terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Restauro da Casa do Padre Toledo - Tiradentes - MG

A casa do Padre Carlos Toledo da Rua do Sol se destacava das demais da Vila de São José, atual Tiradentes. Ela figura entre os mais importantes exemplares da arquitetura colonial mineira. Outros inconfidentes habitaram casas imponentes e amplas, mas merece destaque a casa de João Rodrigues Macedo, que passou a ser conhecida como Casa dos Contos, em Ouro Preto. Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência, no poema Fala a Comarca do Rio das Mortes faz um retrato impressionante da antiga Vila de São José, que ficara decadente por quase cem anos, devido ao abandono e esquecimento. Neste poema Cecília Meireles clama por Padre Toledo, seus sonhos libertários e sua casa:

“...– Que era paulista soberbo, / paulista de grande raça, / mação, conforme o seu tempo, / e a alegoria pintara / das leis os Cinco Sentidos / nos tetos de sua casa ...”

No livro Patrimônio Construído – As 100 mais belas edificações do Brasil, a Casa do Padre Toledo figura em quatro páginas, que mostram sua fachada, o interior e destaca a beleza dos forros pintados. O espaço foi tombado em 1938.

O imóvel setecentista teve usos diversos e sofreu intervenções, algumas muito significativas. No final do século XIX, adaptaram o torreão ao gosto afrancesado de “chalé”, com lambriques. Uma outra intervenção grande foi para adequá-lo para abrigar o cinema e teatro que lá funcionaram; nesse período, Antonio Faustino da Cruz (1919) ainda se lembra que vendia pastéis dentro da casa, antes das sessões de cinema. Foi residência do Juiz Edmundo Lins, no período em que Tiradentes fora comarca. Abrigou o Seminário São Tiago, criado pela Diocese de São João Del Rei e para isso se construíram anexos para os serviços e garagens; construiu-se uma quadra para as atividades esportivas dos seminaristas. Foi a primeira residência das freiras do Sacré Coeur de Marie.

No dia 24 de janeiro de 1971, inaugurou-se o Museu Casa do Padre Toledo, criado pela Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, hoje administrada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Logo após a implantação do museu, a quadra esportiva, que era usada por muitos jovens locais, teve seu piso destruído. Vários buracos foram abertos para o plantio de árvores tanto na quadra quanto em todo o terreno, segundo proposta do paisagista Roberto Burle Marx. As árvores cresceram muito, uma paineira trouxe expressivos danos à conservação do imóvel e, após atingir grande porte, teve que ser retirada.

O imóvel passou por uma grande restauração na década de 1940, realizada pelo IPHAN e coordenada diretamente por Rodrigo Mello Franco de Andrade, na época diretor do SPHAN. No início da década de 1960 teve outra obra e adequação para abrigar o seminário. Em 1982, realizou-se mais uma reforma. Especialmente as intervenções ocorridas nos forros foram bastante danosas. Ao longo da restauração, o forro do terreão desabou e sua reconstituição ficou a desejar. O mais curioso é que esta obra foi realizada pelo órgão de proteção do patrimônio estadual em um bem que tem dupla proteção federal, através do conjunto arquitetônico de Tiradentes e de tombamento isoladamente, ambos pelo IPHAN.

A restauração teve início em 2010, com ampla reforma estrutural e artística que está sendo realizada pela Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, através de projeto incentivado e patrocinado pelo BNDES. A restauração artística está cuidadosamente sendo realizada pelo CECOR – Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da Escola de Belas Artes, da UFMG. A restauração artística está resgatando o belíssimo colorido e as formas em estilo rococó dos forros pintados.

Paralelamente às obras, pesquisas estão sendo realizadas e coordenadas pelos professores Luiz Carlos Villalta sobre o Padre Toledo e José Newton Coelho Meneses sobre o quintal da casa. O arqueólogo Carlos Magno Guimarães está coordenando as prospecções arqueológicas no porão e no terreno, onde existiam cavalariça, amurados, sistema hidráulico e senzalas. A professora Ivana Parrela é a coordenadora geral do projeto e o Museu Casa do Padre Toledo terá nova proposta museográfica e deverá ser reaberto em de 2012.

O ex-governador de Minas Gerais Juceslino Kubitschek criou a Semana da Inconfidência, que tinha abertura oficial em Tiradentes, com o acendimento da Pira da Liberdade dentro da Casa do Padre Toledo e, após a cerimônia, realizava-se a Corrida do Fogo Simbólico, que chegava a Ouro Preto no dia 21 de Abril. Na cerimônia ouropretana, o Governo mineiro entrega, ainda, a maior condecoração do Estado: a Medalha da Inconfidência Mineira. Lamentavelmente, a partir a gestão do governador Aécio Neves, o Estado de Minas Gerais deixou de realizar a Semana da Inconfidência. O Largo do Sol, com a Casa do Padre Toledo ao fundo, é o cenário das cerimônias cívicas da cidade de Tiradentes.

Texto de Luiz Cruz, professor e coordenador das Visitas Guiadas às obras artísticas da Casa do Padre Toledo.

Fonte Original da Notícia: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/padre-toledo-um-lider-inconfidente

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