, político e pecuarista, Assis Brasil nasceu em São Gabriel e articulou a Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul. Foi deputado na legislatura que criou a nova Constituição brasileira e ajudou a redigir a Constituição gaúcha. Diplomata em Buenos Aires, Lisboa e Washington D.C, Assis Brasil ajudou o Barão de Rio Branco a negociar a compra do Acre pelo governo brasileiro. É considerado o pai do Direito Eleitoral e da Expointer. Casou duas vezes e teve 12 filhos. Morreu no castelo de Pedras Altas.

O que foi a Revolução de 1923

Retratado no livro O Arquipélago, de Erico Verissimo, o movimento armado buscava depor o governador do Rio Grande do Sul Borges de Medeiros, que tinha 25 anos de cargo e reduzira incentivos ao setor agropecuário. O conflito durou menos de um ano e opôs partidários de Borges (chimangos) a apoiadores de Assis Brasil (maragatos), que tentara se eleger como governador, mas perdera em eleições fraudadas. Mais de 1 mil pessoas morreram em batalhas em cidades como Passo Fundo e Palmeira das Missões. O fim se deu com o Tratado de Paz de Pedras Altas, assinado em uma das salas-de-estar do castelo de Assis Brasil. Borges se comprometeu a sair do poder após o fim do mandato.

— A revolução de 1923 foi uma das grandes revoltas do período da Primeira República. Borges tinha uma política econômica de desenvolvimento global, de não privilegiar nenhum setor, então não protegia mais o setor pecuarista, gravemente afetado pela crise econômica do pós-primeira guerra. Borges precisava de dinheiro para colocar em prática o projeto de dragagem do porto de Rio Grande e cobrou dívidas do setor pecuarista. Já Assis Brasil era ligado a uma elite da pecuária que perdeu benefícios. Há um discurso que enaltece virtudes meio heroicas do Assis Brasil, mas ele era um homem do seu tempo, inserido em uma classe social, com interesses econômicos e políticos afetados — analisa Fábio Kuhn, professor de História na UFRGS.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Remodelação da “Neue Nationalgalerie” em Berlim - David Chipperfield Architects

A Neue Nationalgalerie em Berlim é um ícone da arquitetura do século XX. Projetado e construído entre 1963 e 1968, a estrutura de aço e vidro é o único edifício projetado por Ludwig Mies van der Rohe na Europa após sua emigração para os Estados Unidos. 

Após quase cinquenta anos de uso intensivo, o edifício tombado exigia uma reforma abrangente. O tecido existente foi renovado e atualizado de acordo com os padrões técnicos atuais com um comprometimento visual mínimo com a aparência original do edifício. As melhorias funcionais e técnicas incluem ar condicionado, iluminação artificial, segurança e instalações para visitantes, como bengaleiro, refeitório e loja do museu, bem como acesso melhorado para deficientes e manuseio de arte.

A necessidade de uma extensa reparação da envolvente em betão armado e a renovação completa dos serviços técnicos do edifício exigiram uma intervenção profunda. Para expor a construção da concha, cerca de 35.000 componentes originais do edifício foram desmontados, incluindo o revestimento de pedra e todos os acessórios internos. Após a restauração e modificação quando necessário, eles foram reinstalados em suas posições originais precisas.

A chave para o complexo processo de planejamento deste projeto foi encontrar o equilíbrio certo entre preservar o monumento e usar o edifício como um museu moderno. As inevitáveis ​​intervenções no tecido original nesse processo tiveram que ser conciliadas com a preservação do máximo possível da substância original. Embora as adições essenciais permaneçam subordinadas ao projeto existente do edifício, elas são discretamente legíveis como elementos contemporâneos. O projeto de reabilitação não implica uma nova interpretação, mas sim uma reparação respeitosa deste emblemático edifício de Estilo Internacional.

Fonte da Matéria em Espanhol: https://arqa.com/arquitectura/remodelacion-de-la-neue-nationalgalerie-de-berlin.html









Crédito das Imagens: do Site ARQA.